Esqueletinho verde

O ar, que está cheio de tristeza, é o mesmo por onde voa a frágil esperança. O grande desafio é ter força para abrir a janela e deixar que ela pouse
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03/01/2021

No conto de Clarice Lispector chamado Uma esperança, o inseto invade a casa – um fiapo, quase sem corpo, quase só alma, “burrinha”, guiada pelas antenas, “um esqueletinho verde”. Pensei que, sobretudo neste fim de ano tão sombrio, a ideia escondida neste brevíssimo conto familiar leva a algumas reflexões da hora. Qual a palavra mais dita e mais desejada no momento senão esperança? Como é difícil ter confiança em uma palavra tão frágil diante da dor, tão sem corpo, pura alma…

Ao acreditar em dias melhores, talvez nos transformamos naquele “esqueletinho verde” da história, também mais alma do que corpo, guiados pelas antenas, meio burros ao insistir em acreditar que o instinto de sobrevivência irá prevalecer sobre as tragédias. Contudo, acreditamos. Até porque não acreditar em dias melhores nos deixaria ainda mais trancados, sem asas, sem a luz das frestas, por onde entram as tais esperanças.

Este Natal foi o primeiro da minha vida que passei longe da minha mãe. Confesso que tentei chegar, mas a estrada estava interditada. Por uma destas estranhas organizações cósmicas, caiu um dilúvio na hora em que eu estava quase alcançando a serra. Momentos antes de eu cruzar o primeiro pedágio, a cancela fechou. Uma árvore tinha caído em cima de um caminhão, interditando a passagem. Entendi o recado e voltei para casa. Minha mãe também entendeu, claro, mas no dia seguinte deixou escapar pelos poros a frase – “Tem uma tristeza no ar”. Eu disse: “Não vamos deixar essa frase existir. Tanta gente sofrendo. Não vamos piorar ainda mais as coisas”. Ela imediatamente respondeu: “Parei”.

O ar, que obviamente está cheio de tristeza, é o mesmo ar por onde voa a frágil esperança. O grande desafio é ter força para abrir a janela e deixar que ela pouse. Tentar acreditar que dias melhores virão pode ser coisa de quem está alheio à realidade ou é meio “burrinho” ou ainda se deixa guiar por antenas em vez de pensar, mas talvez seja a única coisa a se fazer no momento: confiar. Confiar que uma força contrária à destruição se edifica diariamente no silêncio dos laboratórios. Com toda a tecnologia mais avançada, o domínio do conhecimento mais sofisticado, algum cientista teria conseguido avançar sem ter esperança? Sem, de alguma forma, acessar o alcance de suas antenas metafísicas e sentir algo semelhante à fé?

Temos muitos motivos para estarmos tristes. Somamos um número absurdo de mortes e ainda assim há quem prefira tomar remédio para piolho em vez da vacina. Difícil mesmo acreditar… Só que não há outra opção. A esperança em dias melhores significa também pensar que as pessoas um dia despertam da ignorância e da brutalidade graças ao trabalho secular de educação básica e de tantas outras urgências. O país um dia despertará. Será? Talvez eu não veja meu país deslanchar. Nem minhas filhas. Mas a opção pela desesperança é mais dolorosa; fechar as janelas é tudo o que não se pode fazer no momento.

Deixemos que os esqueletinhos verdes apareçam, esvoacem, pousem, frágeis, delicados, em seus voos tímidos. Estão cheios de alma, não se esqueçam. E neste momento em que tudo foi revirado quem sabe não é disso o que mais precisamos? Um pouco mais de alma…

Tem muito sofrimento no ar? Sem dúvida. Em contrapartida, muitas surpresas boas transformaram as existências em todo o planeta. Não faltam exemplos, aleluias aqui e ali. É fato que não sabemos quando vamos voltar a respirar novamente da mesma forma – aliás, talvez nunca mais, porque algo se mexeu na estrutura molecular dos ares. Até a forma como capturamos oxigênio pode mudar… O que faremos desta transformação?

Por enquanto, vamos deixar as janelas abertas…

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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