Poema

Um poema foi a única peça literária que perpetrei ao longo de todos esses meses de quarentena e solidão
Ilustração: FP Rodrigues
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(23/10/20)

No dia 15 de março, deixei a casa dos meus amigos Denyse Emerick e Gilmar Santana, após, como se diz nos romances, um lauto jantar, e me tranquei no meu apartamento. Foi a última vez que tive contato pessoal com outros seres humanos – desde então, me mantenho em total isolamento. Faço compras de dois em dois meses e tento continuar com a rotina que me havia imposto antes da pandemia: acordo às cinco da manhã, arrumo a cama, faço o desjejum (pão-de-fôrma com manteiga e café com leite em pó), trabalho até às dez e meia, espano os móveis e varro o chão, cozinho, almoço, limpo o fogão, lavo as vasilhas, descanso, volto às duas ao computador e labuto até às seis. Então, desligo do mundo e leio até o sono chegar… Devo ser um dos poucos escritores na face da Terra que não escrevi diário da quarentena nem mesmo esbocei contos ou romances com temas ligados à paralisia global. A minha vida normalmente já era despida de interesse, quando viajava para todo canto a convite, para participar de festas, feiras e festivais literários, imagine agora, leitor, quando minha diversão se reduz a conversar com meus gatos… Bom, tudo isso para dizer que a única peça literária que perpetrei ao longo de todos esses meses de solidão – afora o romance que venho escrevendo desde novembro e agora encontra-se pela metade – foi um poema, intitulado 05/20 – quer dizer, maio de 2020, e não, como algumas pessoas entenderam, o quinto poema de uma série de vinte… Trata-se desse/deste que segue:

Exilado entre as quatro paredes do meu quarto
Tendo por única companhia
O silêncio ancestral dos meus gatos
Acompanho imperturbável
O naufrágio lento do imenso barco
Que outrora eu chamava utopia
Sei que por detrás das cortinas da janela
Há rangidos, gritos, alvoroço
Mas meu corpo se recusa a ir até ela
Pois sondar o insondável
Não traria de volta o meu querê-la
E aguardo calmo a água me alcançar o pescoço

Eu idealizei futuros impossíveis, até quis
Abraçar as multidões, amar o estranho
Mas tudo que aqui finquei, toda raiz
Mostrou-se frágil, inviável
Percebo tarde demais que daquele país
Nada mais resta, nada ficou, nem mesmo o sonho

Luz na escuridão
Cidinha da Silva, prosadora, autora, editora, curadora e âncora do programa-web Almanaque Exuzilhar, tem 17 livros publicados, entre crônicas, contos, ensaios, dramaturgia e infantojuvenis: “Neste período de pandemia escrevi crônicas e contos por encomenda para periódicos e livros, duas cartas a Carolina Maria de Jesus (IMS e CCSP). Prefaciei uma reedição comemorativa de Quarto de despejo (Somos Educação) e um livro de poemas de Audre Lord (Bazar do Tempo). Escrevi um ensaio prazeroso sobre Lorde para o Suplemento Pernambuco de outubro. Cuidei da reedição de dois livros esgotados, Sobre-viventes! (Pallas) e OH, margem! Reinventa os rios! (Oficina Raquel). Preparei o 3º volume da série dedicada às minhas melhores crônicas, Amores entre iguais (Kuanza Produções), a sair entre novembro e dezembro deste 2020 fatídico”. O livro OH, margem! Reinventa os rios! está em pré-venda aqui.

Parachoque de caminhão
“As palavras nunca conseguem esvaziar o coração do homem e aliviá-lo, só o silêncio.”
Nikos Kazantzakis (1883-1957)

Antologia pessoal da poesia brasileira
Murilo Mendes
(Juiz de Fora, MG, 1901, Lisboa, Portugal, 1975)

O filho do século

Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa Danúbio Azul
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora do fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos voos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes

(O visionário, 1941)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

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