Pulmão-de-aço

Para este ano, já estava versada em outonos, deixei que as folhas morressem no seu tempo e reli A vida privada das árvores, de Alejandro Zambra
Alejandro Zambra, autor de “A vida privada das árvores”
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04/05/2021

Quando pesquisei motivos para as folhas do meu pulmão-de-aço estarem morrendo, me apareceram listas de doenças, faltas nutricionais e erros de água e luz. Nenhum site, absolutamente nenhum, mencionou que podia ser apenas a chegada do outono.

O pulmão-de-aço está comigo desde o início da pandemia e, apesar do seu nome auspicioso para esses tempos de falta de ar, eu o escolhi pelas folhas grandes de tom verde escuro. Tive que aprender o outono sozinha. Ano passado, lamentei as folhas perdidas, me declarei inapta para as plantas, supus que ela inteira fosse morrer. Testemunhei, poucos meses depois, o brotamento não apenas de novas folhas, mas de novas folhas maiores, de caules mais altos, de cores mais vivas. Foi um espanto perceber que, após 35 anos sobre a Terra, fui pega de surpresa pelo ciclo das estações.

Temos o desejo de consertar tudo. Consertar as folhas. Consertar a natureza. Consertar a morte.

Para este ano, já estava versada em outonos. Deixei que as folhas morressem no seu tempo. Reli A vida privada das árvores, na suposição de que a literatura alimenta mais do que o adubo. Alejandro Zambra cria uma personagem que, entre outros fracassos, tenta resguardar o que ainda não aconteceu e — nós que lemos supomos — nunca vai acontecer. “Quer entrever um futuro que prescinda do presente; acomoda os fatos com vontade, com amor, de maneira que o futuro permaneça a salvo do presente.”

O desejo de consertar as coisas é o desejo de salvar o futuro que tínhamos imaginado, um futuro onde o pulmão-de-aço tem todas as folhas, onde não convivemos com as evidências dos nossos erros, onde quem amamos não morreu.

Deixei que as folhas, depois de murchas, ficassem bem secas antes de cortá-las. Não sei como esse processo aconteceria na floresta. Animais passariam esfarelando os restos e espalhando-os pelo chão? A chuva desintegraria a matéria orgânica? A internet novamente não soube me ajudar. Cortei as folhas e coloquei-as dentro de um grande pote onde vou juntando terra para os próximos vasos. Cavei um pequeno buraco, coloquei as folhas, tapei.

Cuido com amor da morte das minhas plantas porque não pude cuidar com amor da morte que chegou perto das pessoas que amo.

Ainda n’A vida privada das árvores, Zambra escreve: “Seria preferível fechar o livro, fechar os livros, e enfrentar, sem mais, não a vida, que é muito grande, mas a frágil armadura do presente”. Porém, quem tem armadura frágil somos nós. Olho para o pulmão-de-aço e sei que ele tem potencial para viver mais do que eu. Penso na minha arrogância em querer cuidá-lo. Aqui a internet esclarece: O pulmão-de-aço, nome científico Alocasia amazônica, tem o ciclo de vida definido como perene. Uma planta que pode viver para sempre no país onde as pessoas acabam de perder dois anos de expectativa de vida.

Sei também que eu poderia matar o pulmão-de-aço. Reconheço que é o único verdadeiro poder que eu tenho sobre essa planta potencialmente eterna. Posso intuir que existe aí uma lição, a de que o único poder que vale a pena exercer é a escolha de não causar a morte quando poderíamos fazê-lo. Mas não ando com cabeça para lições. Apenas olho para o pulmão-de-aço e deixo que ele siga seu ciclo alheio a mim. Depois que cortei as folhas mortas, uma nova começou a brotar fora do tempo, em pleno outono, em meio às primeiras ondas de frio. Está crescendo. Penso que essa lição eu posso abraçar no momento, a teimosia de apostar na vida mesmo fora de época.

Julia Dantas

Nasceu em Porto Alegre (RS). É editora, tradutora e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS. É autora de Ruína y leveza (Não Editora, 2015) e organizadora de Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade (Dublinense, 2020).

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