Eu não estava lá. Meus olhos assustados — e para sempre daltônicos — escaparam ilesos da triste figura: as sombras a volutear furiosas na parede de madeira — o pai diante da casa, um animal indômito a expelir vitupérios bestiais. A mãe me contou, com a voz constrangida pela vergonha que soterra a vítima e estrangulada na garganta que, poucos anos depois, assim como o restante do corpo, seria dilacerada pelo câncer. “Ele tentou me matar”, disse ao telefone, como se sussurrasse um pecado capital ao padre da paróquia minúscula, para onde rumava, todo santo domingo, com a fé de que Deus — aquele ser perdido nos confins dos céus — a livrasse dos pecados e da morte que arranhava com unhas afiadas a sua vida doméstica. Não me espantou a intenção de matar a nossa mãe — afinal, sempre estivemos à mercê de um súbito ataque de fúria, impulsionado pelo álcool a borbulhar nas veias salientes dos braços: havia chutes e socos quase todo final de semana; a faca a saltar da gaveta apenas às vezes —, mas sim o novo método: atear fogo à casa com a mulher, nossa mãe, lá dentro, acuada, entregue à violência doméstica tão comum em toda a nossa família. Homens bebiam, enchiam as tripas de cachaça, voltavam para casa e espancavam, com um sádico gosto, os filhos e as esposas. Nessa época, eu era apenas um menino magro e sempre com muito medo. Incendiar a casa: lembra-te que és pó e ao pó voltarás. Talvez o pai lesse a Bíblia, com a ignorância do pouco estudo, apenas para confirmar que suas mãos brutas também eram, ironicamente, guiadas por um Deus todo particular, criado nas entranhas de um vício que acompanha a todos os homens da família desde o avô, que caiu morto na rua, embriagado: somos todos alcoólatras. Mas apenas um roçava a pele nas paredes do inferno.
Do outro lado da linha telefônica — em um tempo analógico e lentíssimo, se comparado à barafunda tecnológica dos dias atuais —, a milhares de quilômetros, numa terra estrangeira e, às vezes, hostil, eu apenas ouvia a narrativa entrecortada de terror. Já fazia uma semana, mas o medo transpirava em cada palavra da mãe. Ela estava sozinha em casa. Meus irmãos andavam pela vida errática dos domingos de álcool, bailinhos e algum sexo. Pouco mais de um ano depois, minha irmã morreria de maneira misteriosa num leito hospitalar, com apenas vinte e sete anos. O pai, como sempre, chegara bêbado, o corpo a naufragar pelas beiradas da rua de terra e pedregulhos. Trazia nas mãos — ou seriam patas bífidas? — o recipiente com gasolina. Naquele dia — um modorrento domingo —, o espírito de um piromaníaco o possuiu.
Aquele menino esguio, corpo de varapau, sentado ali no sofá, é meu filho. Ele olha concentrado para a tevê, onde dois times disputam uma batalha em torno de uma bola. A ideia é chutá-la no gol, para, em seguida, sair correndo em bando, felizes, sorridentes em direção à torcida. Só conhece a alegria de se fazer um gol quem já fez um gol em algum campinho estropiado. Ele, o menino magro e curioso, tem os olhos pregados no jogo. Não se mexe para nada. Está sonhando com os dribles e chutes para o seu futuro como jogador. Naquele dia, meu filho tinha pouco mais de cinco anos. E nutria por mim um amor quase incompreensível, daqueles que compartilhamos tão pouco ao longo da vida. Ao redor, as paredes são policromáticas — não consigo identificar praticamente nenhuma cor — devido aos milhares de livros, milimetricamente dispostos nas prateleiras que recobrem todas as paredes. A tevê é contornada pelas lombadas de dezenas de histórias, que se espraiam ao infinito pela casa toda. Meu filho não se mexe; é um aprendiz dedicado. Ao fundo, numa das laterais da sala, estão eles: os mais que importantes livros de capa azul — não sei realmente se o azul que eu vejo, ou acredito ver, é o mesmo que o meu filho enxerga. Enfim, os livros de capa azul — minha primeira coleção, com cem obras, entre as quais faltam quatro romances, compradas toda semana na banquinha de jornais, no início da adolescência — integram certa mitologia em torno da biblioteca que construo há cerca de quarenta anos. Os livros de capa azul são a gênese e os pilares da casa-biblioteca onde moro. “Vá tomar banho, filho”, digo-lhe com a voz pausada, sem nenhum indício de que se tratasse de uma ordem. “Não vou”, chega-me a resposta seca, áspera, a triscar a intimidade compartilhada naquela tarde de domingo. Um pouco aturdido, dou voltas pela sala, faço pequenas tarefas domésticas e, da cozinha, desfiro a segunda tentativa: “Vá tomar banho, filho”. “Eu não vou”, responde, alongando cada sílaba, como se desferisse um chute certeiro nas minhas canelas. Após mais duas ou três tentativas — “Vá tomar banho, filho” —, a fúria invade o corpo de pernilongo, que salta do sofá num pulo certeiro, avança até o canto da sala, os dedos sedentos de vingança, e agarra um dos livros de capa azul — qual seria? — e o sacode no ar feito a cabeça de um inimigo, decepada pela espada afiada no campo de batalha medieval. “Se você me mandar tomar banho mais uma vez, vou colocar fogo nesse livro”, grita o pequeno, enfurecido e amoroso piromaníaco. Alguns traços ancestrais são inescapáveis. Mas por que justamente um livro de capa azul seria alvo daquela vingança perante a ordem despótica de mandá-lo em direção ao chuveiro? A resposta talvez esteja na importância daqueles livros na minha vida — são como peças raras em um museu em eterna construção. Quando o pai tentou atear fogo à casa com a mãe encurralada pelo pavor, os livros de capa azul estavam lá, acomodados em uma improvisada prateleira no meu quarto. O pai não colocou fogo na casa, impedido pelos vizinhos. Meu filho não colocou fogo no livro de capa azul, impedido pelo amoroso abraço que nos envolveu. Os livros de capa azul já mudaram algumas vezes de lugar na vicejante biblioteca afetiva. Meu filho, agora um jovem às bordas da vida adulta, sempre vem à minha casa para buscar livros de ficção ou filosofia. Transformou-se, além de exímio jogador de futebol, em um dedicado leitor. Meu pai ainda está vivo. Às vezes, passa aqui em frente ao portão: o corpo estropiado, destruído pela vida errante, arqueado, consumido pelo álcool que preenche o vazio de seus dias. É um homem velho e perto da morte. Não sei se ainda lê a Bíblia: lembra-te que és pó e ao pó voltarás. Há algum tempo, desistiu de dar socos e pontapés nos filhos; nunca mais tentou atear fogo em nada.
Nessa batalha, todos saímos derrotados.