A recepção de “Grande sertão: veredas”

Quando lançado, em 1956, o hoje canônico romance de Guimarães Rosa ganhou inúmeros desafetos, que não o compreenderam – nem ao livro, nem ao autor
Ilustração: FP Rodrigues
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18/06/2021

Antenado(a) leitor(a), você há de concordar comigo que parece não haver dúvida de que Grande sertão: veredas é um marco da literatura brasileira e seu autor, Guimarães Rosa, um dos maiores escritores da língua portuguesa. Mas não foi sempre assim. Se à época do lançamento, 1956, houve gente como Tristão de Athayde, Cavalcanti Proença e Sérgio Milliet que reconheceu imediatamente a genialidade do autor, nem de longe a obra contou com uma recepção favorável.

No ano mesmo de sua publicação, o respeitado crítico Wilson Martins publicou um extenso artigo, intitulado ironicamente Um novo Valdomiro Silveira, em que afirmava: “O que acontece é que, sob as aparências da interpretação mais direta, o sr. Guimarães Rosa na verdade nos oferece uma transcrição eminentemente literária da realidade. Com isso, os seus heróis perdem densidade e ganham convencionalismo: como os ‘gaúchos’ de Simões Lopes Neto ou os ‘caboclos’ de Valdomiro Silveira, os ‘vaqueiros’ e ‘jagunços’ do sr. Guimarães Rosa não escapam de certa construção estereotipada, mais ou menos mecânica e sem surpresas, que fazem desse livro, que deveria ser um ‘documento humano’, apenas uma obra-prima de literatura”.

Inconformada com a quantidade de cartas de leitores que reclamavam do livro de Guimarães Rosa, a revista Leitura, um dos mais importantes órgãos de divulgação de literatura entre as décadas de 1940 e 1960, promoveu dois anos após o lançamento do romance uma enquete e publicou matéria intitulada Escritores que não conseguem ler Grande sertão: veredas. Abaixo, seguem algumas das opiniões – e, no fim, a reação do próprio Guimarães Rosa a respeito desta recepção desfavorável.

Grande sertão: veredas é uma imitação de Ulisses, de Joyce, e sofre, consequentemente, dos males de toda imitação” – Barbosa Lima Sobrinho

“Gosto muito do Guimarães Rosa, mas quando ele não cai nos excessos do virtuosismo, numa espécie de esnobismo literário. (…) Acho que o Guimarães Rosa devia pôr de lado esse injustificado pudor de ser simples, que está dominando sua obra, e que amanhã poderá esterilizar por completo o seu poder criador” – Joel Silveira

“Se a intenção de Guimarães Rosa, em Grande sertão: veredas, foi pretender criar uma linguagem nova, ao seu gosto e preferências pessoais, terá certamente atingido esse objetivo. Essa é a linguagem do criador de Sagarana, quer dizer, toda sua, jamais uma reprodução do linguajar regional, dos grupos sociais em que situou os episódios da sua última obra” – Ascendino Leite

“Li 70 páginas de Grande sertão: veredas. Não pude ir adiante. À essa altura o livro começou a parecer-me uma história de cangaço contada para os linguistas. Parei, mas também sempre fui péssimo leitor de ficção” – Ferreira Gullar

“Diante de seus famosos Corpo de baile e Grande sertão: veredas sinto-me um analfabeto. Várias vezes tenho-me preparado para gozar as delícias desse novo mundo, mas me engancho miseravelmente oito ou dez páginas adiante. Quer me parecer – sem que isso implique em desconsideração à sua obra – que o número dos eleitos é bem pequeno” – Permínio Ásfora

“A obra de Guimarães Rosa, apesar do interesse que possa oferecer, constitui um equívoco literário, que necessita ser imediatamente desfeito” – Adonias Filho

“Guimarães Rosa é escritor para escritores de seu tempo, que se deleitam com o virtuosismo verbal dele, mas separa-se do leitor comum de hoje e talvez aliene de todo o leitor do futuro, que não terá pontos de referência para compreender suas frases e vocábulos” – Ivan Pedro de Martins

Além desses, a revista consultou ainda outros intelectuais, que disseram apenas que não conseguiram passar das primeiras páginas, entre eles, Agripino Grieco, Raymundo Souza Dantas e Marques Rebelo*.

E o que pensava o próprio Guimarães Rosa sobre as críticas acima?

“No começo da minha carreira vários deles [críticos] me atacaram sem absolutamente me compreenderem, pois me lançavam ao rosto que meu estilo era exaltado, que eu permanecia no irreal, e assim toda espécie de retórica. Não é possível dialogar com pessoas que manifestam por escrito a sua incompetência, pois lhe falta a condição básica para o diálogo: o respeito mútuo.”

*Curioso que Marques Rebelo rechaçasse Grande sertão: veredas, em 1958, quando, exatos 20 anos antes, manteve uma grande discussão com Graciliano Ramos, durante votação do Prêmio Humberto de Campos, patrocinada pela Livraria e Editora José Olympio. Rebelo “gritou, espumou” defendendo o primeiro lugar para um livro intitulado Contos, de Viator, contra Graciliano, que, apesar de reconhecer méritos neste volume, optou por um outro, intitulado Maria Perigosa, de Luís Jardim, que acabou levando o prêmio. O livro perdedor seria publicado apenas em 1946, com o título de Sagarana, o nome do autor, Guimarães Rosa, devidamente aposto na capa.

Luz na escuridão
Maria Esther Maciel, poeta, ensaísta, romancista:

“Acaba de ser lançado o meu livro Pequena enciclopédia de seres comuns – uma coleção de verbetes poético-descritivos sobre animais e vegetais de diferentes gêneros, famílias e espécies, com ilustrações da incrível artista mineira Julia Panadés. Com referências científicas e elementos ficcionais, os textos foram distribuídos em quatro séries: Marias, Joões, Viúvas/viuvinhas e Híbridos. O princípio de organização é sempre onomástico. Na primeira, os bichos e plantas, com suas respectivas designações científicas, têm Maria no nome. Na segunda, estão vários seres com nome João. Na terceira, os que se chamam viúvas e viuvinhas. Já na quarta, aparecem seres animais e vegetais com nomes híbridos, como ‘peixe-boi’, ‘flor-leopardo’, ‘orquídea-macaco’, ‘grilo-toupeira’, ‘cobra-papagaio’, ‘mico-leão’ etc. Quase todos os seres existem, com exceção de alguns poucos, que foram imaginados seguindo o modelo dos demais. Busco, com isso, não apenas retomar as antigas enciclopédias da natureza, como também reinventar, parodicamente, os manuais científicos de zoologia e botânica. O livro pode ser adquirido no site da Todavia.

Parachoque de caminhão
“Os cachorros, assim como muitas pessoas, precisam de um amo para conseguir viver.”
Julio Ramón Ribeyro (1929-1994) 

Antologia pessoal da poesia brasileira
Raul de Leoni
(Petrópolis, RJ, – 1895-1926)

Ingratidão

Nunca mais me esqueci!… Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
Cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança…

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio…

(Luz mediterrânea, 1922)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

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