Sylvia desistiu
Marina se rendeu
Virgínia não quis mais
Aglaja pediu as contas
Dorothy abortou a missão
Alfonsina mandou às favas
Anayde entregou os pontos
Florbela abandonou o barco
Ana Cristina mandou tudo a merda
e eu aqui
de quando em quando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
sendo
tentada
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
teimando
Estrela Ruiz Leminski publicou este poema em 2011, no livro Poesia é não. Trata-se de um livro todo de obras visuais, repleto de tiradas cômicas, trocadilhos, insights e metapoemas, desde o título (que parece ecoar algo de Augusto de Campos). Aqui, mesmo que não decifre, de imediato, o conjunto das personagens envolvidas, o leitor há de perceber, a partir do paralelismo sintático-semântico, o ofício e o destino comum de todas elas: escritoras suicidas (que, de fato, atentaram contra a própria vida — ou, de alguma forma bem intensa, tentaram).
Após os nove versos iniciais, em que o poema enfileira nove eufemismos para a morte, sempre tendo uma mulher como sujeito — mais do que gramatical — consciente da ação praticada, vê-se a presença de um “eu” feminino (o adjetivo em “sendo/ tentada” estreita o eu lírico ao eu autoral) que resiste bravamente ao gesto decisivo, para lembrar Camus de Le mythe de Sisyphe, e teima em permanecer na lida da vida: a repetição anafórica do gerúndio “teimando” por 35 vezes não deixa dúvida quanto a esta resistência, por vezes ameaçada pela tentação de, exercendo o mesmo ofício, aderir àquele destino.
O recurso da visualidade coloca em atrito ao menos duas possibilidades aparentemente antagônicas: depois dos versos “sendo/ tentada”, o verbo “teimando” vai pouco a pouco desaparecendo. De um lado, o gerúndio indica uma ação que ocorre, um “eu” “teimando”; de outro, a ação que ocorre — “teimando” — não ocorre mais, pois vai sumindo diante de nossas vistas. No poema, a “tentação da morte” venceu a “teimosia da vida” e o eu se irmanou às artistas, diluindo-se no fundo preto e lutuoso da página e simulando uma espécie de suicídio da voz poética? Ou, ao contrário, o freudiano estado melancólico acaba se incorporando à realidade finita e fungível da própria vida (e assim a teimosia ludibria a tentação)?
No esclarecedor artigo O texto poético de autoria feminina em âmbito escolar: análise da obra Poesia é não, de Estrela Ruiz Leminski (2018), Eliane Galvão afirma que “a palavra ‘teimando’ aparece em dégradé, como desaparecendo aos poucos, até apagar-se; sua persistência avulta pelo emprego do gerúndio, o qual indica uma ação ainda em curso, que se prolonga no tempo. Pode-se entender que a luta do ‘eu lírico’ não termina, sobretudo porque confere continuidade à de outras mulheres”. A ensaísta faz, de modo sintético, uma súmula da biografia de cada uma das nove artistas. A citação é longa, mas fundamental, pois resume informações preciosas que dão a ver um retrato das “personagens”:
AGLAJA VETERANYI, romancista romena, “pede as contas”, no caso, da função de escritora, aos 39 anos, atirando-se no Lago de Zurique; a poeta, crítica e dramaturga americana DOROTHY PARKER “aborta a missão”, certamente, de escrever, entregando-se ao álcool; a poeta, dramaturga e ensaísta argentina, nascida na suíça, ALFONSINA STORNI, “manda às favas” a escrita, aos 46, atirando-se ao mar; a poetisa, professora e paraibana ANAYDE BEIRIZ “entrega os pontos” na luta pela escrita, pois toma arsênico aos 25; a poetisa FLORBELA ESPANCA “abandona o barco” da literatura, aos 36, encerrando sua viagem nos barbitúricos; a poetisa russa e tradutora MARINA IVÁNOVNA TSVETÁYEVA “rende-se” diante dos horrores da perseguição política, do exílio, da miséria e da mortandade, cometendo suicídio aos 47; a romancista e autora de novelas VIRGINIA WOOLF “não quis mais” escrever, aos 59, afogando-se em um rio; a poetisa e romancista americana SYLVIA PLATH “desiste” de escrever e lutar, aos 30, inalando gás de cozinha; e a poetisa, tradutora e jornalista carioca ANA CRISTINA CESAR “manda tudo à merda”, aos 31, atirando-se da janela do apartamento de seus pais.
[São meus os destaques dos nomes próprios em maiúsculas.]
