Outro dia, uma vizinha me perguntou se eu ainda escrevo livrinhos. Eu não deveria me incomodar por tão pouco, mas a questão é que já passou da hora de os escritores assumirem a posição que têm no mundo. Os autores não escrevem “livrinhos”; produzem literatura, e livros infantis não são livrinhos. Nada contra o diminutivo. Ele pode ser dócil e amoroso. O problema é saber por que motivo “livrinho” só é dito para se referir à literatura infantil?
Pensei em como gostamos de colocar as infâncias no diminutivo. A cadeirinha, a mochilinha, a historinha, o livrinho. Sim, novamente: nada contra a beleza da língua portuguesa em criar essas “palavrinhas”. A questão não é essa. Quero só refletir aqui sobre o seguinte ponto, a partir da aparente inocência da pergunta da minha vizinha sobre os livrinhos: por que a maioria dos adultos passa pelas estantes de literatura infantil sem dar muita atenção quando o assunto é escolher, para si mesmos, o que ler? É como se aquele território tivesse sido interditado depois de uma certa idade. Como se crescer exigisse abandonar, não só os brinquedos, mas também os livros das infâncias.
Ao mesmo tempo, esses mesmos adultos se preocupam cada vez mais com a falta de leitura de seus filhos. Claro que existe toda a problemática das redes sociais e das telas; isso não é novidade. Mas os pais querem receitas prontas, perguntam qual livro comprar, em que idade começar, como despertar o interesse pela leitura. Leitura não se recomenda isoladamente. Uma criança aprende muito mais observando um adulto emocionado diante de uma história do que ouvindo um discurso sobre a importância de ler. O desejo de leitura acontece como um contágio.
A literatura infantil não é escrita apenas para crianças. Nunca foi. Ela fala daquilo que nós continuamos tentando entender e vamos seguir tentando entender a vida inteira: o medo, a perda, a amizade, o tempo, o amor, a coragem de crescer… Não há nada de pequeno nisso nem circunscrito a uma faixa etária. Pelo contrário! É preciso ter muita técnica e sensibilidade para alcançar o essencial em poucas palavras e em um número reduzido de páginas.
Os livros infantis precisam voltar às famílias. Eles não pertencem apenas ao quarto ou à estante das crianças; precisam se espalhar pela sala, pela mesa, pelo sofá, como objetos de eterna convivência, e não como brinquedos que logo serão esquecidos.
Sim, eu continuo escrevendo livros…