A arte do passado

De João do Rio aos cronistas contemporâneos, a crônica transforma as miudezas do cotidiano, a memória e o que desaparece em matéria literária
João do Rio foi um grande tradutor do espírito das ruas
29/07/2026

Não existe solidão maior que a de uma cidade cheia de gente. O balé de quem passa pelos calçadões e avenidas cria um movimento bem brasileiro, preciso como a capoeira e com um gingado tão próprio quanto o samba. A multidão que caminha em um silêncio extravagante — quebrado pelas buzinas, pelo ronco de motor e pelas vozes que gritam como se tentassem salvar a própria vida — é o personagem perfeito para a mais indigente das criaturas, o cronista, um tipo tão tupiniquim que chega a ser impossível encontrar um modelo de exportação. Qualquer tentativa, ora, ora, soa como Garota de Ipanema na língua do Sinatra.

Se fosse preciso fazer uma arqueologia da crônica, por certo, a sua data de nascimento estaria em branco. A paternidade, por outro lado, seria muito bem compartilhada. Machado de Assis e José de Alencar estão entre os progenitores; entretanto, foi João do Rio (1881–1921), um dos primeiros discípulos brasileiros de Oscar Wilde — que nada tinha a ver com a crônica —, quem melhor encarnou o papel do cronista. Interessado nas miudezas do cotidiano, construiu uma visão singular sobre o que testemunhava e a respeito do que entendia da sua metrópole à beira-mar.

João do Rio, ou João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, como foi batizado, era um investigador da alma e dos costumes. Não lhe interessava o que havia de grandioso: ele queria mesmo o detalhe, o pitoresco, aquilo que não caberia como notícia no jornal. Seu objeto de desejo era o sujeito mais comum, ordinário. João Antônio chamaria de merdunchos. Gay Talese, de invisíveis. Os Joões e Marias do Vampiro. E aí, muito bem puxado pelo homem da multidão de Poe e pelo flâneur de Baudelaire, João do Rio cria esse personagem que se encarrega de traduzir a vida brasileira em uma espécie de psicologia das ruas, ruas que têm alma.

Um dos seus textos mais famosos — A alma encantadora das ruas — atribui personalidade aos logradouros. Segundo João, quem habita certa rua absorve e também influencia a sua, digamos, energia. Nessa simbiose quase mística, João do Rio investiga as questões sociais e elabora uma espécie de mecanismo sentimental da cidade, algo que também estaria presente em As religiões do Rio.

A crônica, como se vê, tem esse quê sherlockiano, uma tentativa de escrutinar aquilo que está escondido sob o verniz frágil da civilidade. Aos poucos, ela se transforma, e o cronista ocupa o espaço do voyeur, alguém que observa de longe para, mais tarde, retratar o que testemunhou. Rubem Braga é o grande tradicionalista dessa vertente. Da sua cobertura, ele via o mundo com os olhos de menino. Braga, à guisa de Manoel de Barros, sempre esteve interessado na inocência, na beleza fugidia do banal e do cotidiano. É uma literatura corajosa porque luta o bom combate não com armas, como seria usual, mas com palavras de gentileza.

Clarice Lispector, ao narrar o cotidiano, concentra-se no assombro, nas verdades inconvenientes que perpassam a sociedade brasileira. Bruxa da metáfora e da alegoria, Clarice não está imbuída de esclarecer coisa alguma; ao contrário, o seu desejo maior é mesmo deixar que o mistério aumente, que exponha aquilo que há de mais nefasto e estranho. E, se pensarmos bem, não é essa a pedra angular de toda a literatura clariceana? Não estão esses elementos em A paixão segundo G. H. ou Água viva? A menina, personagem do conto “Felicidade clandestina”, não se depara com os mistérios do mundo no momento exato em que deseja um livro e esse mesmo desejo lhe é negado?

Samba, suor e louças
Ruy Castro, em seu típico ufanismo carioca, diz que o Rio dispensou uma peremptória Semana de Arte Moderna porque não precisava de nenhuma distinção como a paulistana. A antiga capital federal já era moderna — uma Paris tropical — e ponto. Se a Cidade Luz era a casa dos cafés e dos bailes, o Rio tinha os botequins e, claro, o samba. A crônica hoje parece distante da alegria carnavalesca, sobretudo no Sul, onde o samba não é exatamente uma representação cultural capaz de dar conta do dia a dia mais mundano. Se no começo do século passado sambar era o equivalente a respirar, hoje nada mais rés do chão que lavar louças.

José Carlos Fernandes, o equivalente contemporâneo curitibano de João do Rio, é um observador das pessoas e dos pratos e copos sujos. Na frente da pia estão todas as verdades do mundo. Diante daquele pequeno abismo doméstico, é possível enxergar os pecados mais íntimos, como se quem esteve horas antes na mesa estivesse agora ajoelhado no confessionário.

Talvez a crônica seja o melhor exercício sobre o nada que já se inventou. Possivelmente, concorre apenas com 8 ½, se é que o filme de Fellini pode ser considerado uma obra sobre o vazio. Ao mesmo tempo, encarando o mundo nadificado de Heidegger, o cronista está escrevendo a verdadeira história das coisas e das pessoas. E tal qual um historiador amador, retrata com certa paixão aquilo que já não existe mais, seja um passado distante ou um futuro que não viveremos. O presente só será interessante quando for transportado para o campo da memória. Beatriz Sarlo, para quem o testemunho era sempre motivo de dúvida, dizia que esquecer era a melhor forma de lembrar. O presente, então, não passa de um frêmito desconcertante. Luis Fernando Verissimo, por sinal, ao projetar o que está por vir, disse a frase que melhor encarna a nossa decepção com o presente: “O futuro era melhor antigamente”.

Vinicius, o poetinha, também era um nostálgico. Em Carta ao Tom, um poema-crônica sobre a sua amizade com Jobim, cantou: “Lembra que tempo feliz/ Ah, que saudade/ Ipanema era só felicidade/ Era como se o amor doesse em paz”. O passado, veja só, parece ser melhor antigamente.

O cronista é esse exegeta do que se foi. Outro curitibano, Luís Henrique Pellanda, mesmo quando testemunhava o presente, se concentrava no que vivera antes. A crônica não mata, uma coleção de textos sobre a pandemia — que tirou o cronista das ruas e fez dele um mero observador à janela —, usa o lockdown como ponto de partida para uma reflexão sobre o mundo antes da covid-19. A experiência ética do confinamento é, simultaneamente, estética e física. O sujeito que um dia foi o “pai com a menina no colo” se transformou em alguém debruçado sobre os próprios cotovelos na sacada de casa. Ainda assim, frente a frente com tanto vazio, foi possível enxergar alguma beleza no meio do caos silencioso.

Há sempre uma lição, ora dolorosa, ora cheia de encanto: é preciso saber olhar para trás. E a crônica é a arte do passado, de um tempo em que ainda podíamos ser sozinhos.

Jonatan Silva

É jornalista e escritor, autor de O estado das coisas e Histórias mínimas.

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