Quando estava subindo as escadas da fazenda Buquira, onde Monteiro Lobato passou sua infância, reparei que a neblina se adensava. E ela não só se adensou como tomou uma forma humana. Uma forma que eu conhecia de fotos.
— Monteiro Lobato?
Ele me respondeu com sua voz fina:
— Em carne e osso. Ou melhor, em espírito e ectoplasma.
— Eu esperava encontrá-lo mais, digamos…, sólido.
— Estão fazendo tanto esforço para me apagar que fiquei assim.
— Puxa, mas você é o fundador da literatura infantil brasileira.
— Pelo jeito, isso não vale muito. Conseguiram me banir de um monte de bibliotecas.
— Ah, é claro, as acusações de racismo…
— Pois é… Mas me diga: qual escritor nascido em fazenda, como eu, não era racista no começo do século 20?
— Jorge Amado?
— Bah!, sim, havia alguns, mas era raro. A questão é que as pessoas olham as coisas de ontem com os olhos de hoje. Aí fica fácil dar palpite na vida dos outros.
— Realmente há muitos candidatos a censores hoje em dia. À direta e à esquerda. Eles dão cursos sobre “como escrever” e ganham um bom dinheiro fazendo “leituras críticas”.
— Oportunistas e saúvas não faltam no Brasil. Mas nunca vou lamber bota, ou salto alto, de quem censura.
— Em cada esquina há um Gabinete do Ódio.
— E eles não querem apenas dizer o que se deve ler, mas como se deve ler. Pensam que o leitor é um Zé Mané indefeso, que precisa de tutores. Mas eu quero que o meu leitor pense por si mesmo. Se alguém vê problema num livro meu, tem que ler e discutir, não proibir. Isso é coisa de ditadura. E falo de ditadura de cadeira, porque Getúlio Vargas me deixou três meses na cadeia e a igreja católica colocou Reinações de Narizinho no Index Librorum Prohibitorum.
— Puxa, que honra!
— Não é mesmo?
— Mas, falando em censura, confesso que, quando li Caçadas de Pedrinho para meu filho, pulei umas expressões que me pareceram racistas mesmo.
— E eram. Talvez hoje eu não as escrevesse. Mudei com o tempo. Como todo mundo. Quem pensa, muda de ideia. Por exemplo, em Urupês fiz um Jeca Tatu que era preguiçoso e indolente. Mas, depois, entendi melhor a situação do homem do campo e me redimi, escrevendo o conto Jeca Tatu — a ressurreição, onde ele se cura dos vermes e vira um fazendeiro trabalhador.
— E sua visão quanto ao racismo? Mudou?
— Olha, no fim da vida, quando estava em exílio, morando na Argentina, escrevi um conto chamado A violetinha orgulhosa. É a história de uma violeta branca que nasce no meio de violetas roxas e se acha mais importante que as outras por ser branca. Mas o Visconde de Sabugosa explica que as violetas são roxas por terem pigmentos roxos nas pétalas, e as brancas são brancas por não terem pigmento nenhum. E pergunta: “quem é mais, quem tem ou quem não tem?”. Para arrematar, Emília põe as mãozinhas na cintura e diz para a violeta branca: “Vamos lá, ariana! Responda a este argumento do Visconde”. Se isso não é um conto contra o racismo e o arianismo, não sei o que é. Mas, é claro, não dei uma guinada de cento e oitenta graus. Isso seria apenas a indicação de uma mudança.
— Você é um cara contraditório.
— Sou. Tanto que era fã dos Estados Unidos e depois passei a elogiar a União Soviética. Até fiquei próximo de Luís Carlos Prestes. Mas não sou só eu que sou contraditório. Todo mundo é. Por isso, acho que talvez até algum dos meus censores seja uma boa pessoa, realmente interessada em melhorar o mundo, e não apenas em subir na vida bancando o dedo duro. As pessoas são bichos muito complicados. As coisas não são branco-branco, preto-preto. Tem muitas cores nesse mundo. Inclusive listas e xadrezes.
— Bem, foi um prazer, mas tenho que ir.
— Que pena, acabamos nem falando do meu modo de escrever, dos meus personagens, de Emília… Hoje em dia não está fácil falar sobre literatura.