Dois mestres da metáfora

Nilson e Ricardo Gil Soeiro são dois poetas contemporâneos que fazem da metáfora a força maior de suas linguagens singulares
Nilson, autor de “Pequeno caderno maranhense”
01/08/2026

O poeta reside, mesmo, é nas metáforas, que operam, antes de tudo, correspondências entre imagens. Não há no poema recurso mais significativo, que faz repousar no leitor, pacífica, decisiva, a beleza quase completa do texto poético. Mesmo um poeta sendo convencional no ritmo e com certo rebuscamento de linguagem, ele se salva se sabe inventar metáforas — as singulares, nunca vistas, sequer sentidas ou desconfiadas que poderiam existir nas cadeias da linguagem. A metáfora inventiva projeta todo e qualquer poeta para um tempo que só pode ser o do futuro da linguagem. Pequeno caderno maranhense (Cepe, 2022), de Nilson (o autor assina assim mesmo), e Lições de miragem, de Ricardo Gil Soeiro (Assírio & Alvim, 2024), são obras que mantêm do começo ao fim um equilíbrio na fatura dos poemas, sem quedas comprometedoras: Pequeno caderno maranhense traz poemas narrativos, com fragmentação acentuada; poemas que lembram, em certos momentos, a escrita automática surrealista. Mas por trás dessa dicção por vezes derramada sobressai uma voz lírica forte, crítica, de resistência, que configura a condição afro-indígena no Maranhão — e tudo emoldurado com procedimentos metafóricos bastante inventivos, com imagens que impactam o leitor pela força da novidade. São temas fortes da obra: exploração e marginalização do negro; religiosidade e sincretismo na cultura maranhense; reações/perseguições da igreja à expressão religiosa do povo preto etc. Recursos a destacar: intertexto com o discurso historiográfico; uso aleatório de vírgula/pontuação (o que sugere a escrita automática já mencionada); imagens urbanas da contemporaneidade: cultura pop, outdoors. Memória, invenção, fragmentos — é o tecido mesmo desse livro original. Lições de miragem, por sua vez, lança um olhar sobre questões como o tempo, o espaço, a vida e a morte. A inexorabilidade do tempo ganha certo destaque; o tempo na música também é abordado etc. Poesia consistente, de linguagem densa e distanciada, em grande medida, de clichês. Poesia prosaica, de certo modo. Há poemas no livro elaborados com uma dicção mais tradicional. Deixo aqui, portanto, a dica de dois bons poetas contemporâneos.

Rinaldo de Fernandes

É escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba. Autor de O perfume de Roberta, entre outros.

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