Bonecas de pano

Silêncios indesejados são cruéis e nos derrubam; é o silêncio de quem deveria ser aliado frente ao machismo, a quieta conivência política
Ilustração: Carina S. Santos
28/03/2024

Existe uma estrutura de piada clichê, que fala de algo que uma pessoa faz em uma determinada condição ruim, o outro acha razoável mas tem o punchline da quantidade. Por exemplo, pessoa A encontra duas bonecas de pano e uma quantia astronômica de dinheiro em um cofre em sua casa. Pergunta para pessoa B, cônjuge, casal antigo, que responde que toda vez que fez X coisa (traiu, matou, roubou, queimou o feijão) tecia uma boneca de pano. Pessoa A acha que ah puxa, está ok, depois te tantos anos etc. Aí pergunta sobre o dinheiro. Pessoa B responde que é da venda de bonecas de pano.

É uma piada ruim e que eu, certamente, consegui piorar.

Toda vez em que sou agredida de alguma forma, eu pinto. Pode ser uma agressão emocional-afetiva, pode ser algo profissional, pode ser a realização de que — mais uma vez, meu deus, eu não aprendo — acreditei que um determinado processo era idôneo e não era. Sou um ser crédulo. Sempre parto do pressuposto que as instituições e profissionais são éticos e corretos. Nem preciso dizer que tenho uma nova exposição quase pronta.

Imensa saudade do meu parceiro Luc Sampaio, com quem eu trocava elocubrações expográficas das mais diversas. Estive na abertura da exposição do Francis Bacon no Masp. Gente, é no Masp, obviamente não é o filósofo e ensaísta britânico do século 16. É o artista plástico irlandês do século 20. Difícil dizer se existe algum esquisito mais amado. Luc e eu tínhamos um projeto à moda do Bacon.

É mais uma daquelas coisas na minha vida que eu tenho dificuldade em continuar quando o diálogo é interrompido.

Foi assim também com o Uma história da arte (Cepe, 2022).

São esses silêncios que me derrubam. É o silêncio de quem deveria ser aliado frente ao machismo. É a mudez da ética. É a quieta conivência política. É a ausência de fala contra o incompetente. É o parceiro que se cala para sempre. Silêncios indesejados são cruéis.

Lembro, obviamente, do maravilhoso Antes do silêncio, do Rogério Pereira (Dublinense, 2023). Em uma sequência de pensamento bastante previsível, lembro da minha mãe.

A exposição quase pronta é cheia de vazios, de silêncios. Ela ia gostar. Aquarelas, novamente. Em pleno ano do nosso senhor de 2024. Sim, eu sei. Também acho.

Pode ser que vire um livro, não uma exposição. Nem sempre as coisas me são claras.

Meu primeiro e felizmente único papel em uma apresentação de ballet foi uma boneca de pano. Era a personagem perfeita para mim. Desengonçada, sem jeito. Podia tropeçar e incorporar no script que ninguém notaria. E, como a cereja do sundae, ficava deitada em um canto a maior parte da peça. Eu era criança e meus pais, acho, ainda nutriam uma certa ilusão sobre mim, no que diz respeito a graça e elegância.

Minha vida é um grande ressignificar. Barthes ficaria orgulhoso, quero crer.

Talvez comece a fazer bonecas de pano.

Quem sabe.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho