Fascismos cotidianos

A falta de empatia transforma preferências em imposições e revela pequenos fascismos nas relações, no condomínio, no esporte e nas redes sociais hoje
Ilustração: Eduardo Mussi
23/07/2026

Empatia é uma arte perdida. A gente faz um comentário contra o racismo, a homofobia, a misoginia etc., e a resposta é: “Ah, nunca sofri isso. Que bobagem, que exagero! Não é bem assim. Do que você está falando? Aqui isso não acontece”. Cansa, sabe.

Na final da Copa do Mundo, as pessoas da minha bolha justificaram o ato de torcer contra a Argentina como sendo sinônimo de torcer contra o racismo. Em parte, me parece, para esconder um bairrismo bobo e histórico. Infelizmente, a Espanha também é racista. E muito. Não tem mocinho, não. Mas não vou me estender em torcidas de futebol, porque isso é uma ação por paixão, e não por lógica. Então, deixa pra lá.

Aqui no meu prédio tem uma mulher com solução para tudo. A insuportável responde em segundos; parece até um bot. O corredor ficou sujo com uma obra? Ah, o dela não. O dela é lindo. E, se suja, ela mesma vai lá e limpa. A vontade que eu tenho é de perguntar se ela limpa com a língua… Um dos elevadores tem problema? Use outro. Qual é o problema? Está reclamando de quê? Se ela fosse homem, seria do tipo que comenta “nem todo homem” em matéria de jornal sobre feminicídio. Meu deus, eu simplesmente a odeio.

Existe uma linha nem tão fina assim entre a Poliana e o fascismo. Quando você pega uma situação ruim e tenta ver o “lado bom”, está sendo Poliana. Frequentemente, mesmo não sendo uma atitude fascista, o polianismo pode ser muito chato. Quando você pega uma situação ruim e responde que a sua visão de mundo não vê isso e, portanto, isso não existe, você está tendo uma atitude fascista, independentemente de em quem você vota.

Explico. Fascio significa feixe. Originalmente, é o nome do feixe de varas amarrado a um machado, na Roma Antiga. É quando só há uma direção possível, um único caminho a seguir. As varas apontam todas para a mesma direção. O fascismo, como ideologia política, tem uma grande afinidade com o nazismo, mas não são sinônimos. Quando falamos sobre determinada atitude ser fascista, fazemos referência à impossibilidade de outras direções, porque só se admite uma visão de mundo. Obviamente, existem gradações, mas é basicamente isso.

A imposição de uma crença única tem sempre essa base. Isso vale para modelo de porta de elevador, time de futebol, candidato político, marca de celular, sistema operacional, estilo de roupa etc.

Lugares públicos assumirem que você quer ver e ouvir a altos brados a partida de futebol, o show do momento, o jornal, a novela, o que for, é uma atitude fascista. Principalmente porque som não respeita espaço. Colocar uma televisão com as legendas ligadas, mas sem som, atenderia a todos. Quem quer acompanhar consegue. Quem não quer não é obrigado a ouvir o som nem sempre agradável que acompanha aquela imagem. A televisão não tem silêncios. Não tem espaços. Não tem pausas. É de propósito. É feita para você não pensar, não respirar, não questionar. É fascista.

Agora que não tem mais Copa, estamos entrando na temporada eleições. É o mesmo inferno. E o mesmo fascismo. A moda é adicionar pessoas nas redes sociais para enviar propaganda política. Já bloqueei mais de cinquenta só nesta semana. Bloqueio, inclusive, os que enviam coisas do meu candidato. Não é esse o ponto. A única coisa que aceito receber sem ter solicitado é foto de pet. De preferência, só do pet, sem humanos aparecendo, capisce?

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho