Nas ondas do rádio

A participação desastrada de um adolescente numa reunião de um partido comunista, nos dias da ditadura militar
Ilustração: FP Rodrigues
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on telegram
03/09/2021

P. era um adolescente melancólico. Morava numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, bom aluno, bom filho, mas inadaptado aos tempos e aos costumes. Ao contrário de seus colegas do colégio — cursava o último ano do curso científico —, não gostava de jogar futebol, não frequentava a praça principal, e única, para flertar com as garotas, não acompanhava os grupos que, nos fins de semana, com a desculpa de pescar em alguma represa das redondezas, embebedavam-se com cachaça e vinho ordinário.

P. preferia comparecer quase todo dia ao cinema local, que durante a semana passava faroestes e eventualmente exibia algum filme italiano ou francês — sábados e domingos eram reservados para as fitas mais comerciais, que atraíam público e garantiam a existência do lugar. P. também podia ser visto sempre com um livro nas mãos, um dos raros habitantes da cidade a penetrar nas salas mofadas da biblioteca municipal. Mas, P. não estava feliz.

P. olhava à sua volta e não se conformava que as pessoas não se dessem conta de que viviam oprimidos por uma ditadura militar que prendia, torturava, matava. E que não percebessem que na vida temos que, de alguma maneira, esforçarmo-nos para fazer diferença, para nos destacar da massa com algum feito importante. Em suma, P. queria mudar o mundo. Indignava-se com a pobreza que grassava nos bairros periféricos e com a desigualdade atávica, que sustentava os privilégios de uma minoria.

Uma manhã, sentado num banco da praça, um homem, que conhecia de vista como dono de uma pequena papelaria e livraria, aproximou-se e puxou conversa. Depois de quase uma hora em que trocaram impressões sobre assuntos os mais variados, o homem perguntou se ele gostaria de conhecer umas pessoas que pensavam como eles. P. exultou, claro que sim, e o homem disse que entrariam em contato.

Os dias escorreram lentamente a partir desse encontro. Angustiado, P. aguardava um sinal, um recado, um gesto, mas nada, nenhuma manifestação. Pensou em procurar o homem em sua loja, mas ele fora categórico em afirmar que não deviam deixar transparecer que se conheciam, pois corriam perigo, provavelmente todos os seus passos estavam sendo vigiados. P. achou mesmo que o homem troçara dele e que ninguém daria mesmo importância para um rapaz que ainda ontem andava de calças curtas.

Mas, uma tarde, que apascentava suas dúvidas sob nuvens escuras, um menino de bicicleta abordou-o com um papel na mão e falou: Aquele moço mandou entregar pra você. Quando olharam, ambos viram apenas uma perna que dobrava a esquina. Emocionado, P. correu para casa, trancou-se no quarto e só então abriu o bilhete. Lá estava um endereço, uma data, um horário, uma senha — o encontro seria dois dias depois. Orgulhoso, mas também assustado, P. perdeu o sono, o apetite, a concentração. Rasgou o papel em minúsculos pedaços e jogou na enxurrada formada pela chuva que desabara há pouco.

P. chegou, pensou que talvez tivesse errado o endereço ou a data, pois estava tudo escuro. A casa, antiga, afastada da rua, possuía uma cerca gradeada, e para alcançar a porta tinha-se de vencer um jardim malcuidado, cujas árvores tornavam o local ainda mais sombrio. P. tocou a campainha uma, duas vezes, entre agoniado e temeroso. Quando ia desistindo, uma moça, uns vinte e poucos anos, chegou por trás dele, e disse, Boa noite, xará! Boa noite, bem-te-vi. E ela, abrindo o portão, conduziu-o a uma edícula, atrás da casa.

A reunião já começara. Tão maravilhado, P. não prestou atenção no que se discutia, apenas olhava comovido para cada um dos sete rostos até aquele momento desconhecidos, que seriam dali para a frente seus companheiros de luta, empenhando a vida para se protegerem mutuamente. Quase ao final do colóquio, o dono da papelaria — que se revelou com o codinome Nestor, presidente daquela célula — apresentou o novo membro (sabia tudo sobre ele!) e despediram-se recomendando que não deixassem de ouvir a Rádio, para tomar conhecimento das notícias que eram censuradas pelo governo.

P. saiu da reunião outra pessoa. Sentia-se finalmente entre iguais, pessoas que demonstravam as mesmas inquietações que ele, que queriam transformar o país, torná-lo mais justo, mais equânime. A partir daquela noite, insone, buscava acertar a frequência da Rádio, oscilando devagar o dial de um rádio de pilha Semp vermelho que tomara emprestado do pai. Somente na véspera da reunião semanal, ele conseguiu ouvir a Rádio, em ondas curtas, algumas frases entrecortadas pelo chiado, vozes que aumentam e diminuíam, tornando tudo incompreensível.

O grande dia chegou, finalmente. P., que não havia dormido nada aquela noite, também não conseguiu engolir nem o café da manhã, nem o almoço – bastou-se com um pão com manteiga e uma caneca de café com leite. À noite, recebido como um velho camarada, sentou num sofá velho e aguardou inquieto o momento em que pudesse se manifestar. O tempo passava, e P. não entendia nada do que se discutia, não porque não tivesse prestando atenção ou porque o assunto fosse árido, mas porque ele só conseguia repetir para si mesmo o seu discurso, como se assim não fizesse, as palavras se evaporariam.

Então, quase ao final do encontro, Nestor perguntou se alguém gostaria de fazer uso do tempo, e de imediato P. levantou a mão. Engasgado, trêmulo, relatou que após inúmeras tentativas, enfim havia conseguido ouvir a Rádio. E, empolgado, começou a elogiar o discurso que, na verdade, nem havia ouvido direito, mas que, imaginativo, completava. E terminou quase gritando: Viva a Rádio Moscou! E, nesse instante, os sete rostos que acompanhavam-no extasiados tornaram máscaras de horror.

Ele estava numa célula do Partido Comunista do Brasil, que, como todos sabem, alimentava-se na Rádio Tirana…

Luz na escuridão
Helena Terra, cronista, contista, romancista:

O que você está escrevendo não é uma pergunta simples de responder. Por mais que eu saiba de que tratam as minhas palavras, elas, além de escaparem das minhas mãos, fogem um pouco dos meus planos e, por tabela, do meu teclado. Eu ainda escrevo, apesar da decadência da minha caligrafia, um bocado dentro dos livros que leio, e os livros que leio, volta e meia, mudam os rumos dos meus temas e das minhas intenções. Dizem os neurologistas que isso faz bem ao cérebro. Assim espero. Mas, de qualquer forma, posso afirmar, apesar dos eventuais desvios, que escrevo sobre nós, as mulheres. Especificamente, sobre a condição destrutível de ser mulher na sociedade patriarcal. Por isso, acabo de escrever o romance Bonequinha de lixo, expondo a hipocrisia e a violência da elite brasileira, projeto literário abraçado pela Diadorim Editora, que, como a personagem do Guimarães Rosa, é mulher e é homem, e, por meio da literatura, combate preconceitos e injustiças”.

Parachoque de caminhão
“Quem peca por piedade mais tarde apresenta a conta mais impiedosa.”
Hermann Broch (1886-1951) 

Antologia pessoal da poesia brasileira
Cecília Meireles
(Rio de Janeiro, RJ, 1901-1964) 

Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

(Vaga música, 1942)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

Últimas edições

Publicidade

Publicidade