Lima Barreto contra os “futuristas”

Novas revelações sobre a controvérsia do autor carioca com os modernistas e sua colaboração na revista Brazílea, nunca antes mencionada
Ilustração: Alexandre Rampazo
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29/11/2020

Lima Barreto, embora um dos nossos maiores autores, custou a entrar para o cânone da literatura brasileira. Mas, de uns tempos para cá, graças aos esforços de vários especialistas, com destaque para a excelente biografia de Lilia Moritz Schwarcz (Lima Barreto: Triste visionário, 2017), à compilação da obra inédita feita por Beatriz Resende (Toda crônica, 2004, com Rachel Valença) e à devoção de Antonio Arnoni Prado (Lima Barreto: uma autobiografia literária, 2012), o escritor carioca tem ganhado justo e merecido destaque. Um dos motivos pelos quais Lima Barreto foi relegado ao limbo pela crítica deveu-se à sua aberta rejeição aos “futuristas”. Neste artigo, tento lançar novas luzes sobre essa controvérsia.

Em carta a Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda informa que entregou a Lima Barreto um exemplar do nº 3 da Klaxon, lançada no dia 15 de julho de 1922, para que ele escrevesse sobre a revista[1]. Uma semana depois, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma divulga um texto no periódico semanal Careta, intitulado O Futurismo, onde afirma que São Paulo “agora quer nos impingir como descoberta dele, o tal de ‘futurismo”: “Disse cá comigo: Esses moços tão estimáveis pensam mesmo que não sabíamos disso de futurismo? Há vinte anos, ou mais, que se fala nisto e não há quem leia a mais ordinária revista francesa ou o pasquim mais ordinário da Itália que não conheça as cabotinagens do ‘il Marinetti’”. E termina com um julgamento certeiro: “O que há de azedume neste artiguete não representa nenhuma hostilidade aos moços que fundaram a Klaxon; mas sim a manifestação da minha sincera antipatia contra o grotesco ‘Futurismo’, que no fundo não é senão brutalidade, grosseria e escatologia, sobretudo essa”[2].

Esse artigo é de amplo conhecimento público, porém — e essa é uma revelação inédita — Lima Barreto voltaria ao assunto quinze dias depois, na mesma revista Careta. Na edição nº 737, datada de 5 de agosto de 1922, ele desanca o escritor português António Ferro, sem citar seu nome, num texto intitulado Esthetica do “Ferro” — uma alusão ao poeta lusitano, evidenciada pelo uso de maiúscula no sobrenome colocado entre aspas — cujo manifesto Nós foi estampado nas páginas 1 e 2 daquele mesmo número da revista Klaxon. A publicação do manifesto — distribuído em 1921, pelo próprio António Ferro, na porta do café A Brasileira, em Lisboa — deveu-se à iniciativa de Buarque de Holanda, que o enviou para Mário de Andrade[3].

Ferro encontrava-se na época no Brasil, onde desembarcou no Rio de Janeiro no dia 22 de maio de 1922[4], vindo de Portugal no paquete Belle Isle, e naquela cidade permaneceu até 30 de julho[5], realizando uma série de atividades, como conferências, discursos e declamações. Tratado como “o brilhante escritor que dirige a Ilustração Portuguesa”, Ferro chegou com a companhia de teatro de Lucília Simões, e sua estada na capital da república contou com ampla cobertura da imprensa. Do Rio de Janeiro, Ferro viajou para São Paulo, onde manteve contato com os modernistas da Klaxon[6] e apresentou uma peça de sua autoria, Mar alto, na qual também atuava. Da capital paulista, viajou novamente e em fevereiro encontrava-se em Belo Horizonte, onde encenou a mesma peça, nos dias 6 e 8 de fevereiro de 1923, episódio do qual Carlos Drummond de Andrade guardava nítida recordação[7]. Finalmente, no dia 14 de março de 1923, Ferro embarca de volta para Portugal, no paquete Oravia[8].

