Entre dois textos

Os limites e os sentidos entre o texto original e a tradução são sempre imprecisos
30/07/2016

Entre os dois textos — original e tradução — pode-se divisar um longo trajeto, salpicado por severas rugosidades, coberto por teias diáfanas formadas por restos de sentidos, restos de memórias. Os limites e os sentidos são sempre imprecisos. Após tantas traduções, difícil é indicar onde está o original.

Divisa-se um texto atravessado de duplos e múltiplos sentidos. Significados deliquescentes ou simplesmente cambiantes. Pressente-se algo ainda errante que paira e permanece sobre o texto. A projeção opaca do original que assombra e tolhe cada tradução.

A sombra da mistificação que se projeta sobre todo texto traduzido. O engodo travestido. A eterna suspeição. A pecha da traição. Tradução como eterna falsificação. A solução? Há?

Perseguir os rastos dos sentidos, em contramão. Algo que insiste em contrariar o sentido comum. Tresler, fazendo o caminho inverso. Sentido oposto. Tradução.

Percorrer os canais da capilaridade sutil que permite a transmissão dos sentidos, pelos subterrâneos, entre trechos distintos do texto. Significados aflorando após longo tempo de mergulho na escuridão, na não significação.

Pois há sentidos que parecem mergulhar no silêncio, por longo tempo. Tempo de esquecimento e maturação. Como voltam desse período? Como voltam do passado? Transformados? Corrompidos? Seriam sempre cediços os sentidos, desfazendo-se com o passar das eras? Seria malsinar sempre a sina da tradução?

Mais que isso: o texto parece operar contínuo adiamento de sua inteira e clara significação. Procrastinação sem fim. Toda palavra parece conter uma história, longa história, que transcende sua mera etimologia. História formada por uma sequência de sentidos mais ou menos precisos, mais ou menos imprecisos. Adivinhações serão sempre bem-vindas.

Sempre ronda uma tentação: transportar-se para o outro lado, o lado de lá da linguagem. Buscar na fonte o sentido imediato. Significado quase religioso. O verbo antes da elocução, que já o contamina de parcialidade, imprecisão, incompletude.

Parece ser urgente encontrar algo que vá além da determinação de significados aproximativos. Buscar a todo transe a equivalência perfeita, a transparência absoluta entre original e tradução. Haveria maneira? A tradução não seria exatamente isso, em sua máxima potência? Nada mais que tosca aproximação?

Seria necessário, na tradução, proceder a uma filtragem regrada, parametrizada por critérios convencionais avalizados pela mais pura tradição contemporânea. Filtragem que depure e proteja o cerne dos sentidos.

Nem há porque aferrar-se àquele sentido primeiro, original, que parece a princípio tão claro e evidente, a qualquer um leitor. Como registrar essas primícias na tradução? Pois há outro sentido de original, que talvez não se queira mencionar, mas que parece ser a salvação mesma da lavoura tradutória. O sentido do diferente, do peculiar, do inaudito, daquilo que se cria como novo e que, para prevalecer como novo, precisa sufocar sua origem. Conciliáveis esses sentidos? Como resolver essa tensão entre o velho original, de um lado, e, de outro, seu duplo, o novo original, seu filho, sua tradução?

Quisera eu encontrar solução para tamanho problema. Curar o desesperado impulso da correção do original pela tradução, como alguém que tenta em vão corrigir o próprio destino. Encontrar a mais perfeita expressão, a forma correta de vazar o texto em tela nova. Ante o impossível, resta traduzir. E rir com riso sempre renovado.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

Rascunho