Encerro com este texto a série de reflexões que empreendi, nos últimos meses, sobre o pessoano Livro do desassossego. Grande obra em prosa do poeta, mas com escritura natural e elevadamente poética, nela se revelam algumas importantes concepções do autor português sobre literatura, leitura e a arte da escrita criativa, com claras repercussões sobre o campo da tradução.
Começo pela exaltação do poeta à prosa, na sua relação com as demais artes. Pessoa, por intermédio de seu semi-heterônimo Bernardo Soares, pondera ser a prosa a realização cultural mais sublime, na qual “se engloba toda a arte — em parte porque na palavra se contém todo o mundo, em parte porque na palavra livre se contém toda a possibilidade de o dizer e pensar”.
A “palavra livre” — alheia inclusive a amarras da métrica e da rima — seria o instrumento por excelência para retratar a realidade. É ela que permite a transposição de cor e forma, ritmo, estrutura, volume e, enfim, poesia, sobrepujando artes como pintura, música, arquitetura, escultura e poesia.
Bernardo Soares parece aqui contrariar tantas outras afirmações que faz, com amargo ceticismo, sobre as parcas possibilidades de translação da realidade por meio da linguagem verbal. Nesse trecho específico, o autor vai longe, asseverando que “Na prosa damos tudo”, ou seja, tudo podemos traduzir com fidelidade. Contradições são naturais não só na vida real, mas também na ficção.
A incongruência não para aí. Não apenas conseguimos retratar plenamente pela palavra o palpável. Bem mais do que isso, é na prosa, com suas “subtilezas convulsas”, que “um grande ator, o Verbo, transmuda ritmicamente na sua substância corpórea o mistério impalpável do universo”. É de grande força retórica, embora de difícil aceitação pacífica, a defesa da prosa como meio de expressão fidedigno não só da realidade como tal, mas de seus elementos arcanos ou enigmáticos. Algo que vai claramente contra o “ceticismo do inteligível”, mas que se difunde na teia de asserções ousadas e agudas discrepâncias visíveis no texto.
Pois também de contrassensos, e muitos, vive o Desassossego. Haveria acaso intenção de coerência? O livro sequer chegou a ser publicado, na verdade, em vida do autor. Seriam, aliás, ondulações normais no pensamento de qualquer um no percurso de produção de um texto longo.
Bernardo Soares também tem algo a dizer acerca da eterna discussão sobre a hierarquia entre palavra falada e escrita, a tensão contínua entre verbo e escritura, que tanto impacto exerce sobre a área da tradução.
O semi-heterônimo defende, primeiro, a superioridade da escritura sobre a verbalização: “Cada palavra falada nos trai. A única comunicação tolerável é a palavra escrita, porque não é uma pedra numa ponte entre almas, mas um raio de uma luz entre astros”. Adiante, modula sua opinião, defendendo que “A palavra é completa vista e ouvida”. Clara ode à plena expressão do verbo, em suas duas principais formas, combinada ao orgulho que lhe inspira a herança clássica, ao mencionar logo em seguida que “a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha”.
Em outro trecho, Pessoa volta a opinar sobre a força de expressão da palavra, tratando de seus elementos constituintes: “O ritmo da palavra, a imagem que evoca, e o seu sentido como ideia, juntos necessariamente em qualquer palavra (…)”. Na continuação, a ressalva, de sentido analítico e com mais uma pitada de ceticismo: “(…) são para mim juntos com separação”. Análise que, de fato, muito aponta para o processo tradutório.
Sobre a tradução, por fim, fica uma última seta pessoana, aliando ficção e certo tom de esoterismo que seus textos não deixam de contemplar: “Quem vos diz, e a mim, que não escrevo símbolos para os deuses compreenderem?”. Além dos deuses, quem mais o compreenderá?