Eliane Galvão sugere possíveis motivações para os suicídios (termo que não aparece no poema), tentativas e decisões de cada uma das escritoras e interpreta cada um dos versos de Estrela Ruiz Leminski, incorporando-os na própria interpretação: desistiu — de escrever e lutar; rendeu-se — diante de horrores (…); não quis mais — escrever; pediu as contas — da função de escritora; abortou a missão — de escrever; mandou às favas — a escrita; entregou os pontos — na luta pela escrita; abandonou o barco — da literatura; mandou tudo a merda — atirando-se da janela. No poema, não se depreende um princípio estruturante na ordem da aparição dos nomes: nem os anos de nascimento ou falecimento, nem a idade que tinham, tampouco a ordem alfabética dos nomes ou o país natal — nada indica a motivação de Estrela para começar com Sylvia [Plath] e finalizar com Ana Cristina [Cesar]:
1932-1963, 30 anos – Sylvia Plath (EUA)
1894-1941, 47 anos – Marina Ivánovna Tsvetáyeva (URSS)
1882-1941, 59 anos – Virginia Woolf (Inglaterra)
1962-2002, 39 anos – Aglaja Veteranyi (Romênia)
1893-1967, 73 anos – Dorothy Parker (EUA)
1892-1938, 46 anos – Alfonsina Storni (Suíça / Argentina)
1905-1930, 25 anos – Anayde Beiriz (Brasil – Paraíba)
1894-1930, 36 anos – Florbela Espanca (Portugal)
1952-1983, 31 anos – Ana Cristina Cesar (Brasil – Rio de Janeiro)
Se parece não haver princípio lógico na ordem da aparição das poetas ao longo dos impactantes nove versos iniciais, há, contudo, um princípio estético, que dá lógica ao que parece aleatório: o ritmo. De fato, a extensão das frases nos leva à escansão métrica, e o que se vê é um esquema rítmico progressivo que encena o drama incessante e crescente de tantas mortes: do verso 1 ao 9, temos 5-6-6-7-8-8-8-8-10 sílabas. Tal sequência insinua que, a cada eufemismo, o drama aumenta, até que, no arremate, com Ana C., o verso mais longo funciona como um desbocado grito, que a um tempo reúne e pulveriza os demais gritos: “mandou tudo a merda”. Após esse ápice, o verso retorna menor, com o “eu” dando um testemunho de si: “e eu aqui/ de quando em quando/ teimando”. O paralelismo anterior, na base do sujeito e (verbo)predicado, dá lugar a um obsessivo movimento anafórico do gerúndio “teimando”, só quebrado pela expressão “sendo tentada”. Note-se que “TeiManDo” recupera as três consoantes fortes de “ManDou TuDo a MerDa”.
Noutras palavras, o aparente aleatório da ordem dos versos é organizado por um princípio interno ao poema, o ritmo, que dita como e quando cada escritora entra em cena. Nesse sentido, se recorde de Antonio Candido, ao dizer, em O estudo analítico do poema: “Longe de destruir o encanto do poema, a análise dos seus fatores de composição pode ser um modo de sentir mais vivamente a sua realidade. O que se visa é tentar reconstruir o seu encanto, o que determina o seu segredo e a sua beleza, e de aprofundar por meio do conhecimento o prazer causado pela valia da obra”. Decerto, o encanto, a beleza e o prazer aqui no poema não derivam de seu teor trágico (que traz algo de misterioso e fascinante), mas do engenho que transita entre as palavras e seu invólucro visual na trama da página.
Ao progressivo aumento das sílabas no esquema rítmico (de 5 a 10) poderia corresponder algum padrão no esquema rímico, mas não é o que acontece: desistIu, rendEu, mAis, cOntas, missÃo, fAvas, pOntos, bArco, mErda – I-E-A-O-Ã-A-O-A-E. Curiosamente, o nono verso lança mão de todas as possibilidades básicas de rimas, reunindo e pulverizando as cinco vogais num decassílabo sáfico: “Ana Cristina mandou tudo a merda”, ou seja: A-I-O-U-E. A despeito da importância de cada uma das escritoras em pauta, a obra de Ana Cristina Cesar tem sido uma das que mais seduz, envolve, provoca, atordoa, apaixona — tanto as poetas quanto os críticos nas últimas décadas (veja-se o prefácio de Heloisa Teixeira em As 29 poetas hoje, 2021, em que ela fala do “efeito Ana C.”).
Há, decerto, em Poesia é não, inúmeras outras referências e apropriações, a começar pelos famosos pais, inscritos desde os sobrenomes; os concretistas, em todo o livro; Arnaldo Antunes e Ricardo Silvestrin, contemporâneos, que assinam a quarta capa, com comentários ao livro de estreia — Cupido: cuspido, escarrado, de 2004; e outras tantas, que o leitor curioso pode vir a descobrir. (Uma leitura rigorosa e contundente do livro, registre-se, foi feita por Marcos Pasche, no Rascunho nº. 136, de agosto de 2011.)
O poema em tela traz, entre tantos poemas com muito humor, versos que tentam equilibrar densidade do tema e leveza da forma. A morte, em especial na versão autodestrutiva do suicídio, pede seriedade, delicadeza, reflexão. O poema não faz nenhum juízo moral sobre a decisão das poetas. Nem poderia ou deveria. No artigo citado, Eliane Galvão com justeza e justiça diz que “o poema configura-se como um tributo a escritoras marginais e de vanguarda que, revolucionárias e engajadas politicamente, desafiaram padrões comportamentais e costumes de sua época, produzindo obras inesquecíveis que se perpetuaram pelo viés da subversão”. Estrela se solidariza com elas, em gesto de sororidade e de identidade, haja vista terem sido todas escritoras — algumas mundialmente famosas, como Virginia Woolf; outras, pouco lembradas, como a brasileira Anayde Beiriz (e assim o poema também funciona como um documento de memória e testemunho).
Se eros e tânatos são os temas universais por excelência, Estrela Ruiz Leminski consegue articulá-los a partir do recurso (tão antigo quanto os temas) da metalinguagem: sua admiração pela vida e obra das escritoras faz com que ela componha, teimosa, seu poema. Teimar é perigoso, mas vale a pena, digo, a teima.