Ceticismo do inteligível (4)

No “Livro do desassossego”, Bernardo Soares vê na literatura uma tradução própria do real, bem como memória, ficção e caminho para torná-lo inteligível
Ilustração: Thiago Lucas
01/07/2026

Reflexões sobre a produção textual e a literatura ocupam parte representativa do pensamento pessoano que se espraia pelo Livro do desassossego. A tradução, que em si mesma ali aparece também com certo relevo, se imiscui insidiosamente nessas reflexões, de uma maneira difícil de desemaranhar.

Bernardo Soares, em nome de Fernando Pessoa, assevera que “A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal.” A exclusão da “mácula da realidade” é crucial aqui, por apontar a prescindibilidade — pelo menos parcial — do concreto para a concretização do literário. E, mais, por ousar dizer que a natureza é mais real na literatura do que no prosaísmo cotidiano: “As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite”.

O semi-heterônimo pessoano arrisca conceituar a literatura como espécie de super-realidade, ou talvez uma supertradução da realidade. Como suporte capaz de carregar uma natureza mais concreta, porque aparentemente — e talvez paradoxalmente — mais sólida e duradoura. Como meio capaz de fixar na memória humana, geração após geração, e com cores vivas, uma realidade na prática já inexistente.

Para Bernardo Soares, a literatura decorre da irrealidade atribuída ao concreto e se institui como ferramenta para converter a vida em mensagem minimamente compreensível. Assim, “toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real […] a vida é absolutamente irreal, na sua realidade direta: os campos, as cidades, as ideias, são coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos”. A tradução do sentimento íntimo depende essencialmente da literatura, ou seja, de boa dose de reelaboração e, no limite, de camadas generosas de ficção: “São intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias”.

Na dicção literária mora o condão que, segundo o poeta, nos permite transformar o concreto em algo verdadeiramente inteligível, armazenável, repetível. Dizer é preciso, narrar é preciso: “Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale: o mais é homens e mulheres, amores supostos e vaidades factícias, subterfúgios da digestão e do esquecimento…”.

A vida vale pelo que tem de interior e pelo que se pode transmitir desde o locus íntimo. A impossibilidade de apreender direta e imediatamente o concreto — seja essa impossibilidade real ou imaginada — conduz Bernardo Soares a defender a superioridade absoluta da ficção, tornada nova e única realidade e somente acessível via tradução do privativo ao coletivo. É preciso criar o mundo pela prosa.

Noutro ponto do diário do semi-heterônimo pessoano, lemos uma aparente contradição. No mesmo fragmento, o autor aponta que a literatura “simula a vida” e funciona, paradoxalmente, como “a maneira mais agradável de ignorar a vida”. Ambas, na verdade, reforçam o argumento de que a literatura opera como tradutora da realidade, ou de uma certa percepção da realidade incorporada pelo autor e oferecida ao leitor. Ambos, autor e leitor, podem usá-la como forma de encarar — ou escapar de — uma realidade opaca, mais dura, menos “literária”.

Narrar é preciso. Simula o viver e, ainda, permite contornar o que não se quer lembrar ou enfrentar. “Escrever é esquecer”, recorda Pessoa. É terapêutico. É arte e literatura. E ainda pode nos dar uma certeza repentina e imediata, ainda que provisória, de que estamos traduzindo certo o que lateral ou diretamente experimentamos.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

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