A batalha de Lima Barreto

Especialistas comentam texto de Luiz Ruffato, que retifica data de artigo escrito por Lima Barreto contra os modernistas, que teria sido determinante para o “cancelamento” de sua obra
Detalhe da capa de “Lima Barreto: triste visionário”. Ilustração: Dalton Paula / reprodução
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07/12/2020

(06/12/20)

A histórica celeuma entre os Modernistas (também chamados de Futuristas) e Lima Barreto ganhou um novo capítulo recentemente, com o artigo Lima Barreto contra os Futuristas, do romancista Luiz Ruffato, publicado na edição de dezembro do Rascunho. Intelectuais e estudiosos do escritor carioca comentaram o texto.

Além de relembrar fatos históricos que causaram a rusga entre o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma e os jovens paulistas liderados por Mário de Andrade, Ruffato trouxe um fato novo para a discussão. Lima Barreto publicou dois textos criticando o “futurismo” dos paulistas e a influência da literatura — e das ideias — do italiano Filippo Marinetti, que mais tarde se tornaria um militante do fascismo — o que fez muitos modernistas reverem essa aproximação.

O primeiro texto, publicado na revista Careta e intitulado O Futurismo, é de amplo conhecimento público, porém, a revelação, até então inédita, é que Barreto voltaria ao assunto 15 dias depois, na mesma revista.

“Na edição nº 737, datada de 5 de agosto de 1922, ele desanca o escritor português António Ferro, sem citar seu nome, num texto intitulado Esthetica do ‘Ferro’ — uma alusão ao poeta lusitano, evidenciada pelo uso de maiúscula no sobrenome colocado entre aspas — cujo manifesto Nós foi estampado nas páginas 1 e 2 daquele mesmo número da Klaxon [revista do movimento Modernista]”, escreve Ruffato em seu artigo.

Este texto, Esthetica do “Ferro”, aparece na compilação Impressões de leitura, de Francisco de Assis Barbosa, lançada em 1956 pela editora Brasiliense, e retomada por Beatriz Resende, com o título de Impressões de leitura e outros textos críticos, em 2017, pela Penguin & Companhia das Letras. Só que, em ambos os volumes, ele é dado como tendo sido publicado em 1907, 15 anos antes da data correta de sua divulgação.

Conforme aponta o texto de Ruffato, a data agora correta ajuda a entender como esse segundo texto foi determinante para o apagamento de Lima Barreto por parte dos Modernistas — e consequentemente para a demora do reconhecimento do autor carioca no cânone da literatura nacional. Isso porque o texto gerou uma reação violenta publicada na Klaxon, em que Barreto era chamado de “escritor de bairro” que, armado de uma “navalha”, “desembocou duma das vielas da Saúde, gentilmente confiado nas suas rasteiras”.

Peça do quebra-cabeça
“Achei fascinante o que Ruffato fez. Tinha me escapado completamente (e não só a mim, é claro) que o texto, de fato, é uma das peças no quebra-cabeça das diatribes entre Lima e os Modernistas paulistas. As críticas a António Ferro fazem todo o sentido”, diz Pedro Meira Monteiro, organizador de Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda: Correspondência e professor de Literatura Brasileira na Universidade de Princeton.

“O fato é que em historiografia, como de resto, em qualquer outro ramo de estudos, um equívoco anterior sempre provoca equívocos subsequentes. Afinal, Assis Barbosa é tido como fonte mais do que segura e respeitável. Mas equívocos acontecem”, comenta Eduardo de Assis Duarte, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para Beatriz Resende, autora de vários trabalhos sobre a obra de Lima Barreto, a agressão expressa por Mário, em resposta na Klaxon à crônica irônica e quase simpática que Lima publica na revista Careta, “é desmedida”.

“Preconceituosa, elitista, bairrista e etarista. Uma tristeza para o mundo das Letras! Mário tinha 29 anos, morava em São Paulo, Lima Barreto, carioca vivendo em subúrbio da capital, tinha 41 anos e uma vasta produção literária. Para um escritor preto, com trajetória anarquista e socialista, aguentar a estética de Marinetti, já comprometido com o fascismo em 1922, era demais”, diz a crítica, que organizou as crônicas do autor carioca para a editora Global. “O que seu antagonista talvez não soubesse é que Lima dominava diversas línguas e recebia publicações europeias na casinha do subúrbio de Todos os Santos”, completa Beatriz.

