Desespero e fuga

Metade dos jovens brasileiros demonstra desejo de ir embora do Brasil, por falta de perspectivas. Em plena pandemia, batemos recordes de gente indo embora
Ilustração: FP Rodrigues
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16/07/2021

Indignado (a) leitor (a), você consegue imaginar-se abandonando o conforto do seu lar, a convivência com familiares e amigos, a caminhada diária por lugares conhecidos, o arroz com feijão, a própria língua, para recomeçar sua vida num país que o rejeita, para enfrentar preconceito e humilhação, solidão e impossibilidade de comunicar-se por não dominar o idioma? Pois é, você só faria isso em um momento de profunda desesperança, não é mesmo? E, no entanto, é isso que nossos jovens estão fazendo… de novo…

Sim, perplexo (a) leitor (a), a partir dos anos 1980, a chamada “década perdida”, cerca de 1,5 milhão de brasileiros deixaram o país rumo aos Estados Unidos, Japão e Portugal, principalmente, a maioria deles numa viagem sem retorno. E, embora tenhamos conhecido uma pequena sensação de que enfim estávamos trilhando o caminho do progresso na primeira década dos anos 2000, a desgraça novamente se abateu sobre o Brasil, e desta vez em dose dupla, com a pandemia, praga mundial, e pela escolha livre – nunca nos esqueçamos disso! – deste, Deus que me perdoe, livre e guarde, Jair Bolsonaro para a presidência da República.

E, então, de novo, estamos assistindo ao desespero daqueles que não conseguem ver nenhuma perspectiva de sobrevivência digna por aqui. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas aponta que, se pudessem, 47% dos jovens brasileiros deixariam o país. A mesma pesquisa mostra que 27% dos jovens entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham e que 70% deles têm dificuldades de encontrar trabalho. Para piorar, se é que isso é possível, outra pesquisa, da Gallup World Poll, indica que a aprovação dos jovens brasileiros a respeito dos governantes do país despencou de 61% até meados da década passada para 12% para a administração atual. Na média mundial, a taxa tem se mantido próxima a 57% há quase dez anos.

Reflexo disso, em 2019, 17.800 brasileiros foram detidos na fronteira do México com os Estados Unidos. E, durante esta pandemia, ou seja, quando o mundo inteiro está mais ou menos paralisado, mais de 30 mil brasileiros foram barrados tentando entrar ilegalmente naquele país. E, ilustrado (a) leitor (a), não estamos falando, obviamente, daqueles aposentados e daquelas celebridades que vão de primeira classe morar em Miami e sim de gente que vende tudo e se endivida para entregar a sorte nas mãos de um coiote que fica com o dinheiro, tendo ou não sucesso em sua empreitada.

Também para Portugal, os jovens brasileiros estão fugindo. A comunidade brasileira, que já é a maior do país, conta com 184 mil brasileiros, sendo que 100 mil imigraram apenas de 2016 para cá. Em 2020, o número de brasileiros que ingressaram em Portugal foi 22% maior do que no ano anterior. E também, de novo, a grande maioria não vai para lá para desfrutar de suas aposentadorias nem de suas fortunas, mas trabalhar em subempregos, sempre correndo o risco de serem presos e deportados.

Diante de tanta frustração e desesperança, que futuro aguarda esse país abençoado por Deus e bonito por natureza?

Luz na escuridão
Cíntia Moscovich, contista, romancista:

“Estou trabalhando numa narrativa longa, coisa que me toma anos. Algo relacionado a um câncer que tive, mas que evito, a todo custo, tornar uma história de sofrimento e penas, que é o que todo câncer representa. Quero que a história seja engraçada e até ridícula em alguns momentos, como foi meu tratamento. Escrevo e reescrevo, nunca me parece bem ou perto de estar bem. Com a pandemia, então, tudo me parece ainda pior, o texto parece que me sai truncado. Mas sairá, tenho certeza. Escrever, nesses tempos inglórios, tornou-se resistência. Vamos a ela, à resistência, portanto”.

