Como eu ia dizendo, senti falta de um título para o vídeo da ex-primeira-dama divulgado no dia 24 de junho. E, como a lavação de roupa suja continua — ao que tudo indica, sem hora para terminar —, tentei, mas não consegui mudar de assunto.
No novo episódio da tragicomédia em curso, surge uma carta dirigida a nós, brasileiros. Assinada pelo ex-presidente, nomeia seu “porta-voz” o filho mais velho, candidato à Presidência da República, impedido judicialmente, dois dias depois, de exercer sua nova missão.
A mais recente desventura do clã me levou a pensar em fantasmas e em cartas. Como acontece em Hamlet, peça em que o espectro do rei aparece, tarde da noite, pedindo ao príncipe que vingue sua morte, entrei numa de que na chanchada estrelada pela família do ex-presidente, a tal carta de 11 de julho teria sido enviada pelo fantasma de um morto vingativo que insiste em nos assombrar. Já dando o spoiler e, quem sabe, alguma esperança, no fim da história morrem todos: Ofélia, Polônio, Gertrudes, Cláudio e inclusive o próprio príncipe Hamlet. Só sobra o amigo Horácio para contar a história.
Tentando me desligar do noticiário, decidi terminar a leitura de O pai Goriot. Nas páginas finais, depois de sofrer uma desilusão amorosa e prestes a se mudar para o interior, a sra. de Beauséant pede a Eugène de Rastignac que vá à casa do ex-amante e resgate a sua correspondência. Ao recebê-la, pega a caixa contendo as cartas, joga na lareira e as vê queimar. Terminada a leitura desse trecho, lembrei de uma história contada por minha mãe. Ao terminar um namoro da juventude, no início dos anos 60, foi aconselhada pelo pai a ir à casa do ex-namorado buscar o que escrevera para ele. E lá foi ela, muito civilizada, resgatar as cartas enviadas durante cerca de um ano e meio; cartas essas prontamente entregues, em cumprimento a uma regra não escrita a nortear a ética dos rompimentos da época, uma espécie de protocolo a ser observado no fim de relações amorosas, resguardando a intimidade compartilhada.
Quantos livros e filmes conhecemos que contam belas histórias envolvendo cartas — seus percursos, extravios e destinos —, e nos deixam nostálgicos de um tempo em que elas não só existiam, como eram ferramenta essencial da comunicação entre as pessoas, permeavam as nossas vidas amorosas, carregavam um encanto que se quebrou. Na era do e-mail, do SMS e do WhatsApp, romper e pedir as cartas de volta ou mesmo alimentar uma fossa ouvindo Adriana Calcanhotto cantar Devolva-me: “Rasgue as minhas cartas, e não me procure mais, assim será melhor, meu bem” deixou de fazer sentido.
Durante um jantar na semana passada, o marido de uma amiga contou ter encontrado, numa das suas mudanças, uma caixa repleta de cartas da namorada da adolescência. Sem saber o que fazer com aquele monte de papel, despachou para um serviço de reciclagem. Anos depois, ao fazer esse mesmo relato a um colega historiador, se deu conta de que destruíra o registro histórico de uma relação amorosa entre dois jovens dos anos 1970 que, entre outras coisas, poderia servir a futuros pesquisadores.
O fato é que, nos dias que correm, as cartas caíram no ostracismo e as declarações, juras de amor e trocas de intimidades estão espalhadas por aí, soltas na rede, registradas para sempre. Um perigo.
A elegância, o encanto e o desaparecimento das cartas; a ironia de um porta-voz emudecido; um fantasma vingativo e o medo dessa família que insiste em nos assombrar. Pluft, o fantasminha sabido, criado por Maria Clara Machado: “Mamãe!” “O que é, Pluft?” “Mamãe, gente existe?” “Claro, Pluft. Claro que gente existe.” “Mamãe, tenho tanto medo de gente!”. Como é que eu fui parar aqui? Talvez eu me perguntasse, ao fim de uma sessão de terapia, tentando concluir essa enorme digressão.