🔓 Suar os desafetos

Na tentativa de conter o avanço da loucura, levantar peso na academia com a força do ódio é uma espécie de terapia
Ilustração: Denise Gonçalves
04/08/2022

Em uma tentativa de conter o avanço da decrepitude, comecei a fazer academia. Vou. Vou reclamando, mas vou, o que já é um grande avanço em relação à minha última tentativa de fazer exercício físico.

Estou entrando na fase da velhice que uma dorzinha nas costas te derruba. Foi-se o tempo em que eu sentava no computador feito um trem descarrilado e conseguia andar no dia seguinte. Agora é postura, altura de monitor, ângulo da cadeira, óculos de perto, óculos de longe, apoio de pé, apoio de costas, apoio de bunda, apoio de ego. Peço ajuda ao meu acupunturista, ao meu pai de santo, ao meu namorado. Nenhuma das três possibilidades funciona e resolvo tomar um banho, vergonha na cara e, finalmente, drogas: um relaxante muscular. Sobra sono e falta paciência.

Lembro, com alguma dificuldade, confesso, da época em que achei que ia ser bióloga. Cheguei em casa de um grupo de pesquisa em um estado de cansaço tão absurdo que o último átomo de energia foi gasto em abrir a porta. Dormi de calça jeans e sapatos no chão, na entrada da casa, estatelada no piso, igualzinha a um ovo frito.

Penso em quantas vezes fui além do meu limite. Em quantas vezes trabalhei mais do que precisava. Ou que aceitei mais do que devia, que fui compreensiva demais, que fui paciente em excesso. Insira aqui todas as acepções possíveis. Não falo apenas de trabalho.

Tentamos ir a uma casa de jazz. Fila dobrando a esquina. I’m too old for this shit. Voltamos para casa. Tudo bem, nem sempre dá match. Fica para a próxima.

Na academia, pertenço ao grupo dos exaustos resignados. Os outros grupos são: os fitness (uma gente insuportavelmente em forma), os ridículos (um povo sem noção que acha que o momento ideal para paquerar é quando você está com uma roupa feia, suando e fazendo movimentos repetitivos) e, claro, os técnicos de futebol (palpiteiros de plantão que se julgam no direito de te explicar aquilo que você não perguntou). Odeio todos igualmente.

Chego à academia e um professor uniformizado me recebe na entrada com uma voz animadíssima. De onde essas pessoas tiram energia? Como se alimentam? Onde reproduzem? Como vivem? Veja agora no Discov…

Não, pera. O homem está obviamente aguardando uma resposta minha. Ó céus. Penso mas não respondo “tire o seu sorriso do caminho”. Minto, digo que só vou fazer esteira e desvio. Funciona. Ele não ganha o suficiente para se importar. Eu não me importo o suficiente com a academia para me esforçar tanto assim. Nos entendemos.

Descubro uma lojinha de produtos naturebas sem glúten, sem lactose, sem açúcar, do lado da academia. Boa localização. Entro, compro umas coisinhas para experimentar, ver se namorado gosta, mimos. É o ciclo vicioso perfeito: academia – bolo de chocolate – academia – pãozinho quentinho – academia – … No fundo, somos todos hamsters com ansiedade.

Por falar em exaustos resignados, essa crônica sai publicada na quinta-feira, quando já terei passado, em três dias, por onze reuniões presenciais. Então, vocês já sabem: se semana que vem não tiver texto, por favor mandem um café decente para o hospício. Grata.

Em uma tentativa de conter o avanço da loucura, comecei a fazer academia. Vou. Vou reclamando, mas vou.

Vou dar nomes de ex para os calos.

Vou tirar pelos poros os aborrecimentos, os excessos, os abusos, as questões mal resolvidas, as questões não-resolvidas, as questões a resolver.

Vou caminhar naquele raio de esteira até desmaiar.

A única possibilidade de levantar peso é com a força do ódio.

Carolina Vigna

Doutora em Educação, Arte e História da Cultura, é escritora, ilustradora e professora. Crítica de arte associada à ABCA. Atualmente em pós-doutoramento em Letras pela PUCRS. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho