Mercedes-Benz

O mundo guiado pela indústria farmacêutica e as artimanhas para fugir de médicos, receitas, farmácias
Ilustração: Eduardo Mussi
11/01/2024

Estava eu lá quieta no meu canto. Juro para vocês. Eu estava até mesmo de headphone, olhando pro teto como sempre. O cidadão entra e senta do meu lado. Até aí, tudo bem, o sofá é confortável mesmo. Começa então a conversar com outra pessoa, do outro lado da sala. Falando alto, obviamente. A conversa se mistura com a Janis Joplin que também gritava no meu ouvido.

Nossa, o que aconteceu com você que faltou a semana passada toda?

Rapaz, você nem imagina, eu tive My friends all drive Porsches.

Caramba! Eu também tive isso em Worked hard all my lifetime. O que você tomou?

O médico passou my friends.

Ah, esse eu não conheço, é bom?

É ótimo! Olha, tenho aqui.

Dialing for Dollars’ is trying to find me.

E a pessoa vai e tira um remédio da bolsa. O sujeito pega com real interesse, lê coisas, fotografa, fala ah que ótimo.

I’m counting on you, Lord

Please don’t let me down

É um tipo muito específico de vitória do capitalismo, esse.

Não que eu esteja em posição de criticar, vejam bem. Nesse quesito, nem telhado de vidro eu tenho. Durmo ao relento mesmo. Faço qualquer coisa para não ter que consultar um médico. Qualquer coisa. Experimento remédio dos outros, tomo chá de ipecacuanha, tomo banho com folhas de erva cidreira, mastigo gengibre, esfrego alcachofra no machucado, faço gargarejo com calêndula, preparo um cataplasma de erva-baleeira, bebo chazinho de pitanga, dou três pulinhos em ondinha, passo o rabo do gato preto por dentro das orelhas. Qualquer coisa.

Só no Brasil, em 2022, a indústria farmacêutica faturou R$ 131 bilhões. O que estiver ao meu alcance para diminuir isso, farei.

Prove that you love me and buy the next round.

Essa irresponsabilidade, entretanto, é só comigo.

A mesma pessoa que pesquisa ervas medicinais na internet pede indicação de shampoo para a Nina Simone. Vai que escolho um que irrita a pele dela e, debaixo daquele pelo todo, eu não vejo? Não posso correr esse risco.

Com filho, pai e outros familiares humanos, felinos e caninos, chego a fazer escândalo. Precisa ir no médico, no veterinário, no hospital, no especialista. Não aceito achismos e quero saber quem indicou. Sim, hipocrisia que chama, eu sei.

Quem faz sentido é soldado, não me encham.

That’s it!

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho