As vacas de Lydia Davis

Tenho sentido uma inveja grande de quem pode, pela janela de casa, observar um pasto
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06/10/2020

(06/10/20)

“Saem de trás do estábulo como se fosse acontecer alguma coisa, e aí não acontece nada”, escreve Lydia Davis num conto chamado As vacas. Os animais da literatura costumam ser antropomorfizados, falando ou agindo como humanos, mas com as vacas de Lydia Davis a coisa é diferente. Elas são apenas vacas dispostas no campo, fazendo coisas de vacas. Elas pastam, caminham um pouco, podem trocar cabeçadas.

Eu não gosto muito do conto das vacas, para dizer a verdade, mas tenho pensado nele com frequência. Tenho sentido uma inveja grande de quem pode, pela janela de casa, observar um pasto. Apenas dois grandes acontecimentos alteraram minha paisagem no último semestre: um beija-flor se aproximou das minhas plantas; e alguém, no prédio que enxergo na diagonal, pendurou roupas para fora da janela da frente, o que deve contrariar as regras do condomínio porque ninguém nunca tinha pendurado roupas para a frente daquele prédio e ninguém nunca pendurou depois.

“É comum ficarem inteiramente estáticas. E, no entanto, quando levanto os olhos alguns minutos depois, estão em outro lugar, mais uma vez inteiramente estáticas”, observa Davis. É bastante tedioso o conto das vacas. Davis coloca em sequência noventa e um (noventa e um!) fragmentos de texto a respeito das vacas. Eis um ponto alto do conto: “Elas têm quase o mesmo tamanho, porém uma é a maior, uma a média, e uma a menor”.

Eu no geral gosto de Lydia Davis. Ela tem frases curtas e contos esquisitos. Ou, às vezes, contos curtos e frases esquisitas. O conto das vacas, porém, é longo e repetitivo. Ainda assim, tenho pensado nele diariamente há cerca de três semanas, desde que o li pela primeira vez. Saio de casa com a minha cachorra e penso nas vacas. Caminhamos até o parque perto de casa e chego a procurar pelas vacas.

As vacas da Lydia Davis ficavam do outro lado da estrada em que ela morava. Do outro lado da minha rua, não há vacas, mas duas barracas de acampamento. Numa delas, mora o Fábio, que de vez em quando me pergunta como é mesmo esse negócio de trabalhar com livros e nutre uma quase obsessão pela minha idade, porque ele não acredita que eu tenho trinta e cinco e ele, trinta, se ele parece mais velho.

De vez em quando, o Fábio caminha comigo e com a minha cachorra até o parque. Ele fica nervoso quando se aproximam os cavalos da Polícia Militar. A cachorra também fica nervosa, mas por motivos diferentes. O Fábio tem medo de largar as drogas porque da última vez que parou ele foi traído pela namorada e ficou com o coração partido. Eu disse que é da vida, que todo mundo já foi traído e quem diz que não ou é mentiroso ou é ingênuo, mas ele discordou.

Não vejo as barracas da minha janela porque meu apartamento é de fundos, mas certas noites escuto brigas aos berros que vêm da segunda barraca, na qual mora um casal que nunca vejo. No dia seguinte, Fábio faz questão de contar o que aconteceu. Quase sempre ele defende o ponto de vista do homem e eu, o da mulher. Depois eu vou para o parque com a cachorra, e ele volta a cuidar dos carros que estacionam na rua.

Tem dias que eu penso que observo as barracas e a vida do Fábio do mesmo jeito que Lydia Davis observa as vacas. Mas tem outros dias em que eu tenho certeza que é Fábio quem me observa e toma notas tediosas a meu respeito.

Julia Dantas

Nasceu em Porto Alegre (RS). É editora, tradutora e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS. É autora de Ruína y leveza (Não Editora, 2015) e organizadora de Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade (Dublinense, 2020).

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