Em seu artigo, Lima Barreto não poupa ironias contra o poeta português: “Agora aparece um cidadão de ultramar que se diz inovador e criador de uma nova escola literária. Leio-lhe os escritos e procuro a novidade. Onde está ela? Em parte alguma. O que há neles é berreiro e vociferações, manifestações de vaidade e impotência de criação”[9] (a íntegra vai publicada nesta página). Creio, portanto, que o azedume demonstrado por Lima Barreto no artigo O Futurismo estava muito mais vinculado à badalada presença de António Ferro na imprensa — incluindo a Klaxon — e à sua vinculação ao movimento liderado pelo poeta italiano Marinetti, do que propriamente aos modernistas paulistas, a quem ele explicitamente poupa.

Aliás, é admirável o tirocínio de Lima Barreto. Assim como Marinetti, António Ferro, que havia sido editor da revista modernista portuguesa Orpheu, que circulou em Portugal no primeiro semestre de 1915, tendo como principais colaboradores Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, viria a abraçar com volúpia o fascismo. Ferro tornou-se titular da Secretaria de Propaganda Nacional de Portugal, entre 1933 e 1949, criada por sugestão dele, organismo responsável pela propaganda e pela política cultural do governo Salazar.

Este texto, Esthetica do “Ferro”, aparece na compilação Impressões de leitura, de Francisco de Assis Barbosa, lançada em 1956 pela editora Brasiliense, e retomada por Beatriz Resende, com o título de Impressões de leitura e outros textos críticos, em 2017, pela Penguin & Companhia das Letras. Só que, em ambos os volumes, ele é dado como tendo sido publicado em 1907, quinze anos antes da data correta de sua divulgação[10]. Por isso, acredito, ninguém até agora atentou para o fato de que se tratava, na verdade, de um segundo ataque contra os “futuristas” — como os modernistas então eram também chamados —, o que ocasionou uma arremetida furiosa contra Lima Barreto, na edição nº 4 da Klaxon, de 15 de agosto de 1922. Em nota não assinada na coluna Luzes & Refrações, o autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha é chamado de “escritor de bairro” que, armado de uma “navalha”, “desembocou duma das vielas da Saúde, gentilmente confiado nas suas rasteiras”, e ainda xingado de ignorante… A nota faz referência apenas ao primeiro artigo, de 22 de julho, até porque, quando o segundo artigo foi publicado, em 5 de agosto, a revista deveria já estar em gráfica.

Os modernistas não iriam mais tocar na questão da controvérsia com Lima Barreto, que morria de colapso cardíaco no dia 1º de novembro daquele mesmo ano — mas também não iriam nunca perdoá-lo. No balanço intitulado O movimento modernista, Mário de Andrade confessa, em 1942, que, embora conhecessem a poesia de Manuel Bandeira, os paulistas desconheciam os nomes de possíveis “elos precursores” do movimento no Rio de Janeiro, citando de forma explícita Adelino Magalhães e Nestor Vítor, e intencionalmente omitindo o nome de Lima Barreto[11], ratificando uma injustiça que levaria décadas para ser reparada…

Essa descoberta deu-se absolutamente por acaso, assim como também as que se seguem. Pouco se fala das relações de Lima Barreto com o grupo ligado a Jackson de Figueiredo. Mas o escritor carioca manteve-se bem próximo tanto de Figueiredo quanto de seu discípulo, Andrade Muricy, a quem, aliás, dedicou uma de suas obras-primas, o conto Clara dos Anjos, publicado no nº 5, de dezembro de 1919, da revista América Latina, dirigida por Muricy e por Tasso da Silveira. Jackson de Figueiredo considerava Lima Barreto superior a Machado de Assis, conforme relata Francisco de Assis Barbosa[12], e Muricy dizia-o o “sucessor mais completo e mais complexo” de Manuel Antônio de Almeida[13].

