🔓 Metamorfose ambulante

O processo de escrita de um livro é dinâmico, e mesmo que o autor organize a história de maneira esquemática e detalhada, ele nunca acerta de primeira
Ilustração: FP Rodrigues
13/02/2022

Durante a escrita de um livro, o autor vai descobrindo o que quer contar e como. Por mais que ele faça escaletas, escreva fichas detalhadas sobre cada capítulo e conte a história para amigos num bar para testá-la, ele nunca acerta de primeira.

Pelo menos, eu nunca acertei.

Por exemplo, agora, eu e Marcus Aurelius Pimenta estamos escrevendo um livro sobre a Independência. E nossa ideia mudou várias vezes.

1. A primeira versão contava apenas a vida de Maria Quitéria, a soldada baiana que se disfarçou de homem para lutar. É uma história fantástica, muito parecida com Mullan, da Disney, mas com sangue e mortes de verdade.

Escrevemos essa primeira versão. Porém, ela nos deu comichões de contar as outras guerras de independência. Nelas também havia personagens espetaculares e fatos incríveis.

2. Então passamos à segunda versão: uma conversa entre Quitéria e o almirante Thomas Cochrane, mercenário britânico que participou de algumas guerras da Independência. Lemos bastante sobre ele e começamos a escrever. Mas logo surgiu um problema: se Quitéria contava toda sua vida, teríamos também que contar toda a vida de Cochrane. E a parte mais interessante dela se passava antes e depois de sua passagem pelo Brasil. Isso desequilibrava as coisas.

3. A solução foi trocar Cochrane por John Pascoe Grenfell, um de seus assistentes. Grenfell ficou a maior parte de sua vida no Brasil, é mais desconhecido que Cochrane, o que traz algumas vantagens, e foi importante na “Tragédia do Brigue Palhaço”, no Pará, uma das páginas mais tristes da história do Brasil.

Escrevemos esta versão e até gostamos dela. Falávamos nas guerras da Bahia, Maranhão e Pará, sempre esquecidas pelo resto do país. Mas nos pareceu que também seria bom dizer que a Independência só aconteceu realmente quando o Brasil pagou uma grande indenização a Portugal. E isso Grenfell não poderia contar. Ou, pelo menos, não poderia contar bem.

4. Decidimos trocar Grenfell por Martha Graham, uma inglesa que viveu no Brasil naquela época. Lemos tudo o que encontramos sobre ela e fizemos nossa quarta tentativa. Ela tinha o charme de ter a Independência contada por duas mulheres. E as duas realmente se encontraram. Mas Quitéria narrava o vivido e Graham, apenas o ouvido. E essa diferença acabou deixando o texto desequilibrado.

5. Na quinta versão substituímos Martha Graham pelo Chalaça, personagem de meu primeiro livro. Parecia a saída definitiva (tanto que até escrevi sobre isso há seis meses, neste mesmo espaço, me achando muito esperto). Na conversa entre os dois, Quitéria contaria o 2 de julho e Chalaça, todas as outras batalhas da Independência. Mas acabamos achando que requentar o Chalaça seria um golpe baixo. Uma espécie de autocaricatura. E desistimos dele.

6. A ideia seguinte foi juntar, numa sala de espera, Quitéria, Cochrane, Grenfell e Natan Rothschild, o banqueiro que emprestou dinheiro ao Brasil para que pagássemos Portugal. Os três primeiros contariam suas histórias, apostando que seriam chamados à frente dos outros para falar com D. Pedro. Mas o banqueiro é que teria esse privilégio.

Parecia uma estrutura interessante, mas ainda não bastava. Agora achávamos que havia outros momentos decisivos na Independência do Brasil, além das guerras e da compra, como a Aclamação e a Coroação.

7. Então veio uma ideia radical: e se o livro fosse, na verdade, um monte de gente falando, cada um defendendo uma data diferente para a Independência? Quitéria ficaria com o dois de julho; Cochrane contaria sua vitória no Maranhão; Grenfell diria que sua vitória no Pará é que foi decisiva; haveria alguém para defender o sete de setembro (o padre Belchior, que escreveu o relato que imortalizou data); a imperatriz Leopoldina falaria do dois de setembro, para alguns muito mais importante que o grito de cinco dias depois; Gonçalves Ledo, personagem que descobrimos no meio do caminho, falaria da Aclamação de 12 de outubro (e das tramas maçons que colaboraram para a Independência); Bonifácio contaria o três de dezembro, quando Pedro foi coroado imperador, e Rothschild falaria de seu empréstimo ao governo brasileiro.

Ficamos satisfeitos com essa proposta. Depois de uma longa caminhada, tínhamos percebido que nossa personagem principal não era Quitéria, mas a Independência do Brasil. E que, desde o início, o que realmente desejávamos era mostrar que o sete de setembro era só um símbolo, que havia muito mais gente por trás, por cima e por baixo de nossa separação de Portugal.

Mas como estas oito personagens contariam suas histórias? Estariam num jantar? Trocariam cartas? Cada fato seria contado de um jeito diferente: em primeira pessoa, em terceira, em forma de roteiro, como uma peça de teatro, etc…? Até gostamos desta última ideia, mas nossos personagens eram tão fortes que pediam relatos em primeira pessoa.

Decidimos que o melhor seria tê-los como fantasmas, vagando pelo Museu do Ipiranga e olhando o quadro de Pedro Américo. Essa situação sobrenatural daria certa unidade às narrativas, possibilitaria às personagens saberem o que aconteceu com o Brasil nos últimos 200 anos e, o mais importante, tiraria o ar oficial do livro.

Hoje em dia há uma tendência a achar que o romance histórico deve contar a história exatamente como ela foi, o que me parece uma bobagem. Quem quiser saber como algo realmente aconteceu deve ler livros de História. Um romance histórico é, como o nome já diz, um romance, uma ficção. Não é a história romanceada. Não é a verdade factual contada de um jeito mais gostosinho. O romance histórico parte de fatos e personagens reais, mas não serve para estudar para o Enem.

No fim das contas, o que seria um romance sobre Maria Quitéria virou um livro de contos sobre a independência. Pelo menos, por enquanto. Porque pode ser que a gente mude de ideia de novo.

José Roberto Torero

Escritor e roteirista, Torero nasceu em Santos (SP), em 1963. É autor de O chalaça (prêmio Jabuti na categoria romance em 1995) e Os vermes, entre outros. Também é autor de livros de não ficção e de literatura infantojuvenil. Ao lado de Paulo Halm, assinou o roteiro do longa-metragem Pequeno dicionário amoroso.

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