Um dos meus mais importantes e antigos amigos, Luiz Felipe Vasques, infelizmente mora em outra cidade. Isso significa que somos obrigados a habitar ferramentas como o whatsapp. Há uma diferença importante no canal da conversa, que é a possibilidade da troca de arquivos, de conteúdo. É raro o dia em que não conversamos. Tio Lipe — como é chamado desde que meu filho aprendeu a falar — e eu trocamos muitas mensagens, mas também trocamos imagens, memes, arquivos, PDFs, como qualquer pessoa vivendo no século 21. Até aí, tudo bem. Mas eu tenho um problema: tio Lipe sempre acerta. Isso é um problema gigantesco, vocês não fazem ideia. Estou eu lá, linda e bela, escrevendo um artigo, digamos, sobre grafos relacionais. E ele vai e me manda — por pura maldade no coração, estou certa — um link de algo que, sim, me interessa, e muito. Pego uma bifurcação no pensamento e quando dou por mim estou lendo sobre as figuras mitológicas bizantinas. Lá se vão mais de, talvez, trinta anos de amizade. Um atentado à minha concentração.
Tenho amigos que são o oposto. Estou eu lá linda e bela pensando sobre como o padrão das marés na Terra, que a Nasa publicou recentemente, é similar à Noite estrelada do van Gogh, e a pessoa me manda o link de um congresso. Acho que vou bloquear, sabe. Por mais que o meu Lattes discorde de mim, prefiro mil vezes um comentário sobre monstros marinhos da Idade Média do que algo útil, tipo uma chamada para publicação ou um concurso. Deus me livre a utilidade, cruz credo.
A cabeça das pessoas que trabalham com qualquer coisa ligada à criação não é nada linear. Ou coerente. Às vezes, preciso dar uns ghostings nas pessoas que eu amo só para conseguir terminar de escrever uma frase. Consigo entender quem precisa se isolar para produzir. O que é misterioso pra mim são as pessoas que levam notebook para um auditório lotado. Ou o professor que trabalha na sala dos professores. Esse cara é um psicopata; tenho medo. O sujeito que consegue se concentrar numa situação dessas é capaz de qualquer coisa.
Eis que o semestre começa e a vida volta ao seu estado de corrida normal. O corpo acorda naturalmente cedo. Não sei se bem treinado ou traumatizado. A mente ainda está pensando nos monstros marinhos, zero condições de compreender o que me falam sobre prazos, números, metas, normas ou, seja lá o que for, o assunto da reunião.
Tem um mapa antigo, de 1539, da Escandinávia intitulado Carta marina et descriptio septentrionalium terrarum, mostrando a localização de vários monstros marinhos. É lindíssimo. Um dos que eu mais gosto é a Vacca Marina que, pelo que deu para entender, dá na praia. Muitos aparecem atacando embarcações. Alguns poucos aparecem brigando com outros monstros. Pelo visto, não há paz nem no norte gelado da Europa.
Jules Verne era bom nisso. Vinte mil léguas submarinas mostra uma pletora de monstros e perigos marinhos. Gosto especialmente da edição ilustrada por Alphonse de Neuville e Édouard Riou, de 1871.
Felizmente, temos internet e a Biodiversity Heritage Library existe. Nela, encontro o Monsters of the sea, legendary and authentic, basicamente dedicado a serpentes marinhas de todo tipo. Adoro o “autêntico” do título. O livro faz distinção, por exemplo, entre as serpentes lendárias, norte-americanas e mediterrâneas. Um guia de vital importância.
Não posso esquecer, é claro, de H. P. Lovecraft e O chamado de Cthulhu. Ou mesmo os famosos Kraken e Leviatã.
A mitologia japonesa não deve nada ao Ocidente. Eles têm o Umibozu, responsável por quebrar muitos barcos pesqueiros e aterrorizar os oceanos. O nome significa algo como monge do mar. Tem uma forma humanoide, nem sempre muito nítida. Por um breve momento, consigo prestar atenção à minha volta. O humano falando na minha frente está ofuscado pela luz forte do projetor. Parece um Umibozu.
A realidade tem essa irritante mania de interromper a gente.