Uma história bonita

Em Milão, um ruído de celular transforma irritação em ternura e leva um casal a imaginar a vida de um vendedor de flores longe da família
Ilustração: Carolina Vigna
30/08/2026

A praça do Duomo de Milão é o lugar perfeito para se ficar à toa em uma manhã ensolarada de domingo. Após saciar a vista com a beleza da catedral, sentamo-nos no meio-fio da praça e passamos a olhar para os lados, para o movimento das pessoas, alheios ao colosso de pedra que parece derreter sob a luz do sol. Gente andando e parando, turistas, pintores de rua, vendedores de lenços, músicos vindos de muito longe com seus instrumentos folclóricos, compondo uma grande mestiçagem sonora e visual. Como na assembleia das Nações Unidas ou na abertura dos Jogos Olímpicos. É um prazer saber que, mesmo distraídos com outras coisas, o Duomo continua ali. Basta um movimento de cabeça para reencontrá-lo, belo como estalagmites numa caverna, assombroso como uma fogueira cujas chamas tocam o céu. E, apesar de tamanho esplendor, ousamos fitá-lo com preguiça, quase com displicência, já antegozando os sabores do almoço.

Enquanto minha mulher observa o movimento, penso no quanto me atrai a dita música “étnica” tocada pelas ruas e praças mundo afora, reflexo das migrações e da confluência de culturas que ela propicia. E logo percebo que há, de fato, música no ar, emanada de algum instrumento de sopro forasteiro, uma sonoridade que nunca escutei antes. Só que, em vez de se perder na brisa da praça, ela parece brotar de um celular perto de mim, o que me faz migrar de um estado de beatitude diante da comunhão das culturas para a mais completa exasperação: ódio ao insolente que não conhece limites e insiste em contaminar a vizinhança com suas manias sonoras.

Eu, que havia curtido em silêncio a música vinda de longe, imediatamente compartilho com a minha mulher meu novo estado de espírito: Mas quem será o sociopata com o celular a todo volume?!

Antes que eu pudesse transformar minha ira em ação, ela me detém, afirmando que uma coisa muito bonita estava acontecendo. Como assim?, eu pergunto. E ela me conta que o rapaz sentado ao lado dela, humilde vendedor de flores indiano, bengali ou filipino, está ao telefone escutando o filho de oito anos tocar para ele um instrumento musical. Do outro lado do mundo.

A imagem é bonita e comovente. Derreto como um gelato sob o sol da Lombardia. E ela me conta ainda que, antes de ouvir o filho tocar, o homem conversou com a esposa, que mostrou a ele um bebê. Sim, a bebê — como ela havia crescido!

O recital dura vários minutos. Ouvimos em silêncio. Eu, sentindo-me bruto e cruel, um desapiedado que não percebera a cena que minha mulher acompanhava desde o princípio, tendo até mesmo conhecido a família pela tela do celular do vendedor de flores, com olhares discretos, mas certeiros.

Antes que a música acabe, nos metemos a construir juntos a história daquela gente. A vida estava difícil na aldeia. A seca. As enchentes. Ou a seca seguida de enchentes. As monções. Sim, as monções. Ele juntou algum dinheiro e pegou o avião. Um primo que morava há meses em Milão. Nada: uma quadrilha de tráfico de pessoas. Quando partiu, a bebê ainda não havia nascido. Aqui, viu que a vida também é dura. Obrigado a vender flores do primeiro ao último turista na praça. No domingo, uma breve pausa no batente. Já é tarde na Índia. Noite nas Filipinas. O menino de pijama. Até que ele toca bem. Depois de matar a saudade do pai, o jantar: comida pouca. O pai morre de saudade dos seis filhos: prometeu mandar um dinheiro. Saudade da esposa também, minha mulher acrescenta.

Seguro a mão dela. A cada nota e a cada cena da história imaginada, meu coração se aperta mais. Então, a música termina. Ouvimos mais algumas palavras na língua que nos soa até mais compreensível do que antes. E a ligação acaba. Ficamos novamente em silêncio. Um pombo cisca aos nossos pés. A imensa praça parece ainda mais repleta ao aproximar-se a hora do almoço.

Minha mulher não presta mais atenção no homem. Sou eu que o vejo levantar-se do meio-fio e caminhar em direção à multidão. Acerca-se de uma mulher jovem. Bem mais jovem do que ele. Também imigrante. Beijam-se. Enquanto minha mulher já está de pé, me convidando para o almoço, eles vão embora, abraçados.

Mário Araújo

Nasceu em Curitiba (PR), em 1963. É escritor e diplomata. Autor de A hora Extrema (prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas em 2006), Restos (contos), Breu (romance) e Anonimonômade (crônicas). Publica crônicas no Rascunho no último domingo de cada mês.

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