Fim de tarde no Bar Brasil

O retrato atual e soturno de um dos monumentos da boemia carioca, engolido pela pandemia e pelas anódinas franquias ao redor
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22/09/2021

 Ao sair da reunião de trabalho e pôr o pé na rua, sinto no rosto a brisa quente do inverno com jeito de verão. Um chope, quem sabe? Coisa rápida. Em poucos minutos, estou sentado a uma das mesas do Bar Brasil.

Era a única ocupada no fim de tarde daquela terça-feira. Ao me ver, William aciona a histórica chopeira torneada em bronze e já traz o schinit. Quatro dedos de colarinho — irrepreensíveis — cobrem a caldeireta. Peço uma salsicha branca para acompanhar. E, com o celular desligado, começo a passear os olhos pelo salão vazio.

Situado na esquina das ruas Mem de Sá e Lavradio, na Lapa, o Bar Brasil é uma das joias da cidade. Foi fundado em 1908, com o nome de Zepellin, que seria trocado na época da Segunda Guerra. Ainda hoje mantém o ancestral refrigerador de madeira, a estante com as bebidas “quentes” e garçons vestidos à moda clássica: calça preta e camisa branca. No teto revestido em chapisco, três ou quatro ventiladores garantem um pouco de refresco contra o calor. Luta inglória.

Embora sirva aquele que é, de longe, o melhor chope do Rio, já há alguns anos o Brasil vem perdendo clientes. A falta de ar-condicionado pesa na equação. Além disso, muitos preferem os bares da moda, com música alta e drinks descolados, ou as anódinas franquias que se espalham pela cidade, corroendo peculiaridades, histórias, minúcias. Novos rostos atrás do mesmo véu, como cantava o Cazuza.

Sozinho no salão, pergunto ao William como anda o movimento.

— Desabou. Aos poucos, com a retomada do trabalho no Centro, vem melhorando. Principalmente na hora do almoço. Mas à noite…

William tem 33 anos e trabalha há dez no Bar Brasil. Nossa conversa é interrompida por três homens engravatados que o abordam pedindo o cardápio. Após a rápida conferida, um deles questiona se a cozinha pode preparar algo ligeiro. Uma fritada, sugere.

Os homens se vão, William retorna.

— Queriam um ovo — comenta, com uma expressão gaiata no rosto. E voltamos ao assunto.

— Lembra daquele lugar ali? — ele aponta para a mesa redonda, maior que as demais, que fica ao centro do salão.

— Sim, vinham sempre uns senhores de cabelo branco — respondo.

— Isso. Eram cinco, depois eram dois, agora está vazia…

Um instante de silêncio se impõe. Tento checar as horas no relógio que traz ao fundo um escudo do América e fica dentro do balcão, próximo à chopeira. Está quebrado.

— O dono prometeu que vai mandar consertar — diz William.

Talvez as horas tenham mesmo parado desde que entrei ali em busca de um chope. Observo as arandelas, o cartaz com a promoção do bolinho de carne, os lustres redondos em cor gelo, o biombo que fica à entrada, a fim de proteger a intimidade de quem está dentro do bar.

Nesse movimento, os olhos encontram um calendário. Presas à parede com um solitário prego, suas folhas se debatem numa leve oscilação. “Setembro de 2021”, informa o papel.

Regresso, então, dessa espécie de reticência no tempo. Escrever a crônica da semana, revisar dois artigos do trabalho, finalizar a inscrição no edital da prefeitura, ler os textos do mestrado, comprar produtos de limpeza, pagar a mensalidade do streaming, preparar a mochila da escola de Lia.

— Traz a saideira, William. E a conta.

Já na rua, antes de chamar o táxi, me volto mais uma vez para o bar. E, por alguns segundos, contemplo o salão esvaziado só para ter a certeza de que ainda está ali.

Marcelo Moutinho

É autor dos livros Rua de dentro (2020), Ferrugem (vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional, 2017), Na dobra do dia (2015), A palavra ausente (2011), Somos todos iguais nesta noite (2006) e do infantil A menina que perdeu as cores (2013), entre outros.

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