🔓 Júlia (final)

09/03/2012

Podemos afirmar, sem erro, que a publicação de A intrusa, em 1908, encerra a fase mais rica e criativa da obra ficcional da escritora carioca Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). Embora de sua bibliografia constem ainda cinco novos romances e uma coletânea de novelas, apenas um deles, A Silveirinha (crônica de um verão), alcançará um nível de elaboração estética similar aos lançados ao longo da década de 1900. Aliás, este livro marca também, de certa maneira, o fim da carreira da escritora, que praticamente passa a dedicar-se à militância pela causa feminina (como por exemplo com sua participação no I Congresso Feminino do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1922, ou sua conferência no Consejo Nacional de las Mujeres de Argentina, em Buenos Aires, no mesmo ano), à vida social na Casa Verde[1] e a longas viagens à Europa com o marido e filhos.

Essa sua, digamos, segunda fase, se inicia com o lançamento de Cruel amor[2], em 1911, aparecido três anos antes em forma de folhetim no Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro[3], segundo indicação da pesquisadora Rosane Saint-Denis Salomoni[4]. A gestação deste romance, no entanto, é ainda anterior. Em 1904 (ou 1905), quando concede entrevista a João do Rio para o jornal Gazeta de Notícias, a autora afirma que está escrevendo, naquele momento, “um livro muito difícil (…) sobre a vida das praias, dos pescadores”[5]. Cruel amor, que enfoca a vida dos pescadores da praia de Copacabana, conheceu duas outras edições, em 1928 e 1967.

Acompanhando a tendência da autora de ante-submeter seus escritos ao crivo do público por meio da publicação em folhetins, aparece nas páginas do jornal O País, do Rio de Janeiro, entre 7 de setembro de 1909 e 17 de outubro de 1910[6], o romance Correio da roça, lançado em 1913[7], e que talvez tenha sido, de seus livros, o que maior sucesso alcançou junto aos leitores. Em 1987, numa co-edição entre o Instituto Nacional do Livro, do Brasil, e a Editorial Presença, de Portugal, com introdução de Sylvia Paixão, sai a sétima edição deste “falso romance epistolar”, segundo comenta ironicamente o crítico Wilson Martins, que, “dissimulando um texto de propaganda da agricultura”, preconiza “a volta à terra e celebra os milagres proporcionados pelas atividades agrícolas”[8].

Embora cáusticas, as palavras de Martins ecoam o entendimento que a própria autora tinha do livro. Na introdução de Jardim florido, publicado em 1922, Júlia afirma: “Com esta obra completa a autora o tríptico que se propôs a si mesma escrever: sobre a vida e a cultura dos campos, no livro Correio da roça; sobre a cultura de pomares e sobre arborização, no livro A árvore, escrito de colaboração com Afonso Lopes de Almeida, e sobre a cultura de flores, neste de jardinagem”[9]. Ou seja, a escritora encerra seu romance na mesma prateleira didático-pragmática de outros dois trabalhos, um, sobre pomares, outro, sobre jardins…

Ócio e hipocrisia
É de 1914 o lançamento em livro de A Silveirinha (crônica de um verão)[10], publicado em folhetins em abril e maio de 1913 nas páginas do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro[11]. O romance retrata um verão no clima ameno de Petrópolis, cidade para onde se desloca a alta sociedade carioca em fuga do calor insuportável dos meses de janeiro e fevereiro. Lá, entre festas e jantares, desfilam o ócio, a hipocrisia e a futilidade de personagens interessadas apenas em manter as aparências e a realizar negócios escusos. Descrição a que não se furta nem mesmo o jovem padre francês Pierre, sedutor e vaidoso, retrato que provocou escândalo à época e suscitou severas críticas à escritora por autoridades da Igreja Católica.

É também em 1914, como mostra da popularidade de Júlia Lopes de Almeida junto aos leitores e do respeito de seu nome junto à crítica, que a autora é homenageada em Paris, no dia 14 de fevereiro, num jantar oferecido por amigos franceses e brasileiros, tendo à frente a poeta Jeanne Catulle-Mendès[12], mulher do também poeta francês Catulle-Mendès, no luxuoso MacMahon Palace Hotel, localizado próximo ao Champs Elysées, ao qual compareceram mais de quatrocentas pessoas[13]. No ano seguinte, a escritora também recebe homenagem da intelectualidade brasileira, tendo à frente os poetas Olavo Bilac (1865-1918), Alberto de Oliveira (1857-1937), Augusto de Lima (1859-1934) e Osório Duque-Estrada (1870-1927), no salão do Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro.

Depois de A Silveirinha, Júlia Lopes de Almeida praticamente abandona a prosa de ficção. De inédito, surge apenas, em 1922, A isca[14], reunião de quatro novelas (A isca, O homem que olha para dentro, O laço azul e O dedo do velho). Dez anos depois, é lançado o romance A casa verde[15], escrito a quatro mãos com o marido Filinto de Almeida (1857-1945), originalmente publicado em folhetins entre 18 de dezembro de 1898 e 16 de março de 1899 nas páginas do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, sob o pseudônimo comum de A. Julinto[16].

