Prefácio, posfácio e eufácio

A maldição egocêntrica de quem fala mais de si mesmo do que do livro a ser apresentado
Ilustração: Thiago Lucas
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12/10/2021

Às vezes, a existência própria de algo me deixa em dúvida sobre sua definição. Não é a definição, claro, que realmente define as coisas. A esta altura, é claro que sei que as definições estão sempre sendo desafiadas e que tudo muda, o tempo todo, à maneira do que sempre disse Lulu Santos. Mas, por via das dúvidas, fui procurar, sem muita diligência, a definição de prefácio num dicionário. O Caldas Aulete, por exemplo, não se gasta muito. Em poucas linhas, diz apenas que é um texto introdutório ou a apresentação presente num livro, em seu início. Sabemos, pois, que o que vem depois, no fim do livro, leva o simpático e autoexplicativo nome de posfácio. Uma verdadeira aula de prefixos e morfologia da língua nacional.

Só que o manejo disso, real, é diferente. Nem todo prefácio que leio me parece apresentar ou introduzir uma obra. No universo da literatura, em especial a contemporânea, recém-parida, acontece muito de o prefácio não dizer nada, isto é, ser uma amostra da famosa embromation, o que me deixa desconfiadíssima de que quem prefaciou só cumpriu a tabela, encheu a linguiça, sabe-se lá por quê. Fico pensando nas amizades, na política e na boa vizinhança, nos preenchimentos necessários aos projetos gráficos e em outros elementos que poderiam levar a isso. Trata-se da desagradável leitura de uma linguagem mascada, às vezes mascarada, escamoteando a falta de coragem de dizer não ao convite para prefaciar.

Leio prefácios. Também leio posfácios e outros paratextos que estejam a ladear os textos ditos principais. Gosto de lê-los e às vezes acho que eles são mesmo úteis à minha leitura ou importantes para que eu conheça um pouco mais a obra e o(a) autor(a) (não o do prefácio, diga-se). Lembro de ler prefácios interessantíssimos a livros de Guimarães Rosa, meu preferido entre todos(as). A cada edição, somava-se alguém a dizer algo interessante, a contar inclusive uma história sobre o livro, o autor, o processo de edição e de formação daquele grande escritor, algo que se dá também em decorrência da trajetória do próprio livro. Um circuito interessantíssimo, que ia crescendo à medida que o livro ganhava novas vidas, em camadas de paratextos, num processo avesso ao de alguns bichos que vão deixando a pele para trás. Nos livros, as camadas de pele vão se somando e dando a ele cada vez maior relevância, isto é, quando os prefácios, os posfácios e as apresentações são interessantes documentos de uma história editorial ou literária.

Muitas vezes deixo o prefácio ou o posfácio para depois da leitura. Quero apenas confirmar algo ou comparar minha leitura às outras. Várias vezes já começo pelos paratextos. Não raro, me irrito um pouco com o excesso de tentativas de legitimação de um livro ou de seu(sua) autor(a). Quando é demais… fico desconfiada dessas relações, dos reais motivos de tanto esforço, do exagero, da insegurança. E sei, cá comigo, que nem sempre é isso que vai fazer que um livro ganhe tração, menos ainda junto a leitores e leitoras. Mas… pode também ser que sim, em especial no universo fechado da própria literatura.

Revendo aqui o Caldas Aulete, fico pensando na tarefa dos(as) prefaciadores(as). Para prefaciar, é importante realmente ler a obra, mergulhar nela, saber do(a) autor(a), escrever sobre o livro que ali está. É um tanto generoso demais para muita gente, que vê no prefácio uma oportunidade de dar visibilidade a si, mais que ao(à) poeta ou romancista, o que seja. Quando comentei sobre isso numa postagem de Facebook, algumas pessoas foram solidárias à minha dor de leitora de prefácios. Houve relatos de prefácios bacanas, realmente dignos, mas também relatos de prefácios-spoiler, que entregam o livro de mão beijada demais, uma espécie de intrusão prévia na leitura que ainda nem aconteceu. Também li pessoas dizerem que não leem prefácios; outras dizerem que seguem a ordem do livro, obedientemente; outras, feito eu, dizerem que leem quando e como der na telha. Vi gente dizendo que não gosta de paratextos, que os livros devem vir nus ao mundo.

