🔓 Na corda bamba entre a vergonha e o alívio

É assim que andaremos pelos próximos meses, buscando frestas de felicidade que respeitem, mas atravessem, a nossa imensa tristeza compartilhada
01/06/2021

No dia em que se publica esta crônica, completo trinta e seis anos. É meu segundo aniversário pandêmico, a situação geral só piorou, mas, de alguma forma, este aniversário está mais alegre que o anterior, e isso me causa iguais medidas de alívio e vergonha. Nesses tempos tão tristes, ando meio constrangida de ficar feliz. Dá um certo medo de, com a minha porçãozinha de felicidade, ofender alguém que esteja de luto ou desesperado, e há muitas pessoas de luto e desesperadas.

Um pouco vem do respeito à tragédia coletiva. No dia em que encerrei meu doutorado, minha mãe ligou para dar parabéns e dizer que tinha na geladeira uma espumante, que ela pensava que tomaríamos numa praça para comemorar, mas que naquele momento não tinha clima e era melhor deixarmos para depois. Aquele momento era o da vigência da bandeira preta no Rio Grande do Sul, véspera do colapso do sistema de saúde. A ideia de ser feliz numa praça, de estourar uma espumante talvez debaixo da janela de alguém que estava esperando notícias de uma UTI, era realmente impensável. Deixamos para depois. Passaram-se mais de quatro meses, e ainda não tomamos aquela espumante.

Mas de junho passado até agora, aprendemos protocolos de cuidado que me deram a segurança de estar com pessoas recentemente. Estive num piquenique no jardim botânico, estive na casa de uma amiga onde nos posicionamentos estrategicamente nas correntes de ar (dez graus de temperatura e a gente se esforçando para encanar o vento, esse é o valor de uma amizade), e estive entre três pessoas no amplo terraço de uma amiga, na noite em que mais dei risadas desde o dia em que tudo mudou.

Estávamos felizes de estar juntas, e absolutamente nada parecia normal (as máscaras, a logística da comida separada, o álcool em gel onipresente), mas aquela foi a felicidade possível. Em algum momento, uma janela acima de nós foi fechada num estrondo. A primeira coisa que eu pensei: que vergonha de estar rindo nesse contexto sanitário, político e social. Nem me passou pela cabeça que o vizinho podia apenas estar vendo um filme ou sentindo frio (aquela também era uma noite gelada), a primeira coisa que eu pensei foi que a gente provavelmente não deveria se dar o direito de gargalhar em público neste ano de 2021.

Mas então eu olhei para o lado, para a minha amiga que eu amo profundamente e que, há pouco tempo, perdeu o pai, e ela estava rindo alto de alguma bobagem que eu nem tinha escutado, e eu pensei que se a gente não puder salvar o riso, a gente não vai poder salvar mais nada. Havia uma melancolia subjacente a todo aquele encontro — como é possível encontrar alguém que está de luto e não dar um abraço? —, mas também havia a afirmação da vida, a teimosia da vida, o incontrolável da vida que a gente tenta segurar mas que escapa pelo canto da boca numa risada mais alta do que gostaríamos.

Momentos depois da janela fechada, veio o barulho de um chuveiro elétrico: o estrondo tinha sido alguém se preparando para tomar banho. Mesmo agarrada à nova crença de que é preciso se permitir criar espaços alegres em meio à catástrofe, fiquei aliviada. Então era só um banho. Acho que é nessa corda-bamba que andaremos pelos próximos meses, buscando frestas de felicidade que respeitem, mas atravessem, a nossa imensa tristeza compartilhada.

Julia Dantas

Nasceu em Porto Alegre (RS). É editora, tradutora e doutoranda em Escrita Criativa pela PUCRS. É autora de Ruína y leveza (Não Editora, 2015) e organizadora de Fake Fiction: contos sobre um Brasil onde tudo pode ser verdade (Dublinense, 2020).

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