Naquela manhã de inverno, quando desci a escada — o sol apenas a espreitar entre as árvores —, a mãe já estava morta. O corpo rígido como rocha; a carne fria enroscada nas cobertas. Não sei por qual fresta a morte invadiu a casa. Isso pouco importava: havia um quarto silencioso e uma mãe ausente. Pouco tempo antes, havia comprado a casa, pequena e afastada de C., como refúgio, espaço seguro para uma vida arrastada, com voracidade, pelo câncer rumo ao fim. Nossas casas nunca nos protegeram de nada: nem das tempestades do mundo, nem das violências domésticas. Agora era necessário começar tudo de novo. Eu, um homem de quarenta anos — órfão de mãe pela morte e de pai por escolha. A orfandade plena, às vezes, é algo que nos damos de presente.
Nunca tivemos boas casas. A precariedade se revelava na ausência de água encanada, de luz elétrica ou mesmo de um banheiro rudimentar. Espalhávamos nossos dejetos no mato ou em um buraco fétido cavado junto ao matagal. Nascemos como animais esquálidos, à margem da civilização. Aos poucos, tentamos nos infiltrar por ruas de asfalto e casas de concreto. Antes de chegarmos a C., ainda numa infância nada idílica ou bucólica, habitamos taperas, casebres inóspitos, terras devastadas. Da primeira casa, onde nasci de um parto longuíssimo e sofrido — segundo a mãe, revoluteei durante três longos dias até arrebentar suas entranhas e despontar neste mundo —, guardo apenas a lembrança do exterior: o terreiro pedregoso, o açude de peixes incertos, o milharal e a estrada ao longe, a levantar poeira o dia todo. Como seria o útero daquela casa de madeira? Seria um útero seco, vigiado pela sanha destruidora do pai? Naquela época, ele já agredia a nossa mãe com a brutalidade de um martelo a socar uma tachinha?
A morte sempre vence a batalha. Mas era preciso insuflar vida à casa. Após a partida da mãe, quebrei todas as paredes internas. O vazio desenhou uma percepção de grandeza. Ampliei os limites para os fundos, para cima, para a frente. Aos poucos, a casa ganhou outra forma, outros contornos, para abrigar o inimaginável nos tempos da tapera à beira do açude: uma imensa e robusta biblioteca. No lugar onde encontrei a mãe morta, repousa hoje um confortável sofá preto. Nas paredes ao redor, milhares de livros. Entre eles, milhares de obras de literatura estrangeira — uma algaravia da qual algumas palavras em italiano a mãe compreenderia. A miserável herança poliglota que me restou resume-se a uma única palavra: maledetto, cuja duplicação do T só agora descubro. Sim, faz algum sentido carregar no lombo certa maldição. A mãe, banguela, a dentadura meio frouxa, vociferava com frequência: maledetto. O grito ecoava longe — talvez para o reduzido mundo; talvez para a desprezível vida; talvez para si mesma.
Deixamos a roça para trás: a sobrevivência se tornara impossível na miséria permanente. Então, seguimos rumo a uma cidadezinha mais ou menos próxima. Lá, encontramos outra tapera — sem água encanada, sem energia elétrica, sem banheiro. Do poço nos fundos, tirávamos a água para o dia a dia. Uma lata furada servia de ridículo chuveiro: eu subia numa cadeira e despejava a água para meu irmão tomar banho; em seguida, trocávamos de lugar. Passamos parte da infância fantasiados de chuveiro. A mãe lavava roupas no rio; o pai trabalhava como pedreiro. Já nesta época, sentíamos que a violência do alcoolismo deixaria marcas indestrutíveis em todos nós. A casa era de madeira, mal-ajambrada, tomada por pulgas e percevejos. As noites eram um tormento: frestas indecentes transformavam o vento gelado em uma desafinada sinfonia nas madrugadas. Estávamos numa cidade de verdade — pequena e insignificante —, mas ainda às bordas do fim do mundo. Foi nessa casa que, por volta dos cinco anos, tomei o meu primeiro porre: como um rato, sorvi o resto do vinho doce deixado pelos adultos nos copos. Logo, cambaleei bêbado, como meu pai. Aos cinco anos já é possível carregar uma maldição.
As paredes ficaram bonitas, coloridas. Os livros compõem um cenário onírico — milhares de histórias habitam meus dias, atravessam minha existência e se multiplicam ao infinito. Após finalizar as estantes e organizar todos os livros, a casa ganhou uma robustez acolhedora, como se o mundo lá fora tivesse pouca importância. A casa passou a ser sustentada por histórias. Personagens transitam inquietos e constroem um sentido antes ausente. Nada está fora do lugar: tudo em ordem alfabética, por gênero, nacionalidade, clássicos e contemporâneos. Só não há uma organização cromática, pois meu daltonismo transformaria a biblioteca em uma risível barafunda.
Quando chegamos a C., tivemos a impressão de que alçáramos, enfim, a civilização. A casa era pequena, de madeira, mas contava com água encanada e luz elétrica — algo que até hoje me espanta: o primeiro banho de verdade, num chuveiro, por volta dos sete anos. Talvez para reforçar nossa urbanidade, a mãe comprou escovas de dentes para os três filhos. Mas só aprendemos a escová-los na escola pública. Era um tanto ridículo: enfileirados, escovávamos os dentes e, depois, usávamos o flúor. Em casa, nunca ouvi a mãe gritar: maledetto, vai escovar os dentes. Isso sempre foi irrelevante. Afinal, a mãe não tinha nenhum dente pregado nas gengivas. Aquela casa nos serviu de abrigo e perdição. Se por um lado me deu a chance de ir à escola, de aprender a ler e a escrever, por outro marcou a ferro as paredes com as violências do pai contra a mãe e contra nós, seus três filhos pequenos. Era como se o lobo mau tivesse arrombado a porta e permanecesse ali para nos maltratar. Não queria nos devorar; apenas se divertia com nosso pavor, com as surras brutais, com o desespero que nos cercava dia após dia. Nossas casas nunca nos protegeram de nada.
Há alguns dias faltou água em minha rua. Não percebi que a caixa d’água havia se esvaziado. A pressão era insuficiente até mesmo para um banho rápido. O sábado começara com a máquina de lavar roupas cheia. Minha filha M. estava comigo e feliz por poder escapar do banho previsto para o fim da tarde. Liguei para a empresa de saneamento, que garantiu o retorno o mais breve possível do abastecimento. Sentei à porta, o telefone na mão, o sol furioso, pregado no meio do céu. Lembrei, sem saudade alguma, dos meus tempos de chuveiro.