Viagens pela Europa
Data de 1925 a mudança do casal para a Europa. Decididos a acompanhar a filha mais velha, Margarida, que ganhara uma bolsa da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro para estudar em Paris, Júlia e Filinto vendem a Casa Verde e instalam-se na capital francesa, de onde partem, em incansáveis viagens, para conhecer outros países, como Itália, Alemanha, Noruega, Espanha, Bélgica[17]. Nesse período, Júlia trabalha na redação de seu derradeiro romance, Pássaro tonto, ambientado em Paris, e que apenas será publicado postumamente[18]. De volta ao Brasil em 1931, Júlia vai se dedicar a rever a edição de Ânsia eterna, livro originalmente publicado em 1903[19], suprimindo alguns contos e acrescentando outros, e que também só aparecerá postumamente[20].

Com sua morte, em 1934, provocada pelas complicações de uma malária — oito dias após a volta de uma viagem de três meses a Moçambique, onde fora resgatar a filha, Lúcia, adoentada, as netas e o genro —, o nome de Júlia Lopes de Almeida foi varrido para debaixo do tapete da história literária brasileira. O longo período transcorrido fora do país (praticamente toda década de 1920), a ausência da publicação de novos títulos (o último livro de importância, A Silveirinha, saíra vinte anos antes) e a idéia de tratar-se de uma autora “pré-modernista” (“conceito” vazio e destituído de qualquer significado mas seguido pela crítica) podem, sem dúvida, ter contribuído para que a obra de Júlia desaparecesse do horizonte da história literária brasileira da época.

Podemos, ainda, imputar parte dessa responsabilidade aos modernistas da primeira hora. Desejosos de romper radicalmente com o passadismo beletrista rançoso e reacionário, os “moços de São Paulo” difundiram a idéia de que tudo que fora produzido imediatamente antes de 1922 deveria ser categorizado como de duvidosa qualidade estética. Com isso, enterraram na vala comum autores medíocres e autores importantes — uns rapidamente recuperados, como Lima Barreto (1881-1922), outros, tardiamente, como João do Rio (1881-1921), e, outros ainda, como Júlia Lopes de Almeida, ainda na fila da remissão…

(Quero registrar meu apreço à professora Zahidé Lupinacci Muzart, que desde o princípio deu-me incondicional apoio para essa série de artigos, não só me franqueando a obra de Júlia Lopes de Almeida que, como editora, vem buscando resgatar, mas também me colocando em contato com pesquisadores, como Rosane Saint-Denis Salomoni, que me forneceu indicações bibliográficas e cópias de raros documentos. A ambas, minha pública gratidão).


[1]Casarão do casal Júlia Lopes de Almeida e Filinto de Almeida situado no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, espaço freqüentado por artistas, intelectuais e jornalistas durante 21 anos, entre 1904 e 1925.

[2] Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1911.

[3] Esta informação não consta do exaustivo levantamento de TINHORÃO. José Ramos. Os romances em folhetins no Brasil (1830 à atualidade). São Paulo: Duas Cidades, 1994.

[4] In: Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). Resenha da pesquisa realizada no acervo da romancista no Rio de Janeiro – I Parte. Porto Alegre (?): s/d, 2007, p. 28.

[5] RIO, João do. O momento literário. 2ª edição. Organização Rosa Gens. Rio de Janeiro: Edições do Departamento Nacional do Livro/Fundação Biblioteca Nacional, 1994, p. 35.

[6] Op. Cit., p. 28. Essa informação tampouco consta de TINHORÃO, op. Cit.

[7] Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1913.

[8] In: História da Inteligência Brasileira. 2ª edição. São Paulo: T.A. Queiroz Editor, 1996. Volume V (1897-1914), p. 531.

[9] Citado em PENJON, Jacqueline. Le Correio da Roça, roman épistolaire oublié. SIGNÓTICA, v. 15, n. 1, p. 19-33, jan./jun. 2003 (revista do programa de pós-graduação da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás). O artigo merece ser lido, porque a autora relativiza um pouco o caráter meramente didático e até mesmo “ingênuo” que o romance parece ter.

[10] Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1914.

[11] PAIXÃO, Sylvia. In: A Silveirinha (crônica de um verão). 2ª edição. Florianópolis: Editora Mulheres, 1997, p. 11. Em TINHORÃO, a data está incorreta. V. Op. Cit. p. 85.

[12] Curiosamente, parece ter sido Jeanne Catulle-Mendès a criadora do epíteto “cidade maravilhosa” para qualificar o Rio de Janeiro.

[13] V. ALMEIDA, Margarida Lopes de. Biografia de Dona Júlia. Texto gentilmente a mim cedido pela pesquisadora Rosane Saint-Denis Salomoni.

[14] Rio de Janeiro: Leite Ribeiro, 1922.

[15] São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932.

[16] TINHORÃO, à página 80, confirma essa informação, mas confere a autoria apenas a Júlia Lopes de Almeida. Estranhamente, à página 88, assume que em 1932 o romance teria sido novamente publicado (???), e já agora concede crédito tanto a Júlia quanto a Filinto de Almeida…

[17] V. SALOMONI, op. Cit.

[18] São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1934.

[19] Rio de Janeiro: H. Garnier, 1903.

[20] Rio de Janeiro: A Noite, 1938 (“nova edição, refundida pela autora”).

Rascunho