A rica Manuela do morro

O grupo de jovens leitores que encara uma montanha diária; estão ávidos por atenção, carinho, palavra
Detalhe da capa de “A repolheira”. Ilustração: Raquel Díaz Reguera
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02/05/2021

No topo de um morro, à esquerda, fica a escola pública onde vou falar com duas turmas de sextos anos. Estou em Porto Alegre, é quase natal, mas ainda faz frio. Fico ansiosa, como será a recepção? Carrego lanche, salgadinhos, torta e refrigerante. A professora me ajuda a levar as sacolas, está feliz com a minha chegada. Fico um pouco menos ansiosa. Do lado dela, quem me recebe é Manu, que, aos 12 anos, mostra euforia com a presença da escritora. Me sinto ilustre, a ansiedade má se evapora. Aproveito o momento pop star e abraço a menina; devolvo a euforia. Ainda não está na hora de entrar para a sala, então fico do lado de fora, no pátio, conversando com a anfitriã, enquanto a professora entra para organizar o que falta.

– Já li A repolheira três vezes – ela me diz, aumentando minha ilusão de celebridade momentânea.

Eu tinha enviado o livro meses antes, para que os alunos pudessem preparar alguma atividade. Como o espaço da biblioteca é pequeno, não tem lugar para muitos exemplares de um mesmo livro. Ela precisou ficar na fila para ler e reler.

Quero saber mais sobre a minha nova leitora, junto de quem me sento no pátio de grama, em frente à vista panorâmica da cidade. Ela me conta de seus irmãos, sua vida em casa, a dificuldade de chegar à escola, enfim, a realidade compartilhada com a maioria dos colegas e dos alunos de escolas públicas do país.

Pergunto:

– E qual foi a sua maior alegria esse ano?

Imaginei que talvez pudesse ser um brinquedo ou algo material no meio de uma vida desprovida de tudo.

Ela me responde sem precisar pensar um segundo sequer:

– Foi ter faltado aula só um dia.

Manu tinha conseguido ir à escola praticamente o ano inteiro. As dificuldades eram imensas, começando pelo deslocamento – chuva, lama escorrendo morro abaixo. Subir a “montanha” real que leva os alunos ao topo onde fica a escola é um desafio à parte. São várias as montanhas simbólicas que eles precisam escalar. Manu tinha conseguido. A alegria de estar na escola para aprender. A alegria de estar na escola para… ler! Manu leitora de A repolheira – um livro de quase 50 páginas que fala da transformação de uma personagem antes solitária. Um livro existencialista de alguma forma. E ela leu três vezes! Disse que só não leu mais vezes porque a classe toda tinha que ler.

Ela me parece muito contente naquele dia especial. Tento não chorar para não fazer a idiota, mas deixo que ela saiba que estou emocionada por dividir meu tempo com ela. Não quero me sentir importante, o que seria uma tolice ainda maior. No entanto, Manu me faz importante, porque minha presença naquele momento é uma celebração.

A professora me chama para conhecer a escola. Manu se junta a um grupo de adolescentes que vão me mostrar as salas. Me encanto com a biblioteca, onde há um piano. Os livros apinhados nas pequenas estantes. As paredes cheias de trabalhos, fotos. Estão orgulhosos com a decoração da “casa na montanha”.

Entro na ciranda que a professora montou com as cadeiras e estou frente a frente com a turma. Sobrou a ansiedade boa, tenho o coração aberto. Logo de cara, pelos trabalhos, vejo que os alunos, a maioria pelo menos, leu A repolheira. Não todos individualmente, grande parte fez a leitura em grupo, em voz alta, em sala de aula. A dificuldade de concentração para leitura em casa é um dos maiores desafios, pode-se imaginar. Mas leram. E agora me fazem perguntas, comentários. Têm curiosidade sobre como surgiu a história. São ávidos por atenção, carinho, palavra.

A conversa de mais de uma hora com a turma flui e me sinto radiante. Vejo em um dos painéis que eles montaram a minha foto e as palavras: amor e solidão – um resumo, quem sabe, da minha obra. Depois chega o momento das fotos, do lanche, dos abraços. A professora me convida para um café, me agradece muito.

Saio de lá com a certeza de que vou voltar sempre.

Guardo a imagem daquela pequena biblioteca da escola, que tem a foto de Mario Quintana na porta. Um espaço mágico que talvez eles ainda não percebam a dimensão. Não importa. Ela está ali, brilhando como possibilidade de transformação. São leitores, sim, cada um a seu modo, tentando subir montanhas. Naturalmente nem todos são leitores como Manu, mas existem, sim, muitas Manus espalhadas pelo Brasil. Alguns estão no começo do caminho, na tentativa de subir o morro das adversidades diárias, de insistir na escalada mesmo com os pés mergulhados no lamaçal. Outros desistem, claro. Mas quem vai fazer a conta dos que não desistem e que, como Manu, minha anfitriã, comemora o ano em que quase não precisou faltar aula?

Manu leitora. Rica, riquíssima. Precisamos da fortuna de Manu para salvar o país.

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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