A relação de Lima Barreto com Figueiredo levou-o a publicar na revista Brazílea, que tinha Figueiredo como diretor, Tasso da Silveira como redator e Muricy como colaborador, e circulou entre janeiro de 1917 e junho do ano seguinte. A participação de Lima Barreto nessa revista, ao que parece nunca mencionada até agora, ocorreu em três ocasiões. No nº 3, de março de 1917, saiu o texto intitulado Notícia sobre o Isaías Caminha, que se tornaria prefácio do romance Recordações do escrivão Isaías Caminha, a partir de sua segunda edição, revista e aumentada, lançada em setembro daquele mesmo ano. No nº 7, de julho de 1917, Lima Barreto publicaria o capítulo XIV de Os Bruzundangas, que ainda levava o título de Uma província da Bruzundanga, lançado postumamente em 1922. Finalmente, no nº 15, de junho de 1918, seria publicado o texto Alvarás, cartas régias, etc., recolhido pelo autor no volume Feiras e mafuás, lançado postumamente apenas em 1956, e reproduzido no volume I de Toda crônica, de Beatriz Resende e Rachel Valença, sem menção à data e lugar de sua publicação original. As capas das revistas em que estes textos foram publicados vão reproduzidos nesta página.

 

 

 

 

Esthetica do “Ferro”
Não há dúvida alguma que o Brasil é um país para ser embasbacado. Não há cidadão que aqui chegue com duas ou três bobagens nas malas que não nos cause pasmo.

Uma hora, é certo sujeito que se diz portador de um remédio eficaz para dores de dentes; outra é um tipo que se intitula Raphael em cinco minutos, pintando bombachatas que o gentio admira, porque nunca foi a mais modesta exposição de pinturas da cidade.

Agora, aparece um cidadão de ultramar que se diz inovador e criador de uma nova escola literária.

Leio-lhe os escritos e procuro a novidade. Onde está ela? Em parte alguma. O que há neles é berreiro e vociferações, manifestações de vaidade e impotência de criação; mas ele berra e diz lindezas como esta:

“Na noite estrelada, a lua voga num rio de leite; mas não há leite. O que há então?

O sol que vem depois de amanhã.”

Está aí a arte nova, a escola do “ferro” que vem nos ensinar literatura por “mares nunca dantes navegados”.

Para nos ensinar semelhantes coisas, era melhor que semelhante homem não se abalançasse a tal proeza e ficasse em sua casa, sorvendo o seu caldo de unto e tomando o seu verdasco. Nós já sabíamos tudo isto, embora o Brasil seja um país de bugres e de negros.

Há, porém, uma instituição que nos faz conhecer estas coisas de novidades forçadas, e não falta em nenhum país.

É o Hospício dos Malucos, onde há grande cópia de orotomanos (sic) e exibicionistas.

A Arte e Literatura são coisas sérias, pelas quais podemos enlouquecer — não há dúvida; mas, em primeiro lugar, precisamos fazê-la (sic) com todo o ardor e sinceridade. Não é o canto da araponga que parece malhar ferro, mas nem sabe o que é bigorna.

Lima Barreto

Leia a opinião de especialistas sobre a revelação inédita apresentada por Luiz Ruffato.

[1] Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda. Correspondência. Org. Pedro Meira Monteiro. São Paulo: Companhia das Letras/Edusp, 2012, p. 50.

[2] Careta, Rio de Janeiro, 22 de julho de 1922.

[3] Op. cit., pág. 38.

[4] O Paiz, Rio de Janeiro, 23 de maio de 1922, p. 5.

[5] Idem, 24 de julho de 1922, p. 5.

[6] Klaxon, nº 15, setembro de 1922, p. 14.

[7] V. CURY, Maria Zilda Ferreira. Horizontes modernistas – O jovem Drummond e seu grupo em papel jornal. Belo Horizonte: Autêntica, 1998, p. 158-159.

[8] O Paiz, Rio de Janeiro, 14 de março de 1923, p. 5

[9] Careta, Rio de Janeiro, 5 de agosto de 1922.

[10] V. RESENDE, Beatriz. Org. Impressões de leitura e outros textos críticos. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2017, p. 63.

[11] Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1942.

[12] V. BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. 8ª. edição. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras / José Olympio, 2002, p. 256.

[13] América Latina, Rio de Janeiro, nº 1, agosto de 1919, p. 80.

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

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