Meu avô gostava da casa cheia em jantares, hospedava amigos artistas, recebia em seu ateliê jovens pintores. Era um grande anfitrião e gostava de sê-lo. Mas quando ele se fechava para pintar, no seu refúgio com janelão para o jardim, era como um monge. Ouvia música clássica enquanto pintava. Bach, Beethoven, Haendel, Ravel, Mozart, Mahler, Liszt, Vivaldi. Não havendo música, pintava em silêncio. Nunca usava as tintas recém-saídas do tubo, porque criava os próprios tons, manuseando cores e espátulas em secretas misturas sem receita. Também era pintor de muitas demãos. Criava suas profundidades e vibrações em camadas, como por véus sobrepostos. Costumava dizer que era um engano tomar como o quadro mais colorido aquele em que se veem muitas cores. Para ele, havia uma infinidade de matizes possíveis dentro de um quadro predominantemente azul ou gris ou branco. Era assim que ele mergulhava na elaboração de brancos que levavam em sua alma tons de rosa ou magenta, azuis feitos de preto e púrpura, grises de coração malva. É bonito pensar que na alma colorida desses tons também diferentes sonatas ainda hoje reverberem. E que tudo isso de manusear as tintas, criar os próprios tons e trabalhar em muitas demãos, não trata apenas de pintura, mas também de literatura, especialmente, de poesia. Por que não dizer também da vida? Do que vibra no silêncio. Hoje meu avô faria 104 anos. Estaria ainda pintando em seu refúgio, feito um monge, se pudesse. Estaria criando, se pudesse, infinitamente.