É fds, então fds

Na impossibilidade de ter um domingo de preguiça hollywoodiana, a cronista se contenta com a ideia de abrir um vinho no final do dia
Ilustração: Denise Gonçalves
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07/10/2021

O dia começa lento e incerto. Não sei se é dia, na verdade. Os sons não são nítidos. Não enxergo o relógio na parede. Em uma rara atitude saudável, não durmo mais com celular ligado. Não faço ideia de que horas sejam e não faço muito esforço para descobrir.

Ainda lutando contra a ideia de acordar, escuto o carro da pamonha. É dia, com certeza.

Levantar é sinônimo de dar remédios e comida para a cachorra, comida para a gata, tomar remédios, mais um monte de afazeres domésticos, fazer café, para só então, já exausta, começar o dia.

Lembro que é domingo e me pergunto quando (ou se algum dia) terei, na vida, um domingo desses de preguiça hollywoodiana, sem hora para levantar, sem obrigações e responsabilidades, deixando o sono ir embora por ter se extinto e não por força do Klein, o pequeno. Klein é o nome do meu superego. Nem preciso do final de semana inteiro, não. Domingo já bastaria.

Final de semana. Recentemente descobri que, para a minha geração, fds significa final de semana e, para a geração de filho, foda-se.

A única diferença entre hoje e os outros dias é que aos domingos trabalho de pijamas. Minha mãe falava algo parecido sobre meu pai, como uma crítica, sem entender que não é exatamente uma escolha. Ou será que é? No fundo, é sempre tudo uma escolha. Não me lembro de ter optado por essa quantidade de trabalho, entretanto.

Brinco com a ideia de uma vida paralela, um poderia-ter-sido, um outro caminho. É um jogo absurdo. Só temos a nossa vida e é curta demais. Ainda assim, penso em como estaria hoje se não tivesse ido para a docência. Os cenários vão e voltam de Valhala a Niflheim com muita rapidez. Mas uma coisa é certa: eu precisaria ler menos e-mails irrelevantes.

Alcanço o celular e ligo. O brilho da tela me irrita. São 8h. Quem diabos compra pamonha às 8h de um domingo? Dou uma rápida olhada em mensagens e e-mail, em busca de alguma urgência. Nada que não possa esperar que eu termine os cuidados com os quadrúpedes.

Reúno forças do além e levanto.

Vou abrir um vinho no final do dia. Afinal, é fds, então fds.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

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