Personagens falam, às vezes

Não há muitos conselhos para criar um diálogo, mas o mais sensato é: faça sua personagem falar o menos possível
Ilustração: Joana Velozo
01/02/2021

1.
No “mundo real” as pessoas falam. Demais, às vezes, emendando um assunto ao outro, fazendo digressões inúteis, perdendo-se nos atalhos, buscando contar suas histórias e atrair a atenção alheia. Não referimos ao tempo atual, em que as pessoas falam sem busca de interlocução, mas, sim, de alguém que apenas as ouça devotamente. O suprassumo desse encanto por si mesmo acontece nas redes sociais, para onde são lançadas todas as espécies de intimidades, quase sempre teratológicas ou ociosas, sem o encargo de “ouvir” qualquer resposta. Mas enfim: no melhor dos mundos de Narciso, imaginemos que o diálogo ainda aconteça, nem que seja para os fins desta coluna.

2.
E qual a natureza desse diálogo “real”? Antes de tudo, é errática; começa-se a falar na preservação da natureza e acaba-se em boletos a pagar. Os elos entre esses dois pontos são impossíveis de serem recuperados, a ponto de as pessoas se perguntarem, interrompendo-se: “Mas por que diabos estamos falando nisso?” São interrogações que, se são surpreendentes para os interlocutores, terão algum sentido no mecanismo da livre associação de ideias, e parece que há a busca do prazer nessa atividade extraviada e lúdica. E não é difícil lembrar a frase de Trânio, em A megera domada, aqui dita em formulação inversa: não há proveito se não há prazer.

3.
Já o diálogo da ficção, aquele que se inclui no romance ou no conto, isso é outra coisa. O conto e o romance são um constructo intelectual; cumpre lembrar, portanto, que a literatura não é um “espelho da vida”, pois se assim o fosse, seria uma inútil redundância. Na literatura não temos pessoas e, sim, personagens, que se comportam como pessoas, mas sempre personagens, criaturas do ficcionista. Como tais, vão dizer aquilo que o ficcionista deseja que digam. E por quê? Porque o diálogo sempre terá uma intenção dentro da narrativa. E qual essa intenção? A de mostrar como a personagem é interiormente, quais suas motivações, qual a sua questão essencial. Isso não é declarado de maneira expressa, porque as personagens resguardam-se quanto a dizer sua intimidade. Usará implícitos, mas esse é assunto do parágrafo 7.

4.
Pela razão acima, cada personagem terá sua própria voz, inconfundível com a de qualquer outra personagem. Todos sabemos como é desagradável quando todas as personagens falam da mesma forma; nós desacreditamos da própria história. Cada personagem terá seu léxico, sua sintaxe, seus campos de interesse, suas escolhas morais, sua identidade sexual, seus ódios e amores. Muitos dos desastres na escrita do diálogo decorrem do fato de o ficcionista não saber bem como criou sua personagem, e daí o resultado: a cada vez que falar, a personagem parecerá alguém diferente.

5.
Se o diálogo serve para revelar a personagem, não existe para contar a história. Quem conta a história é o ficcionista. Logo, pôr informações sobre a história na boca da personagem é de um amadorismo constrangedor, e é mais um indício do mau texto. Não é difícil encontrar falas com o seguinte teor: “Não sei o que estamos fazendo aqui, nesta cidade, procurando vestígios do seu irmão, aquele desmiolado que fugiu de casa apenas para deixar os pais com pena, e eles nem podem pensar em pagar qualquer resgate, mesmo que falso, porque vivem da aposentadoria da previdência pública”. / “Sim, você tem razão, e ainda tivemos de achar quem ficasse com as crianças num fim de semana”. Esse disparate de diálogo é possível de ser encontrado a todo momento, e o leitor tem o pleno direito de sentir-se indignado, ou pior, um tolo.

6.
Boa razão tinha Alejo Carpentier, quando afirmou: “O diálogo é a solução da facilidade”. Isso significa que se o ficcionista, em vez de narrar — por incompetência, descaso ou preguiça —, transfere ações da história para a boca da personagem, está escolhendo a via mais cômoda. E nem tudo que é fácil é o melhor, literariamente falando. A opção pela “facilidade” do diálogo pode ser a melhor para leitores eventuais, com gosto primário ou desatentos; mas não convencerá o leitor que não gosta de ser insultado em sua inteligência. Esse leitor quer saber da história, mas quando seu ficcionista a narra. Diferente é o diálogo teatral. Nele deve constar, nas falas, os segmentos da história, que o leitor necessita para entender a trama. Já na ficção narrativa, o diálogo está longe de ter essa função.

7.
As pessoas e, logo, as personagens, resguardam-se; quase nunca dizem de modo consciente o que são, e nós é que temos de perceber o jogo. Não é difícil imaginar uma fala com o seguinte teor: “Os quartos de hotel são ótimos. As pessoas ficam seguras, e podem imaginar e praticar qualquer coisa imoral ou ilegal”. O desvelamento da questão essencial da personagem dá-se através de um poderoso implícito, do qual ela mesma não se dá conta: “Sou um misógino e tenho medo de revelar algumas coisas ilegais e imorais que eu faço”. Aprender a trabalhar com implícitos confere qualidade ao diálogo, pois respeita o leitor, dando-lhe oportunidade de desvelar o que está por detrás das falas. O mesmo ocorre com a mentira em sentido estrito. Se as pessoas habitualmente mentem, as personagens muito mais, e esse é um bom jogo de implícitos a ser explorado.

8.
Não há muitos conselhos para criar um diálogo, mas o mais sensato é: faça sua personagem falar o menos possível. Quanto menos falar, menor é a possibilidade de erro. E quando falar será apenas, repetindo para que o leitor a conheça melhor. E que, por favor, considerando a estética contemporânea do texto narrativo, que a personagem não fale mais do que duas linhas, pois logo estará contando a história, e é preciso fugir disso. Tudo pode ser dito em duas linhas. Há quem possa ensinar essa técnica: García Márquez, Hemingway, ou, entre nós, Graciliano. E se a personagem falar pelos cotovelos, digamos, e que sua característica mais ostensiva seja essa, de falar sem remédio? Claro que a pior coisa a acontecer será reproduzir tudo o que ela diz. Depois de três falas o leitor dar-se-á conta de que tudo será igual dali por diante. Há três soluções para essa armadilha: uma, é mostrar o enfado de seus interlocutores; outra, é escrever curtas paráfrases de suas incessantes falas e, por último, sempre há o recurso do discurso indireto, como está no conto As atarantadas, de Alberto Moravia, do livro O autômato. O resultado será o mesmo.

PS.: Falando em discurso indireto, há uma questão secundaríssima, que ficcionistas iniciantes alçam ao status de primaríssima, e se amarguram com ela: como apresentar o diálogo, graficamente falando? Como questão “primaríssima”, e apenas no intuito de baixar tensões e perda de tempo, a coluna do próximo mês tratará disso.

Luiz Antonio de Assis Brasil

É romancista. Professor há 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUC-RS. Autor de Escrever ficção (Companhia das Letras, 2019), entre outros.

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