A estrangeira

Albert Camus acompanha a cronista pelos dias pandêmicos, sempre lembrando que se pode mudar de profissão, de moradia, de amante, mas não é possível ter outra vida
Ilustração: Denise Gonçalves
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on telegram
23/09/2021

Fui caminhando. A pandemia mudou, para mim, o olhar. Me sinto muitas vezes o senhor Meursault, vendo um mundo sem sentido, à distância. Essa foi uma dessas vezes.

Descendo a Paulista, olhava o mundo à minha volta como uma estrangeira prestes a matar ou a morrer.

Camus me acompanha e lembro da noção de que não é possível ter outra vida. Podemos mudar de profissão, de moradia, de amante, mas a vida continua sendo a mesma. E cruelmente nossa.

Não tenho a apatia de Meursault, mas a falta de lógica me causa o mesmo estranhamento.

Depois de quase dois anos de abstinência, fui ao cinema. A telona foi, disparado, do que mais senti falta durante a quarentena. Essa é a única suspensão da descrença que me parece razoável, onde enxergo uma certa beleza. Todas as outras, religiões incluídas, sempre me soaram como válvulas de escape para a mesma vida, para o mesmo mundo.

Prefiro a minha vida com pressão. Sem escapes.

Prefiro ter toda a vida
A vida como inimiga
A ter na morte da vida
Minha sorte decidida

Viramundo era uma das canções preferidas da minha mãe. Entendo e compartilho.

Não, a pandemia não acabou, mas decidi que se estou vacinada o suficiente para voltar à sala de aula presencial, estou para ir ao cinema. Todos os cuidados, máscara o tempo todo e sem pipoca, lá fui eu me encontrar com o Clint Eastwood no Reserva Cultural, em plena Avenida Paulista de sábado movimentado.

Fui crente que todas aquelas coisas que me irritavam na sala de cinema ficariam diminuídas pelas saudades, que nem defeito de ex-namorado. Achei que as conversas, as telas iluminadas de celulares inconvenientes e a movimentação dos outros não fossem me incomodar. Eu estava errada.

Jean-Paul Sartre está certo. O inferno são os outros.

Antes do filme começar apareceu um sujeito com cara de idiota em uma ideia idiota de comentar trailer idiota de filme idiota. Supresa: ficou idiota. Não sei quem é o cidadão e tive preguiça de pesquisar. Não era uma análise, eram comentários do tipo “tem muito tiro”, uma legenda falada do que estava passando. Análises podem ser muito interessantes mas, infelizmente, não era o caso. Mas o que mais me intriga é saber que algum energúmeno achou necessário comentar um trailer. Pior, um trailer de filme de ação. Não esperei quase dois anos para ser ofendida dessa maneira.

Cry Macho, o último filme badalado-sensível-arte do Clint Eastwood é bonito e merece ser visto mas não é tudo isso que a crítica está falando, não. Se bem que, se considerarmos as alternativas em cartaz, é uma obra-prima.

Achei terno que o papel do Clint Eastwood seja, justamente, do gringo viejo. Tenho carinho por quem consegue se ver dessa forma. Somos todos, de uma certa maneira, gringos viejos.

Volto pelo mesmo caminho e, com o mesmo estranhamento, reparo no café cheio de nativos sem máscara. Também sinto falta desse tipo de estar no mundo, mas não a ponto de alargar a suspensão da descrença para além dos limites da tela.

A vida, essa mesmo que continua sendo inexoravelmente minha, é frágil e pretendo preservá-la o máximo que conseguir.

A falta de sentido no mundo faz com que eu apresse os passos.

Chego em casa e o filho sorri.

Está tudo bem, afinal.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Últimas edições

Publicidade

Publicidade