Herança de palavras

A cronista imagina como será a recepção das filhas ao lerem, no futuro, textos da mãe em que elas e suas vivências são ficcionalizadas
Ilustração: Guilherme Paixão
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04/07/2021

Tentei fugir de um pensamento mórbido sem sucesso. Acabei cedendo e imaginei o desfecho. A internet e suas gavetas virtuais guardam centenas e centenas de narrativas breves que escrevi pegando emprestado temas da vida, mas que minhas filhas ainda não leram — por preguiça ou quem sabe medo de se reconhecerem em muitas delas.

Tenho uma coluna de histórias no site da Revista Seleções e ali faço uma espécie de “guardatório” — palavra que minha menor usava aos 5 anos — repleto de situações que oscilam entre o sombrio e o delicado. Várias delas são recortes de realidades que as minhas filhas nem sonham que transportei para lá, como as fotos que a gente tira das pessoas de que gostamos sem que eles percebam. Flagras roubados.

Imaginei os dias ou as semanas depois da minha partida desse mundo. Se os textos ainda estiverem na web, boiando, somados a tantos outros que ainda virão, pois pretendo morrer velhinha e escrever bastante, quem sabe elas decidam ler estes registros recusados, ignorados e possam gostar? Quem sabe possam se divertir lendo os recortes delas mesmas, vivências ficcionalizadas, mistura de realidade com invenção, breves relances de momentos na escola, no dia a dia, nas férias…

Tenho um viés do meu trabalho que é trabalhar a esperança, instigar o jovem leitor para que descubra alguma possibilidade de redenção ou amor no meio do caos. Algumas vezes tentei ler em voz alta textos com esse timbre, mas elas logo se dispersaram, aéreas, e vi que era inútil forçar a escuta. Desisti então. Deixei aqueles textos que só existem no virtual para um dia, talvez. Se elas toparem abrir a “gaveta”, como se de lá pudessem tirar cartas antigas, podem até me achar uma pessoa melhor do que imaginam que eu tenha sido — e aí já me lanço numa perspectiva de futuro e me vejo além da vida, como se eu pudesse ter o tom de vê-las lendo meu texto depois da minha morte.

Sim, eu sei, estou mórbida atualmente. Imaginei elas sorrindo diante de alguns achados, as duas juntas, lendo uma para a outra, muitas descobertas submersas. Textos longamente esquecidos. São minha herança.

O escritor no Brasil, de maneira geral, é aquele que luta diariamente para que os direitos autorais possam somar ao menos uma centena por mês. Raridade. O que deixar senão a palavra, o pensamento, a esperança em forma de narrativa? Talvez achem mísero meu testamento; talvez, em contrapartida, fiquem felizes ao perceberem algo mais do que tentei dizer exaustivamente sobre tantas coisas, em especial sobre nunca achar banal o que pode ser sublime.

Escrever em tempos de internet, em que as “gavetas” se multiplicam e os documentos vivem nas nuvens virtuais, garante o acesso mais fácil, com menos poeira, menos traças e mais longevidade. Quem escreve se espalha um tanto mais, estica sua existência. Palavras também são herança, testamento, legado de amor eterno. Tiro meu olhar do futuro e tento voltar para os dias que seguem, na esperança de ainda poder dividir com elas — em vida –— este meu testamento aberto de que elas são a parte essencial.

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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