Ave, festa!

Você pode dançar como uma libélula reumática, ser inconveniente com os amigos, vomitar no banheiro e, mesmo assim, lembrará do evento com um sorriso
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17/02/2021

Conto os dias para ir a uma festa de novo. Não deve ser tão cedo. As que rolam durante a pandemia são tristíssimas, verdadeiras não-festas, onde a essência da celebração se perde entre os umbigos espaçosos dos egoístas.

Quero festa de verdade, daquelas que celebram a vida do lado de dentro e de fora. Pode ser para comemorar aniversário, puberdade, casamento, corte de prepúcio, dia de santo, bodas de ouro ou algodão, inauguração de obelisco na cidade, colheita da uva.

Foi assim que comecei minha carreira na boemia, sentada no colo de Baco, na Festa da Uva do bairro onde nasci. Segundo meu pai, quando criaram a festa, o objetivo nem era festejar a abundância de cachos, mas dar um pretexto para os jovens se conhecerem, flerte incentivado pela venda de rifas, quando moças e rapazes podiam conversar e contar centavos sem a presença de outros. Já adulta participei de um Mariri indígena que não tinha rifa mas botava adolescentes numa roda e convidava os garotos a carregarem nas costas uma garota escolhida, para ver se aguentavam o tranco. Nessa festa também assisti a uma brincadeira maravilhosa, em que desafetos podiam bater com suavidade – e com a mediação e anuência da comunidade – um no outro, de forma a zerar suas rusgas.

E o que dizer da exuberância kitsch das festas de quinze anos? Fui a uma em que o irmão mais novo da donzela (socorro, Simone de Beauvoir) vestia-se de príncipe e levava para ela um sapato de salto, que ela colocava em público, simbolizando sua entrada na vida adulta. Depois, amigos acasalantes dançavam em torno da moça, enquanto os pais assistiam, deslizando a mão na perna do cônjuge ou cônjuge de outra pessoa por baixo da mesa.

Não vejo problema em perder o controle. Aliás, acho esse o maior benefício da festa: criar um ambiente propício para a perda de controle. Você bebe mais do que deve, fala o que não deve, olha para quem não deve – e agora eu pergunto, quem é o problema: você ou o deve? Claro que o deve, esse opressor em forma de verbo. Livrar-se do deve de vez em quando é tão saudável que você pode invadir a pista e dançar como uma libélula reumática, ser inconveniente com os amigos, vomitar no banheiro e, mesmo assim, um dia lembrará do evento com um sorriso.

Em que outro ambiente um ser humano pode olhar nos olhos de um completo desconhecido e dizer: you can ring my bell? E não contente com isso, balançar os quadris, descer a mão pelo corpo e ainda repetir: my bell, my bell, my bell? Certamente não numa reunião de balanço de empresa. A não ser que esse balanço seja o samba-rock, depois do expediente.

Até de festa estranha com gente esquisita eu gosto. Uma vez fui a um encontro ao ar livre em Lisboa, em que cada um deveria levar seus fones e dançar a própria música. As condições não inspiravam muita interação. Fiquei sozinha ruminando meu Daft Punk e olhando o horizonte melancólico da cidade, sem conversar com ninguém. Mesmo assim fui embora satisfeita, banhada na força revigorante do absurdo.

Do carnaval nem vou falar porque molharia o teclado. Opa, acho que já estou molhando o teclado, e tudo bem, como é bom chorar em tempos tão duros. E lembrar, como faço agora, da festa que transforma até túmulo em berço. Sim, eu vi o samba renascer em São Paulo, os postes virarem coqueiros, o cinza e as cinzas do centro virarem purpurina. Como gosto de caminhar de ressaca na quarta-feira e topar com os restos insólitos da folia: tridente e chapéu de marinheiro no lixo, no galho de uma árvore, serpentina.

Pela primeira vez, nesse ano-novo não tive festa. Jantamos apenas eu, meu companheiro, minha filha e meus enteados, no apartamento de uma cidade triste e vazia, onde não se ouvia nem rojão. Íamos ver um filme mas lá pelas tantas alguém pôs uma música. Não sei quem afastou os móveis, não sei quem trouxe o pinheirinho piscante para o canto da pista, só sei que de repente estávamos todos pogando ao som de Blister in the sun, e chutando o ano-velho, e cotovelando a pandemia, e cantando até as duas da manhã.

Giovana Madalosso

Nasceu em Curitiba (PR), em 1975. É autora de A teta racional (livro de contos finalista do Prêmio Literário Biblioteca Nacional), e dos romances Tudo pode ser roubado (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura) e Suíte Tóquio.

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