No livro 1922 — A semana que não terminou, Marcos Augusto Gonçalves escreve que Lima Barreto, “em litígio com o mandarinato literário carioca, atacava a linguagem empolada, ‘coelhinista’, ornamental, da velha literatura e antecipava um tipo de escrita que seria depois desenvolvida pelos Modernistas”.

O esquecimento
Ainda assim, o “encolhimento” da obra de Lima Barreto por parte dos paulistas é um fato e o segundo texto do autor sobre António Ferro parece mesmo ter sido a gota d’água na conflituosa relação. Mas qual seria a “culpa” dos Modernistas no processo pelo qual a obra do escritor carioca passou durante décadas, à margem do cânone nacional?

“Lima Barreto esteve vivo por pouco tempo depois da Semana de Arte Moderna, e essa brevidade ajudou a esquecer dele”, diz Luís Augusto Fischer, professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

“Há outros fatores também concorrentes, no caso dele: pesa o fato de ser um debochado, sarcástico, que fazia caricaturas escritas sem pedir perdão, atacando a literatura de punhos de renda de um jeito meio destrambelhado. E os Modernistas por assim dizer ideológicos, capitaneados pelo Mário de Andrade, não iam perder tempo com um cara como ele, que foi com o tempo empurrado para baixo do tapete.”

Pedro Meira Monteiro concorda que a morte precoce de Barreto, quando o mito dos Modernistas começa a ser construído, com a Semana de Arte Moderna em 1922, ajudou a distanciar os dois lados. Mas ainda assim, prefere não transformar essa relação em um “Fla-Flu”, o que segundo ele, tem sido uma tendência. E aposta que, se vivesse por mais tempo, Barreto poderia até mesmo se aproximar dos autores paulistas.

“Acho que a re-atribuição da data [do artigo] é importante, porque permite aprofundar a questão dessa resistência à estética fascista (ou protofascista) por parte de Lima Barreto, e entender que essa resistência, paradoxalmente, poderia talvez aproximá-lo de autores que em 1922 ele lia com grande desconfiança.”

Nascido em 13 de maio de 1881, Afonso Henriques de Lima Barreto era filho de ex-escravos. Logo cedo, perdeu a mãe, Amália, que morreu de pneumonia. Pouco depois, morreu o pai, João Henriques, que ficou louco. Antes disso, porém, Henriques se esforçou para dar ao filho uma educação de qualidade — o que foi decisivo para o nascimento do tom ácido e crítico adotado pelo escritor.

Lima Barreto penou em vida para ter reconhecimento, mas nunca deixou de lutar, sabendo do preconceito com que sua obra era recebida pelo fato de ser negro. Após a morte, foi relegado à margem da literatura brasileira.

“A primeira recuperação de alguma coisa do Lima depois da edição do Francisco de Assis Barbosa virá, para dizer de algum modo, da margem, do João Antônio, e não do mainstream, que nos mesmos anos 70 do João Antônio está sendo ocupado definitivamente pela hegemonia do Modernismo paulistano marioandradino”, opina Fischer.

O retorno
Há alguns anos, conforme aponta Ruffato em seu artigo, o escritor voltou aos holofotes graças a um esforço conjunto de vários pesquisadores, entre eles a própria Beatriz Resende, além de especialistas como Lilia Moritz Schwarcz, autora da biografia Lima Barreto: Triste visionário, e Antonio Arnoni Prado, que escreveu Lima Barreto: uma autobiografia literária.

Com a revalorização dos estudos de gênero e raça, o autor foi reavaliado e ganhou o devido espaço — em 2017, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) homenageou o escritor, promovendo debates sobre sua obra.

“Com grande alegria vejo Luiz Ruffato se aproximar do clube de aficionados por Lima Barreto. E chega bem, trazendo sua colaboração em trabalho que tem sido feito de forma solidária, cada estudioso com sua parte em pesquisa nada fácil, como são as que se ocupam dos que não têm álbum de família”, afirma Beatriz Resende.

Leia o texto de Luiz Ruffato “Lima Barreto contra os ‘futuristas'”

Luiz Rebinski

É jornalista e escritor. Autor do romance Um pouco mais ao sul.

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