Primeiro soneto, de Chico César

Soneto de Chico César transforma distância, desejo, erotismo e humor em matéria poética, num jogo entre ritmo, linguagem, prazer e gozo
Chico César, cantor e compositor brasileiro
01/09/2026

clama clama clama por mim ser visitada
aquela que à distância estou amando
sempre me pergunta quando quando
virei eu a bater em sua morada

sua voz tremente desejante delicada
a minha alma vem há muito dominando
é a voz pura de uma mulher clamando
e que no fundo no fundo se sabe desejada

ah… ela sabe que ao longe também clamo
para estar junto dela e mesmo dentro
pra servi-la de escravo e ser seu amo

se eu for e ela abrir a porta sei que entro
mas agora distante eu que a chamo
pois eu moro na praia e ela no centro

Desde 1995, quando lançou Aos vivos, Chico César se mantém ativo no topo da cena da MPB, com vários álbuns e muitos hits. Compositor e instrumentista, cantor performático, voz singular, com frequência aparece na mídia e nas redes sociais explicitando contundentes opiniões políticas contra fascistas, racistas e machistas. Letrista de canções, o autor de Mama África escreve também livros de versos e, mais, “versos pornográficos”, como se vê em Versos pornográficos, lançado em 2015 e indicado entre os finalistas do Jabuti na categoria Poesia (concorrendo com Ademir Assunção, Arnaldo Antunes, Marcos Siscar, Thiago de Mello, entre outros). O livro conta com apenas 24 poemas, e um provocativo prólogo dirigido à Cara leitora. No Prefácio, Márcio-André alerta, malicioso, para que a “Cara Leitora não se engane com o tamanho deste volume. Pequenos pacotes guardam enormes prazeres”. Entre as surpresas do opúsculo, consta este primeiro soneto, aqui em pauta.

À primeira vista, o poema se dá a ver na estrutura tradicional do formato que o título do poema indica, com os quartetos e tercetos. As rimas, todas consoantes, reforçam o ritmo: ada-ando-ando-ada/ ada-ando-ando-ada/ amo-entro-amo/ entro-amo-entro, configurando um esquema rímico clássico: ABBA/ ABBA/ CDC/ DCD. O metro parece o decassílabo, mas uma escansão desenha e, decerto, esclarece por que se trata de um primeiro soneto — abaixo o esquema rítmico, com a indicação em número das sílabas tônicas dos versos (e um traço para as átonas e subtônicas):

1 – 3 – 5 – – 8 9 – – 12
– 2 – – – 6 – 8 – 10
1 – – – 5 – 7 – 9
– 2 3 – – 6 – 8 – – 11

1 – 3 – 5 – – – 9 – – 12
– 2 3 – 5 6 7 – – – 11
1 – 3 4 – 6 – – 9 – 11
– – – 4 – – 7 – – 10 – – – 14

1 2 – 4 – – 7 – – 10 11
1 – 3 4 – 6 – 8 – 10
1 – 3 – – 6 – 8 9 10

1 2 3 – 5 – 7 – 9 10
1 – 3 – – 6 7 – 9
1 2 3 – – 6 7 – – 10

De modo proposital ou não, o que se visualiza no poema é uma dança rítmica sem padrão, com muitas variações: [a] embora predomine o decassílabo em 5 (dos 14) versos, alternando heroico, sáfico e nenhum dos dois, [b] há também versos com 9, 11, 12 e 14 sílabas; [c] há versos com 4 sílabas tônicas e outros com até 7 sílabas fortes; [d] há sequências de sílabas fracas e há outras tantas sequências com sílabas fortes. Toda essa “combinação” produz um movimento aleatório que, de modo proposital ou não, vai ao encontro do teor pornoerótico do poema que, em síntese, trata do desejo intenso de dois amantes, que se querem, se amam, se clamam, contudo, estão distantes um do outro. É como se a volatilidade rítmica fosse compensada não só pelas rimas consoantes, mas, sobretudo, porque esse próprio movimento descompassado encena a impossibilidade do encontro físico, haja vista a distância — praia, centro — que separa os corpos e impede as visitas prometidas. Desde já, se diga, contudo, que a tópica amorosa foi alcançada: os amantes se encontram, de fato, é no próprio soneto (lugar em que a ideia se faz forma e, por extensão, o desejo, orgasmo).

Ademais, a própria imagem de primeiro soneto permite entender que o poeta-amante se inicia nas artes verbais e eróticas. Assim, se o soneto pode ser o lugar da realização do desejo, ele deve incorporar esse desejo, e o solitário bardo intui tal condição e busca elementos para fingir, na língua, o que o corpo quer. Por isso, insiste em tantas repetições, como (além das 14 rimas externas!) “clama clama clama”, “quando quando”, “no fundo no fundo”, afora outras estruturas similares como “tremente desejante”, “ser seu/ se/ sei” — repetições que, dado o contexto, trazem com nitidez movimentos que performam o gesto onanista. Tal gesto masturbatório se deslumbra também na fala em si do poema se se reúnem imagens afins, feito “à distância estou amando”, “virei eu”, “a bater”, “se eu for” e outras mais sutis.

