Mesmo quando escrevia um romance, parecia haver dentro de Moacyr Scliar um contista organizando a respiração da narrativa, aparando excessos, desconfiando da grandiloquência e conduzindo tudo para aquele instante em que uma imagem basta para iluminar uma ideia inteira.
É curioso que um médico tenha se tornado um dos grandes anatomistas do insólito brasileiro. A medicina ensinou-lhe a observar o corpo; a literatura, as deformações invisíveis da alma. Nos primeiros livros, ainda se percebe o jovem clínico anotando casos humanos com o rigor de quem registra sintomas. Mas bastaram poucos anos para que o prontuário cedesse lugar à parábola. Em O carnaval dos animais, sua verdadeira estreia, os homens começam a se parecer demais com bichos. Não por fantasia, mas por excesso de realidade. A censura ditatorial talvez impedisse certas palavras; a metáfora, felizmente, ainda circulava sem documentos.
Desde então, Scliar construiu um território que só a ele pertence. Kafka ofereceu-lhe a porta. Cortázar mostrou-lhe que ela podia permanecer entreaberta. García Márquez iluminou o caminho. Mas o viajante foi sempre Scliar. Seu fantástico nunca teve vocação para o espetáculo. Não precisava de castelos assombrados nem de universos paralelos. Bastava um anão morando dentro de um televisor, uma situação meio deslocada ou um detalhe impossível aceito com absoluta naturalidade. O estranhamento surgia não para escapar do mundo, mas para torná-lo mais inteligível.
Talvez por isso sua literatura nunca tenha abandonado completamente Porto Alegre. Mesmo quando atravessa séculos de diáspora judaica, messianismos ou lendas talmúdicas, permanece ancorada na esquina, na vizinhança, na padaria, na sala de espera de um consultório. A tradição judaica, em suas mãos, não funciona como folclore, nem como erudição. É uma lente através da qual se observa a eterna precariedade humana. O humor (melancólico e irreverente que parece rir de si antes de rir dos outros) impede que a alegoria se torne sermão. Em Scliar, a ironia nunca cancela a compaixão.
Essa é sua marca mais rara. Muitos escritores utilizam o extraordinário para produzir espanto. Scliar o usa para produzir reconhecimento. Lemos um conto seu e, de repente, percebemos que o absurdo não mora na ficção, mas no cotidiano. O fantástico apenas retira o verniz da normalidade.
Sua fase mais madura confirma tal vocação. Ao transformar notícias de jornal em narrativas ficcionais, ele realizou uma elegante inversão. Se antes partia da imaginação para comentar a realidade, agora fazia o caminho oposto: tomava um fato banal publicado na imprensa e o empurrava alguns centímetros além do plausível. Descobria que toda notícia já contém, em estado embrionário, um conto esperando apenas que alguém lhe devolva a imaginação.
Scliar escreveu contos que pareciam improváveis até o momento em que percebíamos que sempre estiveram ao nosso redor. Talvez seja esse o destino dos grandes contistas: não inventar mundos novos, mas revelar o estranho escondido dentro daquele em que já vivemos. Depois de lê-los, a realidade nunca recupera totalmente a antiga aparência.