Agora tudo se acalma, ou, se não chega à calma, assemelha-se a ela. Um mar sem ondas se amplia ao redor da lâmpada amarela, um mar doméstico. À noite, a casa se deixa amar de outra maneira. Ela se mostra mais se entremostrando à meia luz, ela com seus seres de sombra sem peso. Já recolheu suas claras utilidades e agora se excede em finos enredamentos. Nosso tempo se expande, o jardim lá de fora se acerca, a luz da lâmpada brilha nos olhos dos gatos vigilantes. Dou com a chama da vela se debatendo dentro do copo, revoltada. Uma doida se escapando de tanto dançar, quando nem vento há… menininha de fogo, que atrevida é você, que abusada! As estantes também, à noite, se as toco, elas respondem num código próprio. Às vezes vem um perfume, de uma flor que não é a do vaso na sala. Às vezes, descubro mariposas camufladas, já adultas. A multidão de seres presentes é sutil e não constrange. Sua quase invisibilidade na noite não assombra. Vamos juntos, escrevemos juntos, dedos longos de palmeira, cabelos de samambaia, olhos selvagens fosforescentes, onda de perfumes, mar em volta, todos juntos passamos por essa página e a manchamos, sem o apelo de qualquer evento fantástico, porque fantástica já é toda a casa à noite, quando permanece brandamente acesa e nos permite participar dos seus pensares, do seu batimento, das suas gestações e eclosões silenciosamente quentes, a escrita aí bem-vinda por ser de similar natureza. Quando amanhecer seremos outras, de novo claras, objetivas, cheias de horários e serviços, toda aquela imensidão de ventre recolhida e nenhuma dança estouvada de chama dentro do copo. Já fugiu, aquela atrevida, e levou com ela um tempo outro. Voltará, que eu sei, e a casa sabe, quando for noite, e então iremos juntas, outra vez, por outras páginas.