Ceticismo do inteligível (5)

Entre Pessoa e Bernardo Soares, Eduardo Ferreira investiga os limites da significação e vê na tradução um exercício provisório, imperfeito e necessário
O poeta português Fernando Pessoa, autor do clássico “Livro do desassossego”
01/08/2026

A busca dos sentidos e o permanente questionamento sobre sua utilidade são uma das tônicas que Pessoa imprime em seu Livro do desassossego. Nada é muito óbvio, abundam contradições, mas permanece a ousadia da permanente contestação sobre a viabilidade da comunicação humana e sobre os alicerces da tradução.

Podemos começar com uma breve parábola incluída no diário do semi-heterônimo pessoano Bernardo Soares. Conta-se ali que certo personagem, não identificado, tinha a elevada pretensão de estabelecer um método de deixar as frases incompletas sem que o interlocutor o percebesse. Com isso em mente procurava o “micróbio da significação”. Aparentemente não encontrou. Morreu antes. Suicídio: “A importância do problema deu-lhe cabo do cérebro…”.

A tarefa de fato não é fácil. O “micróbio da significação” lembra algo como a pedra filosofal, embora em outro plano de ideias. Ambas as aspirações são irremediavelmente fadadas ao fracasso, pelo grau de idealização do objetivo. Não há milagre que resolva o problema da significação. Não há nada intrínseco ao texto que o resolva; nem se deve esperar que a injeção de algo externo o faça.

É nesse sentido que argumenta Fernando Pessoa em vários trechos do texto, chegando às vezes às raias da descrença ou, talvez melhor, da resignação e mesmo da indiferença: “Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido”.

Nada tem um significado intrínseco; cabe ao leitor/tradutor tomar decisões que façam sentido. O tradutor tem diante de si uma tarefa cujo resultado será irremediavelmente provisório e contestável. Valeria a pena insistir assim mesmo? Não seria o tradutor aquele “cavaleiro da decifração inútil”, mencionado por Pessoa num dos apêndices do Desassossego?

No diário de Bernardo Soares, outra reflexão nos remete de volta à notória impossibilidade da tradução: “Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados”. Estamos outra vez diante do “ceticismo do inteligível”.

Inútil ou impossível, a tradução permanece o único caminho rumo a uma compreensão mínima.

Achar inútil talvez seja demasiado. Útil é, pois sem ela nada se entende, ainda que a compreensão seja enfim algo sempre muito pessoal e até idiossincrático. O sentido será sempre uma construção, não um dado da realidade.

Considerar impossível também é sempre um exagero, ou sintoma de extremo e doentio perfeccionismo. A tradução não precisa ser perfeita. A compreensão não precisa ser completa.

Nem precisa ser definitiva, incontestável ou única a tradução. Afinal, em palavras pessoanas: “Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos…”. É parte do negócio da tradução, da leitura e da comunicação — espaços que se abrem para o dissenso e que alargam a discussão. E, ampliando o foco, não é apenas questão de ser “honesta” a frase, mas, sobretudo, de ser “honesta” a leitura — honesta inclusive no sentido de aceitar a possibilidade do erro e de múltiplas alternativas.

Não há um final feliz. Talvez não haja nenhum tipo de final. O micróbio da significação não será nunca encontrado mesmo. Mas nem toda decifração precisa ser inútil, pois na verdade não é. Deixo uma última frase solta como signo de desalento (pessoano) e, ao mesmo tempo, como desafio que nos fará melhores: “Tendo gasto a parte da vida que não perdi em interpretar confusamente coisa nenhuma, versos em prosa às sensações intransmissíveis com que torno meu o universo incógnito. […] Nuvens…”. Traduzir, apesar de tudo, apesar de todo o desassossego, pode ser solução.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

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