Carta de amor aos ermitões

Sei que tudo vem despencando: a porta do armário da cozinha, a bunda – e concordo, não vale a pena interagir com terceiros por tão pouco
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31/03/2021

Do alto da minha montanha de concreto, escrevo para você, que habita solitário outro cume. Daqui vejo seu braço flácido de quem nunca mais foi à academia. Sua nova capa abdominal de lipídios e angústia. Também vejo as máscaras tremulando no varal, como bandeiras de um país que se recusa a ser o país do presidente.

Obrigada, meu caro amigo distante, por seguir distante. Por ter declinado aquele convite para uma festa íntima, ainda que cada célula do seu corpo implorasse: vá, preciso ser abraçada até a mitocôndria.

Esses dias vi você de longe, soprando uma vela de aniversário e pedindo saúde. Ou era vacina? Do seu lado, ninguém ou quase ninguém para dividir o bolo, os restos por dias aniversariando na geladeira. Não é estranho envelhecer tanto em um único ano? Ver fios brancos avançando pela cabeça como murmúrios? Agradeço por deixar que avancem, como os pelos não depilados, as cutículas não arrancadas, o mato do corpo que você aprendeu a deixar crescer ou aparar sozinho, já pouco se importando se um lado do cabelo está em desnível com o outro.

Se há alguns anos alguém aparecesse num consultório psiquiátrico dizendo que aperta o botão do elevador com o cotovelo, seria diagnosticado com transtorno grave. Agora maluco é quem se recusa a fazer isso, e de novo te agradeço pela sanidade de seguir areando maçãs e melancias.

Sei que não tem sido fácil com os filhos. Ouvi falar de um menino que aprendeu a andar dentro do apartamento e talvez tenha estranhado ter passos tão largos, um coração tão ávido por descobertas, quando o mundo que lhe foi apresentado tem por norte o quarto e por sul a sala de tevê.

Daqui também observo seus dias, diferenciados apenas pela cor de meia que o filho largou na sala, pela quantidade de lágrimas que você derramou no banheiro. Sei que tudo vem despencando: a porta do armário da cozinha, a bunda – e concordo, não vale a pena interagir com terceiros por tão pouco.

E no meio de tudo isso, uma alegria possível: bater panelas, não só para gritar contra o governo mas para sentir que a sua frigideira não está sozinha, que no prédio ao lado há uma caçarola e uma leiteira cozinhando a mesma tristeza.

Obrigada por fazer do pijama seu fraque, dos chinelos sua cartola. Por todo dia resistir à aventura, ainda que um pouco de aventura seja tudo o que você mais queira. Talvez um consolo seja colecionar o não feito: o abraço que você não deu, o sexo casual do qual se esquivou, a viagem da qual desistiu, como joias de um tesouro às avessas, onde o fundo do baú vazio brilha pelo fato de você estar vivo e poder olhar para ele.

Não é a vida que queremos, mas é a vida que está dando para ter. E ainda que doa, ainda que você precise dormir enrolado num tarja preta, durma o sono dos justos: em algum lugar, alguém respira por causa de você.

Giovana Madalosso

Nasceu em Curitiba (PR), em 1975. É autora de A teta racional (livro de contos finalista do Prêmio Literário Biblioteca Nacional), e dos romances Tudo pode ser roubado (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura) e Suíte Tóquio.

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