A tradição do soneto vem de longa data. Na poesia brasileira das últimas décadas, o soneto tem abrigado múltiplas manifestações, e aqui vão alguns poucos nomes de relevo (desnecessário enfatizar as imensas diferenças entre todos): Paulo Henriques Britto e Antonio Carlos Secchin, Glauco Mattoso e Felipe Fortuna, Nelson Ascher e Antonio Cicero, Miguel Marvilla e Leila Míccolis. O paraibano Chico César não quer, em absoluto, emular essa tradição. Afinal, é seu primeiro soneto, parte de um livro chamado Versos pornográficos, cujo título diz tudo: a palavra a serviço de algum espanto, algum escândalo, alguma polêmica, pois à pornografia vinculam, de imediato, cenas de sexo, termos nada pudibundos, a suspensão da vergonha. Daí, ao longo da leitura do livro de Chico, se leem expressões tipo:

entre as pernas gozo (poema 1)
titilando as tetas de biquinhos duros como setas (2)
pau em riste invado a gruta (3)
se faz molhada a cona (4)
os dedos na vagina (6)
em fado e foda (7)
se arreganha em fomes de leite e saliva (9)
sangrar a língua de tanto singrar (10)
não pega meu pau duro (17)
mamilos duros sob a camiseta colada (22)

O poeta bem sabe que no mundo da MPB, indústria cultural que movimenta milhões em dinheiro e em pessoas, tais expressões teriam censura imediata. Para o primeiro soneto, o catoleense (“Catolé do Rocha/ Praça de guerra/ Catolé do Rocha/ Onde o homem bode berra”) reservou vocábulos mais contidos e elaborou um enredo mais suave, lembrando definição de erotismo de Roland Barthes em O prazer do texto: “O lugar mais erótico de um corpo não é lá onde o vestuário se entreabre?”. Sugerir; não explicitar.

Na estrofe inicial, o enamorado (para manter o tom barthesiano) vive a expectativa de “bater em sua morada”, e morada aqui é casa e corpo. A quadra seguinte mistura “alma” e “voz pura” a desejos que vêm e vão “no fundo”, ecos de um platônico romantismo. O conflito se agudiza no terceto quando o desejo oscila entre “estar junto” e “mesmo dentro”, ser escravo e ser amo. O desfecho sustenta a toada do desejo com azevediano e prosaico humor: se a “desejada” abrir a porta (daquela “morada” lá da primeira estrofe), o poetamante entra, mas o princípio de prazer é atropelado pelo princípio de realidade e se revela o tragicômico obstáculo: “eu moro na praia e ela no centro”.

De fato, a mulher desejada é o “centro” em torno do qual orbita o apaixonado que, com “moro na praia”, indicia pertencer a uma classe de posses, mas, por outro lado, insinua e ecoa, reforçando o humor, “eu mor(r)o na praia”. Admitida esta hipótese, desdobra-se a leitura: o poeta “morre na praia” porque não atingiu o objetivo (de entrar na morada amada), porém, metalinguisticamente, ele atinge, sim, se por “morrer” se aciona o sentido de “gozar” e, mais, se se entende que o gozo do poeta é o soneto. O poema 8. fruta 2 finaliza exatamente assim: “(vem amor vem/ que eu agora morro)”. Ou seja, a acepção de gozo como la petite mort está, sim, no horizonte do sonetista.

Distinta e subterrânea é a tradição da poesia fescenina, à qual Versos pornográficos vem se filiar. Recordem-se alguns poucos nomes de relevo (cada qual com sua verve), como Glauco Mattoso e Paulo Franchetti, Cairo Trindade e Eduardo Kac, Hilda Hilst e Waldo Motta, os capixabas de Cantáridas, os engraçadíssimos Diego Moreira & Zé Amorim do Movimento Pornaso, o “velho bandalho” Drummond de O amor natural e o clássico Poema da buceta cabeluda, do também paraibano Bráulio Tavares (estado, aliás, da poeta Anaíde Beiriz, cujo nome Chico não perde a chance de trocadilhar: “os anais de anaïs nin/ e anaíde beiriz/ tê-los em ti quero e quis”).

Muito provavelmente, se o autor dos 24 poemas de Versos pornográficos fosse outro que não Chico César, imensamente conhecido pela excelência de suas canções, o livro não seria indicado entre os melhores daquela edição do Jabuti. Chico não tem nada com isso, muito menos disso precisa. (Ele, aliás, tem outros livros de poesia e para crianças.) Para intrigas desse tipo, pode cantar: “Deus me proteja de mim/ E da maldade de gente boa/ Da bondade da pessoa ruim/ Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim”. Sua obra tem recebido relevantes estudos acadêmicos, enquanto, pari passu, aumenta seu prestígio no gosto popular. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Paraíba, foi secretário de Cultura de seu estado, o mesmo de Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos e Geraldo Vandré (do qual, aliás, regravou Pra não dizer que não falei das flores). Numa entrevista, Chico falou sobre um livro de preferência: “Difícil escolher um. Caramba. Mas vamos lá: Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. (…) lia uns versos e me impressionava com as gravuras, aquilo das figuras esquálidas carregando uma rede, aquelas carcaças de boi e os urubus sobrevoando, uma mulher de lenço na cabeça numa janela. (…) Os versos duros: ‘a quem estais carregando, irmãos das almas?’”. Curiosamente, o cantor cita Cabral — que diz não gostar de música.

Não há registro de algum soneto depois desse primeiro soneto. No livro, uma vez mais surpreendendo, há um haicai assim: “sem sono um soneto/ num minuto um minueto/ amar: espanto e espeto”. Embora polissêmicas, podemos pensar essas duas palavras sonoramente análogas (trissílabas, paroxítonas e aliterativas), para o sonetista fescenino: sua trajetória nos tem espantado, e descobri-lo autor de poemas pornográficos é uma dessas espantosas surpresas; sua obra espetacular nos tem espetado, a cada vez, como nesse soneto, que nos cutuca, nos alfineta e nos faz perceber, como cravou o esperto prefaciador, que “pequenos pacotes guardam enormes prazeres”.

Wilberth Salgueiro

Poeta, crítico literário, pesquisador do CNPq e professor de literatura brasileira na UFES. Autor de A primazia do poema, Lira à brasileira: erótica, poética e política, O jogo, Micha & outros sonetos, entre outros.

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