Escreventes insistentes

O tempo e as inúmeras negativas, releituras e reescritas são fundamentais, indissociáveis ao processo de escrever ficção
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05/09/2021

De diversas formas, escrever é insistir. Quem começa no ofício, quando termina os primeiros textos, imagina que estejam prontos e se precipitam para mostrar aos juízes – outros escritores, amigos, familiares ou editores. Custam a entender que o começo é demorado, e o texto, quando se imagina pronto, está longe de ser alguma coisa realmente boa. Escrever pertence aos trabalhos de lenta fervura. O tempo e as inúmeras negativas, releituras e reescritas são fundamentais, indissociáveis ao processo. A percepção dessa realidade, na maioria das vezes, é dolorida.

Venho falar em causa própria. Vou usar um exemplo recente. Comecei a dedilhar meu próximo romance, que será publicado em breve, há uns seis anos. Assim que coloquei o primeiro ponto final, achei que estivesse “pronto”. Antes de mergulhar nas várias releituras que a obra ganhou posteriormente, chegando a se tornar um trabalho muito diferente da primeira versão, achei que pudesse partilhar e que alguma editora não resistiria à tentação de publicar. Autores são narcisistas sem cura. E sofrem por isso.

O romance estava longe de ser o que eu achava que era. Hoje, depois de amadurecer a escrita um tanto mais e acrescentar ao texto a vivência de alguns bons anos (o que certamente influencia na literatura, vamos combinar), agradeço às várias negativas que recebi. Penso que tenham sido uns quatro ou cinco “nãos” disfarçados de “recebemos e logo entraremos em contato”. A cada resposta negativa, eu me recolhia em um sofrimento imenso, por vezes achando o mundo injusto e insensível ao meu talento. Depois de remoer, eu voltava ao texto e via o quanto precisava progredir.

É claro que muitos “nãos” foram silêncios. Os editores são seres atolados de e-mails e originais até o pescoço e a maioria deles não consegue ler nem metade do que recebe. Também há os e-mails que sequer foram abertos ou por falta de tempo ou de interesse pela sua pessoa. Fato!

Digerir tudo isso – nãos e silêncios – é bastante indigesto, mas necessário. Faz parte da trajetória de um livro em formação, pelo menos no meu caso. Aprendi a duras penas – literalmente – que é preciso tempo e distanciamento para que um trabalho esteja pronto. A ansiedade em ver um livro nascer pode atrapalhar o curso de uma obra, mas, contraditoriamente, se não dermos a cara a tapa nunca saberemos. Escrever é insistir.

Há os que choram as mazelas e se trancam. Recusam-se a depurar a obra e não aceitam que um silêncio possa vir para o bem. Eu entendo. É difícil mesmo. Só que o processo lento de transformação pede que os escritores sejam criaturas insistentes não apenas no que diz respeito ao trabalho de elaboração do texto, melhorando cada vez mais o que se escreve, como no que se refere à etapa que se segue: a tentativa de publicação.

Quando eu passo os olhos por aquele primeiro original que entreguei com o coração na mão aguardando uma acolhida, não chego a sentir vergonha, mas vejo o quanto eu ainda tinha que aprender comigo mesma. Endurecer o espírito ao aceitar que, muitas vezes, ninguém se interessou em ler o que você enviou com tanta devoção é uma aprendizagem e tanto. Faz bem à pele do texto, tenha certeza disso.

É claro que não sou tão boazinha assim, e a pior parte de mim desejaria ardentemente que os editores que me negaram ou silenciaram quisessem ler o romance publicado e gostassem do resultado. Mas é bem provável que nem sejam capazes de unir o nome à pessoa e sequer se lembrem de que algum dia você existiu no e-mail deles. Faz parte do jogo editorial, a vida do mercado funciona desta forma.

Que a gente possa crescer como escritores de não em não, de silêncio em silêncio. É assim que se escreve. Insistentemente.

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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