Tem um meme sobre nomenclatura de arquivos que é mais ou menos como “final.doc – finalrevisado.doc – finalrevisado2.doc – finalesseaqui.doc – finalfinalmesmo.doc” e por aí vai. Eu nomeio os meus arquivos com a data, no formato americano para ficar em ordem alfanumérica: ano-mês-dia. Então, o arquivo em que trabalhei no dia 16 de abril de 2026 será intitulado como 20260416.doc. Se eu fosse rápida o suficiente para ter mais de um no dia, o que não sou, seria algo como 20260416a.doc.
Refletindo posteriormente ao fato, noto o quanto de humildade há em nomear os arquivos assim. Não humildade ooohmeudeus, olhem como eu sou essa santa. Não, longe disso. Costumo, inclusive, brincar que Santa Carolina só o vinho. As outras, ooops. Está mais para humildade aaaai, meu deus, já desisti estilo de vida. Não faço ideia do que seja uma versão final de coisas muito mais concretas e objetivas, que dirá de um texto. Eu, no máximo, sei quando o shimeji está pronto. E olhe lá. Muitas vezes eu erro.
Fui convidada no programa da Rádio Unesp FM 105,7 MHz, liderado pelo Oscar D’Ambrosio. Ele já me entrevistou antes, em outras iniciativas, e sempre faz boas perguntas. Nesse último, ele me perguntou o que sobressai mais na minha carreira: texto ou imagem. Foi quando descobri que não sei nem mesmo quando eu estou pronta. Estou? Publiquei meu primeiro trabalho com 12 para 13 anos. Estou com 55. Ainda não sei. Vai ver eu sou um documento do Word, uma receita de shimeji.
Bastante manteiga.
Na primeira vez que tive burnout, sim, primeira, fizeram uma batelada de exames. Ressonância, Tomografia, sei lá mais o quê. Perguntei pro neurologista se ele tinha encontrado dentro da minha cabeça a receita da torta da minha avó, que eu tinha perdido na década anterior. Ele não riu. Meu pai, que estava do meu lado pacientemente pelos dias que duraram a investigação médica, riu. Ou minha família é muito esquisita mesmo ou as pessoas perderam o humor.
Molho shoyu.
Deleuze diz que uma aula não tem como objetivo ser entendida totalmente. Ele diz que uma aula é uma espécie de matéria em movimento e que por isso é musical. Uma aula é emoção; é tanto emoção quanto inteligência. Sem emoção, não há nada. A fala dele é mais longa do que isso e eu concordo na íntegra. Uma aula, uma boa aula, por ser múltipla, heterogênea, musical, emoção e líquida, também não sabe quando está pronta. Talvez nunca esteja.
Alho picadinho.
Fico achando que tudo o que vale a pena não está pronto. Esse negócio de final, de definitivo, me parece ou mórbido ou fascista. Prefiro o inacabado, o imperfeito, o incompleto, a pérola barroca.
Destampe até dourar.