Bom, eu gosto e acho que os paratextos podem ser legais. No entanto, o que realmente me incomoda é algo que tem mais a ver com as pessoas e seus egos que mal cabem no mundo do que com livros e produção editorial. É que li alguns prefácios que ficaram para a minha história de leitora e de escritora. Num deles, cheguei a comentar com a editora: é isso mesmo? O prefaciador falava de si o tempo todo, citava os próprios livros, prêmios, istos e aquilos, e o que menos fazia era tratar do livro da autora que prefaciava (ou deveria prefaciar). Fiquei tão incomodada que fui verificar junto à casa se ficaria daquele jeito mesmo. Sim, foi a resposta. Ele é amigo da família há não sei quantas décadas, jornalista aqui e acolá, amigo do pai dela… Fazer o quê? Achei mais acintoso do que elogioso. E nem cheguei a abordar o fato de ser um homem prefaciando uma escritora… o que dá mais pano para manga hoje.

Já ouvi comentários interessantes sobre escritoras muito feministas, de mãos em punho, mas que só chamam homens para seus paratextos. E agora, José? Prestígio, prestígios. Não estamos falando de um gênero textual neutro e nem de dicionários; estamos falando do relações humanas, de prestígios, de legitimidades e legitimações, além de serem ciclos difíceis de subverter, por mais que a discussão esteja adiantada.

Gosto de prefácios que trazem um ar à obra que me faz querer, ainda mais, lê-la. Aqueles prefácios muito acadêmicos, com jeito de análise literária, me dão certa impressão de deslocamento. Pode ser que sim, que seja isto: uma primeira crítica analítica da obra, quase sempre sem apontar nenhum problema ou defeito, claro. Em alguns casos, um paratexto assim pode afastar leitores menos especializados… mas afinal estamos publicando para quem, não é mesmo?

Aqui e ali, escrevi prefácios. Ninguém ensina isso. Nunca fiz curso de prefácio, não aprendi nas cadeiras da faculdade e nem vi tutorial no YouTube. O prefácio é algo meio sem bordas, meio amorfo, que a gente aprende lendo, por osmose mesmo, com exemplos, contraexemplos e, principalmente, antiexemplos. A maioria de nossos professores e professoras não considera que um dia sejamos prefaciadores(as). Talvez nem faça sentido falar de prefácios no ensino médio. O fato é que, um dia, por razões mais ou menos conhecidas, ao menos naquele microcircuito, alguém encomenda um prefácio (ou pós). E a gente se toca de que o negócio exigirá dar atenção à obra, geralmente ainda não lançada, conferindo a ela uma camadinha a mais de interesse, legitimidade, lenda. Fazer isso exige um olhar para fora. É uma grande responsabilidade, pode ser algum reconhecimento também, mas é ainda mais a formação de uma rede.

De todos os textos que andei lendo por aí, os que mais me incomodam são, realmente, os que eu chamaria de eufácio: põem foco no prefaciador, mais do que no prefaciado e em seu livro, que ali está assim meio sem jeito, quase pedindo licença para existir. Escrevi no masculino, mas isso pode ser feito por qualquer um(a), me deixando meio chocada de qualquer maneira.

Tal como indiquei lá no início deste texto, as coisas desafiam as definições. Sugiro ao dicionário a inclusão da definição de eufácio, já que ele existe, circula pelo mundo e não pode mais ser ignorado. Algo assim: texto publicado na parte inicial de um livro em que o eufaciador ou a eufaciadora diz mais de si e de sua própria vida ou obra do que sobre a obra a seu eufaciada. Talvez rumemos ao momento em que não seja mais necessário convidar prefaciadores(as), e nós mesmos(as) possamos escrever elogiosamente sobre nossos próprios livros. Não me surpreenderia, nestes tempos de redes sociais e narcisismo desbragado.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. É colunista fixa do Digestivo Cultural desde 2003 e da revista Pessoa desde 2017. Publicou dois livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (2012) e Meus segredos com Capitu (2013). É professora do Cefet-MG, doutora em Estudos Linguísticos pela UFMG.

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