Cidades fantasmas

A inutilidade das construções ampliava o vazio, como se o silêncio pudesse, paradoxalmente, gritar
Epecuén, na Argentina, foi coberta pelas águas de uma represa mal arquitetada
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05/05/2021

Naquela tarde de 2017, acelerei ao máximo as tarefas no trabalho para escapar antes do horário costumeiro e não perder a sessão do festival É tudo verdade. Peguei o metrô no Centro, em quinze minutos chegava a Botafogo. O filme, para o qual o ingresso havia sido comprado de antemão, era Cidades fantasmas. Um documentário sobre quatro municípios abandonados: Humerstone, no Chile; Armero, na Colômbia; Fordlândia, no Brasil; e Epecuén, na Argentina.

Na tela do cinema, os planos fixos expunham hotéis, fábricas, casas inabitadas. A inutilidade das construções ampliava o vazio, como se o silêncio pudesse, paradoxalmente, gritar. Recém-saído de longa relação, cercado por quase ninguém na sala, eu também era uma cidade despovoada.

Os locais escolhidos por Spencer Tyrell, diretor do documentário, carregam relatos trágicos. A erupção de um vulcão dá cabo de Armero. Humerstone sucumbe ao fim do ciclo do salitre. Epecuén é coberta pelas águas de uma represa mal arquitetada. Já Fordlândia, que o empresário Henry Ford construiu na selva paraense como um projeto da Companhia Ford Industrial do Brasil, foi simplesmente enjeitada pelo próprio. À decadência econômica sobreveio a vazante.

Nascido em Uruguaiana, na fronteira do Rio Grande do Sul, Tyrell confronta as desérticas imagens com lembranças dos antigos moradores. É no discurso deles que, por alguns momentos, a paisagem ganha pulsação. A palavra recompõe brevemente o movimento capaz de transformar o que era apenas expressão geográfica em uma localidade com “sentimentos, tradições e uma história sua” — cito aqui o antropólogo Robert Ezra Park, investigador dos vínculos entre o indivíduo e o espaço urbano.

Passados quatro anos desde aquela tarde no cinema, me vejo de volta ao Centro. Refaço o trajeto entre a Avenida Marechal Câmara e a Cinelândia. As lojas, os restaurantes, as lanchonetes têm suas portas de ferro fechadas. As luzes estão apagadas em repartições, salas, escritórios. Aqui e ali, placas de aluga-se, passo o ponto. Um grupo de mendigos dorme sob a marquise.

As cenas do filme então retornam, reverberam na massa disforme da memória. A essa altura, já na Avenida Rio Branco, me aproximo do Edifício Marquês do Herval. Lá estão as livrarias Leonardo da Vinci e Berinjela, resistindo ao ocaso. Penso em Drummond, que homenageou a Da Vinci com um poema. Dizia ele que tudo o que acontece em uma cidade retumba com maior ou menor intensidade, fisicamente, no peito de seus moradores. Quatrocentos mil brasileiros mortos; quarenta e três mil desses, no Rio de Janeiro. E o coração do Centro parou.

“Se a rua é para o homem urbano o que a estrada foi para o homem social, é claro que a preocupação maior, associada a todas as outras ideias do ser das cidades, é a rua”, escreveu João do Rio, outro autor versado na experiência urbana.

Mas o presente se impõe, alheio. Sem cerimônia, esfriou o magma que, ao juntar entusiasmo, insurgência, raiva, deboche, júbilo, expectativa, fazia das ruas do Centro muito mais do que mera pavimentação. Restam seus ossos, pequenos sedimentos já quase ressequidos.

>>>Nesta quinta-feira (6), o cronista Marcelo Moutinho lança o livro A lua na caixa d’água.

Marcelo Moutinho

É autor dos livros Rua de dentro (2020), Ferrugem (vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional, 2017), Na dobra do dia (2015), A palavra ausente (2011), Somos todos iguais nesta noite (2006) e do infantil A menina que perdeu as cores (2013), entre outros.

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