Foi a falta de tempo…

É como se a leitura fosse uma atividade improdutiva, nesse sentido capitalista que a gente conhece bem, e afinal só pudesse ser feita nas horas vagas
Ilustração: Aline Daka
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13/04/2021

* Série LeituraBR

Não disse que faria uma série? Pois é. É o que de mais fino se pode fazer como cronista. Vou então sustentar o tema da leitura, usando como mote alguns resultados intrigantes e instigantes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mais recente.

Se no mês passado embarquei na imensa maioria que disse preferir ler em casa, neste abril outonal vou encarar os 82% de compatriotas que lamentam não ter lido mais, nos meses imediatamente passados; e entre eles, os quase metade (47%) que alegam ter ficado aquém do desejado por falta de tempo. Simples assim. Interessante saber também que dentre esses 47% que não tiveram tempo para ler livros nos meses que precederam a pesquisa, uma parte grande é justamente os que têm escolaridade superior. Talvez os que não a têm não precisem da “desculpa”.

Poxa, quando vi aquele estupendo número 82%, cheguei a ficar triste. Uma massa enorme de pessoas queria ter lido mais e não conseguiu ou não pôde. Os sentimentos são conflituosos, confusos, misturados. Que pena que não deu para ler, mas que bom que queriam. Ao menos queriam. Mas aí a falta de tempo veio com tudo e atravancou o caminho. A pedra que lá estava não era cascalhinho, era um monólito chileno desses à beira mar. Ler é atividade que exige atenção, vigília, inteligência acesa. Como é que se lê em trânsito, de pé no busão? Ou como é que se lê cansado, caindo pelas tabelas, depois de chegar em casa à noite? Se for mulher então, ainda tem o lanche da moçada, a limpezinha do banheiro e os preparativos pro almoço de amanhã, talvez umas mudinhas de roupa para passar. Jogo rápido. Quando a gente finalmente se deita e dá a sorte de o companheiro querer dormir, pega o livro ali na cabeceira, tira a poeira que se acumulou na capa e dorme já no primeiro parágrafo.

E por que será que as pessoas de escolarização superior alegam mais a falta de tempo? É que elas realmente não o têm (em níveis maiores que outras pessoas)? Ou é que elas desejariam ter lido mais, enquanto pessoas menos escolarizadas têm menos essa vontade? Ou será que elas apenas percebem que dizer que gostariam de ter lido, mas, poxa, não deu… fica melhor na fita do que dizer logo de cara que não têm interesse em livros e leituras? Quanta hipótese me veio, diante desses percentuais acentuados. (Bom, ave pesquisa qualitativa!)

Eu fico besta de ver como conseguir ler um livro inteiro, em boa cadência, é realmente difícil. Sinto-me sempre driblando algo, escondendo o jogo, fingindo de morta e escapando do ataque das demandas diárias e incessantes. O livro fica na cabeceira ou na mesa do escritório, mas pode não ser aberto por semanas a fio. O detalhe é que sou uma professora… E minha cabeça urdiu uma ideia meio atravessada de que ler deveria fazer parte do dia a dia de uma professora e de um professor. Se não faz parte da vida de outros e outras profissionais, vejamos caso a caso, mas acho bem curioso que o tempo de estudar seja colonizado por tudo quanto é tarefa e preenchimento de relatório que a gente é – e não é – capaz de imaginar. É como se ler, afinal, fosse uma atividade improdutiva, nesse sentido capitalista que a gente conhece bem, e afinal só pudesse ser feita nas horas vagas. Bom, mas onde estão as horas vagas mesmo, teacher?

Poxa, eu queria ter lido mais. Não deu. Rolou aqui uma tremenda falta de tempo. Mas certamente li bastante acima da média. O que me deixa aliviada, pessoalmente, mas triste, no coletivo. Não sei se estou ali entre os 82% ou se já posso me instalar entre as pessoas que conseguiram escapar da maioria esmagadora. Dá licença, gente boa, mas eu vou ler sim.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. É colunista fixa do Digestivo Cultural desde 2003 e da revista Pessoa desde 2017. Publicou dois livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (2012) e Meus segredos com Capitu (2013). É professora do Cefet-MG, doutora em Estudos Linguísticos pela UFMG.

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