Dois anos a menos

Para além das perdas econômicas e tragédias sociais, a pandemia interrompeu em 2020 o ciclo de crescimento da expectativa de vida no Brasil
Ilustração: FP Rodrigues
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14/05/2021

Desalentado (a) leitor(a), como você deve acompanhar, em 23 de abril o número acumulado de mortos por covid em 2021 igualou-se ao total de mortos em todo o ano passado. Ou seja, em apenas 113 dias deste ano morreram 200 mil pessoas, o mesmo que em 289 dias do ano passado, contados entre 17 de março, quando confirmou-se o primeiro óbito, e 31 de dezembro. Hoje, temos cerca de 430 mil histórias enterradas em covas país afora.

Essa tragédia sem precedentes atinge o mundo todo, é verdade, mas não podemos deixar de, no caso do Brasil, lembrar que boa parte destas vidas perdidas poderiam ter sido salvas se tivéssemos à frente do governo alguém com capacidade de administração e empatia e não um ser abjeto e desqualificado – embora, não me canso de insistir, ele tenha sido guindado ao cargo por escolha direta de 58 milhões de cidadãos de bem e indireta de outros 42 milhões que preferiram não se manifestar, optando pelo voto branco ou nulo ou simplesmente pela abstenção.

O resultado visível e imediato deste descalabro é o surgimento de uma crise econômica sem precedentes, que, por sua vez, gera uma crise social sem precedentes: milhões de pessoas sem emprego e sem renda indo engrossar as estatísticas da pobreza e da miséria. Mas há ainda um resultado invisível tão grave quanto aquele: a diminuição da expectativa de vida.

Em 2020, por conta da pandemia, nós perdemos quase dois anos de expectativa de vida – em média, bebês nascidos no Brasil em 2020 viverão 1,94 ano a menos do que um nascido em 2019, ou seja, 74,8 anos em vez dos 76,7 anos anteriormente projetados. Com isso, nossa esperança de longevidade retornou aos patamares de 2013, interrompendo, pela primeira vez, um ciclo de crescimento que partiu da inacreditável média de 45,5 anos em 1945, com um ganho médio anual de cinco meses.

Esses vírus, o da covid e o bolsonarismo, ainda continuarão a nos perseguir por muitas gerações…

Luz na escuridão
Alexandre Vidal Porto, romancista:

“Estou trabalhando em um romance inspirado na vida de Luiz Delgado, violeiro de Évora, que chegou a Salvador no ano de 1665, degredado pela Inquisição portuguesa pelo crime de sodomia. Em Salvador, Luiz Delgado estabeleceu-se como negociante de tabaco, casou-se com uma mulher e manteve uma vida homossexual ativa durante os cerca de trinta anos que passou na Bahia. Durante os últimos anos de seu degredo no Brasil, manteve uma relação romântica forte com um ator transformista chamado Doroteu Antunes, pela qual foram denunciados e perseguidos pelas autoridades religiosas da época. Minha ideia com esse projeto é restaurar um pouco da historiografia de minorias sexuais no Brasil – e da perseguição e intolerância por elas sofridas. Acho que a história dos sodomitas Luiz Delgado e Doroteu Antunes tem relevância e merece ser conhecida. Como a história deles é trágica, e eu já estou cansado de tragédias LGBT, pretendo dar um final feliz e otimista ao livro. Meus editores na Companhia das Letras encamparam o projeto, e eu espero ter o livro pronto para publicação em algum momento de 2022”.

Parachoque de caminhão
“As pessoas são como rios: a água é a mesma para todos e é igual em toda parte, mas cada rio é ora estreito, ora rápido, ora largo, ora calmo, ora limpo, ora frio, ora turvo, ora morno.”
Liev Tolstói (1818-1910)

Antologia pessoal da poesia brasileira
Oswald de Andrade
(São Paulo, SP – 1890-1954)

procissão de enterro

A Verônica estende os braços
E canta
O pálio parou
Todos escutam
A voz na noite
Cheia de ladeiras acesas

(Pau Brasil, 1925)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

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