Gol de quem?

Na adolescência, comprei uma camisa azul celeste. Eu tentava encontrar lugar no mundo, coisa que ainda não achei direito, e o futebol era um caminho
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12/01/2021

Futebol é assunto de um naipe parecido com o tempo, a chuva, sol e calor, ou como é que vai sua mãe. É desses temas de elevador, de fila de padaria, de espera de consultório. Só que comigo dá errado, sempre. Minha relação com futebol é quase zero. E só não zerou total porque convivo em sociedade, tenho irmãos e pai, tios, primos no WhatsApp, além de vizinhança normal, dessas que soltam fogos quando tem jogo. O bar da esquina dá sinais de vida diferentes, conforme o campeão da semana. E isso a gente aprende a ler; com isso a gente aprende a conviver.

Tentei. Quando era adolescente, cheguei a comprar uma camisa azul celeste. Eu tentava encontrar lugar no mundo, coisa que ainda não achei direito, e o futebol era um caminho. Era um assunto que trazia as pessoas para a conversa e para a briga; era tema quente no seio familiar; chamava a atenção do garoto metaleiro bonito da escola; enfim, dava samba. Mas não consegui fingir gosto por muito tempo. A camisa virou pijama e o tema me aborreceu. Não dei mais bola.

Segui vida adentro (ou afora? Nunca sei) driblando o tal do futebol, embora seja quase impossível. Às quartas, até a novela das nove da Globo é empurrada pelas partidas, quaisquer que sejam. No domingo, costuma ser o assunto nas esquinas e nos sofás. Não há um domingão em que, em algum momento do papo do núcleo familiar, o campeonato mineiro ou brasileiro não apareçam. Em especial os homens passam mafiosamente a falar entre si, com cenho franzido e tudo, levando a pauta muito a sério. Chegam a planejar os compromissos da semana segundo as traves das tabelas de campeonato.

A quantidade e a duração dos programas de tevê sobre futebol também dão noção do tamanho da encrenca. Tem hora que é um exercício repetitivo punk fugir de debates sobre jogadores ou de replays de jogos recentes. E mesmo quando não é isso, até os jornais de notícias guardam lá seu último quinto ou quarto pro assunto, se algum jogador já não tiver aparecido noutras seções. Eles são assunto se mudaram de time, de namorada, de roupa, de patrocinador; se foram presos por tráfico ou por sonegação de impostos; se falaram besteira em campo ou fora dele; se morreram ou se tiveram filhos.

Fiquei aliviada quando soube que futebol não é do gosto da maioria. Há um número assim que rola por aí, mas não importa muito. Como quem gosta é mais barulhento e domina tudo, a quem não gosta só resta aprender a conviver e a se desviar. Uma caneta aqui, um chapéu ali e a gente se livra das imagens, do assunto e até dos fogos de parte da vizinhança eufórica.

No entanto, preciso confessar que até eu tenho lembrança nítida de uns jogos, dois ou três. O mais recente foi aquele 7 a 1, a que assisti de trás do sofá onde a maioria da família se apinhava. Como minha atenção não estava exatamente no jogo, eu dava umas piscadas e de repente ouvia que foi gol, gol, gol, gol, gol, gol e gol… E meus olhos custavam a acreditar no que estava acontecendo. E comecei a perguntar: gol de quem? Mas como assim, gente? É replay, ó. Não é outro gol, é replay. Mas não era replay. E eu comecei a rir nervosamente daquela goleada surreal. E me senti também um pouco alegre, intimamente risonha e secretamente vingada.

Já meu pai, futeboleiro inveterado, orgulhoso de ter participado das peladas das segundas até os 60 anos (só parou porque todo mundo foi ficando mais novo), tem história bem diferente e não conseguiu me legar esse gosto pela pelota. Único cruzeirense de seis irmãos, só passou batido porque exercia poderes de primogênito. Só falavam dele pelas costas. Nos almoços de família, era aquele monte de homem vestido de zebra e ele lá, reinando absoluto, mas sem camisa de time, porque nunca gostou de uniforme. Bom, ocorre que o Cruzeirão se lascou todo, recentemente, e foi rebaixado e tal e deixou a massa triste, incluindo meu pai, que nem assim se curva. Assisti curiosa à ligação que os irmãos fizeram para ele, em seu aniversário de 76 anos, e não me escapou seu gênio ao responder bem a uma provocação arriscada:

– E agora, irmão, será que você vira atleticano?!

– Que nada! Agora ficou melhor! Tenho 19 times para torcer!

É isso. Pensei: aprendam. Esse foi de placa. E foi mal aí a crônica contra-hegemônica. Acontece.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. É colunista fixa do Digestivo Cultural desde 2003 e da revista Pessoa desde 2017. Publicou dois livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (2012) e Meus segredos com Capitu (2013). É professora do Cefet-MG, doutora em Estudos Linguísticos pela UFMG.

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