Parachoque de caminhão
“Os homens não são somente eles; são também a região onde nasceram, a fazenda ou o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, os brinquedos com que brincaram em crianças, as lendas que ouviram dos mais velhos, a comida de que se alimentaram, as escolas que frequentaram, os esportes em que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditaram.”
Somerset Maugham (1874-1965)

Antologia pessoal da poesia brasileira
Ferreira Gullar
(São Luis, MA, 1930 – Rio de Janeiro, RJ, 2016)

Uma fotografia aérea

Eu devo ter ouvido aquela tarde
um avião passar sobre a cidade
aberta como a palma da mão
entre palmeiras
e mangues
vazando no mar o sangue de seus rios
as horas
do dia tropical
aquela tarde vazando seus esgotos seus mortos seus jardins
eu devo ter ouvido
aquela tarde
em meu quarto?
na sala? no terraço
ao lado do quintal?
o avião passar sobre a cidade
geograficamente desdobrada
em si mesma
e escondida
debaixo dos telhados lá embaixo sob
as folhas
lá embaixo no escuro
sonoro do capim dentro
do verde quente
do capim

junto à noite da terra entre
formigas (minha
vida!) nos cabelos
do ventre e morno
do corpo por dentro na usina
da vida
em cada corpo em cada
habitante
dentro
de cada coisa
clamando em cada casa
a cidade
sob o calor da tarde
quando o avião passou

II
eu devo ter ouvido no meu quarto
um barulho cortar outros barulhos
no alarido da época
rolando
por cima do telhado
eu
devo ter ouvido
(sem ouvir)
o ronco do motor enquanto lia
e ouvia
a conversa da família na varanda
dentro daquela tarde
que era clara
e para sempre perdida
que era clara
e para sempre
em meu corpo
a clamar
(entre zunidos
de serras entre gritos
na rua
entre latidos
de cães
no balcão da quitanda
no açúcar já-noite das laranjas
no sol fechado
e podre
àquela hora
dos legumes que ficaram sem vender
no sistema de cheiros e negócios
do nosso Mercado Velho
– o ronco do avião).

III
eu devo ter ouvido
seu barulho atolou-se no tijuco
da Camboa na febre
do Alagado resvalou
nas platibandas sujas
nas paredes de louça
penetrou nos quartos entre redes
fedendo a gente
entre retratos
nos espelhos
onde a tarde dançava iluminada
Seu barulho
era também a tarde (um avião) que passava
ali
como eu
passava à margem do Bacanga
em São Luís do Maranhão
no norte
do Brasil
sob as nuvens

IV
eu devo ter ouvido
ou mesmo visto
o avião como um pássaro
branco
romper o céu
veloz voando sobre as cores da ilha
num relance passar
no ângulo da janela
como um fato qualquer
eu devo ter ouvido esse avião
que às três e dez de uma tarde
há trinta anos
fotografou nossa cidade

V
meu rosto agora
sobrevoa
sem barulho
essa fotografia aérea
Aqui está
num papel
a cidade que houve
(e não me ouve)
com suas águas e seus mangues
aqui está
(no papel)
uma tarde que houve
com suas ruas e casas
uma tarde
com seus espelhos
e vozes (voadas
na poeira)
uma tarde que houve numa cidade
aqui está
no papel que (se quisermos) podemos rasgar

(Dentro da noite veloz, 1975)

Luiz Ruffato

Estreou em 2001 com Eles eram muitos cavalos, e, depois disso, publicou outros cinco romances, uma coletânea de contos, uma de poemas, uma de crônicas, um ensaio e uma história infantil. Seus livros ganharam os prêmios APCA (duas vezes), Jabuti (duas vezes), Machado de Assis da Biblioteca Nacional e Casa de las Américas, de Cuba, e estão publicados em 13 países. Em 2012 foi escritor-residente na universidade de Berkeley (EUA); e em 2016 ganhou o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha.

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