🔓 De um tudo (2)

Como um alarme preso numa calça pode nos ajudar a buscar soluções inusitadas e um pouco de solidariedade
Ilustração: Thiago Lucas
09/08/2022

Todo mundo fala de série, comenta série, recomenda série. Na semana passada, comecei uma. Só que ela acontece aqui, nestes textos, as famosas mal-traçadas linhas, coisa que muito menos gente vê, fala, comenta, recomenda. Mas vamos lá que hoje é dia de retomar os casos que me fazem confirmar que o YouTube tem de um tudo, qualquer coisa que a gente procure, de que a gente precise, de que a gente não precise. Está tudo lá, visível; ou escondido sob camadas de lixo e algoritmo. No entanto, já ouvi dizerem que o YT é coisa de velho, de pessoas que ainda não adentraram o mundo maravilhoso daquelas redes sociais de videozinhos mais curtos, sincopados, com trilha sonora e truques de corte. Será?

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Uma verdadeira tragĂ©dia. Fiz uma compra pela internet numa loja bacana de roupas. Uma rapidez extraordinária no envio. O moço da entrega bateu campainha e eu fui correndo atender, toda empolgada com a chegada do meu item. NĂŁo fiz o tal do unboxing por pura preguiça de filmar e editar uma simples chegada de compra, mas tem tara pra tudo, nĂ©? É uma espĂ©cie de strip-tease de compra. Muita gente gosta de ver uma caixa se abrir e alguĂ©m enfiar a mĂŁozona dentro dela e… enfim. Fiquei ali, discretamente diante da minha caixa, doida para experimentar minha calça nova.

Até aqui, nada de tragédia, né? Mas é que ela começa agora: o cós da calça jeans veio com aquele dispositivo de alarme bem grudadinho, bem presinho. E daí em diante foi só dor de cabeça. Como retirar aquilo sem estragar o tecido?

Abracadabra, pó de pirlimpimpim, as referências literárias não ajudaram nada. Pedido pra santo ou pra orixá, tanto faz, eles não resolvem assim. Iemanjá, quem sabe? Mas era capaz de ela ficar com a calça pra si, de tão linda que era minha peça. Quem poderá me ajudar? O Chapolin Colorado? Também não. Até esperei por alguns segundos, sem resposta. A encrenca é grande.

Fui atĂ© a área de serviço, abri minha caixa de ferramentas semiprofissional, examinei os tipos de alicate que eu tinha, selecionei um, bem fino, capaz de acessar o espaço entre a calça e o alarme, cortando, quem sabe, o pino de metal que atravessava tudo. NĂŁo entrava. Provavelmente, se eu insistisse, cortaria o tecido. Se isso acontecesse, nem seria difĂ­cil justificar o malfeito com a moda das roupas esburacadas, em especial as calças jeans, mas naquele lugar… era esquisito demais.

Foi então que decidi o óbvio: procurar no YouTube. Esse é o tipo de treta que não adianta tentar aprender só por escrito. É preciso ver. Quem ensina tem de mostrar. E as lojas, donas dos sistemas de alarme, não costumam dizer como é que se tira um dispositivo desses, caso ele venha de brinde na roupa que a gente adquire.

A solução, então
Tasquei lá na busca youtubiana algo assim: como tirar alarme de roupa. Plim! Como eu esperava: um monte de gente ensinando a fazer isso, geralmente porque tinham o mesmĂ­ssimo problema que eu. Novamente, me inundou aquela sensação de nunca estar sozinha no mundo com um problema idiota. Na sequĂŞncia, pus atenção total nos macetes, nas dicas, nas artimanhas que as pessoas usam para se livrar do que deu errado. Um mundo de gente já havia passado por essa experiĂŞncia, mesmo tendo comprado em lojas fĂ­sicas. Aliás, minha Ăşltima compra numa loja de tĂŞnis foi isso… veremos mais adiante.

Resumindo o vasto material que recolhi, na busca pela melhor solução para livrar minha calça nova tanto do alarme quanto de uma avaria causada por minhas tentativas desinformadas: uma sugestão era martelar. Isso mesmo. Mas essa me deu uma sensação de “ah, assim não vale”. É claro que, ao abrir minha caixa de ferramentas, eu mesma já tivera essa genial ideia. Coisa de ogro, não? Mas, sim, muita gente gravou vídeo dando essa solução para o problema. Martelada, porrada, de preferência evitando tocar na roupa, coisa que não tinha muita escapatória no meu caso. Muito divertido ver o povo tratando o alarme como um inimigo terrível. Coisa boa de fazer para aliviar o stress. Skipei.

A segunda solução genial era pĂ´r fogo na bolinha da peça do alarme. Fiquei olhando pro vĂ­deo e pra minha calça… pensando se as peças tinham o mesmo formato. Sim, dava para fazer. Em alguns vĂ­deos as pessoas usavam velas (!), noutros, isqueiros, chamas de fogĂŁo, etc. Ao queimar a cabeça da peça, o mecanismo interno aparece e as peças se soltam lá dentro. Pronto. Se a roupa nĂŁo for incinerada junto, atĂ© que pode dar certo. Mas, por via das dĂşvidas, achei melhor nĂŁo mexer com fogo.

Outra sugestĂŁo sutil que, geralmente, aparecia nos vĂ­deos, mas apenas como ideia vaga, era ir a uma loja e pedir ajuda. Uma loja qualquer, nem precisava ser a mesma onde a compra foi feita. Bom, geralmente nosso apuro Ă© grande. Compra na web pode ser feita em qualquer lugar. Minha loja ficava em SĂŁo Paulo, para onde eu nĂŁo iria tĂŁo cedo. O jeito era tentar qualquer estabelecimento onde houvesse uma pessoa de boa vontade e que nĂŁo me olhasse como se eu fosse uma ladra. (Ah, tenha sempre consigo a nota fiscal).

No caso da calça jeans, acabei optando pela solução da martelada. Achei que um eventual furinho no cós seria menos prejudicial do que ela pegar fogo. E assim foi. Bati, bati, com vontade, até que a peça se quebrou. O furinho está lá, mas discreto. Ninguém nota. O alarme estraçalhado foi pro lixo.

No entanto, há poucos dias, tive de resolver a mesma questĂŁo com um tĂŞnis, como disse, e nĂŁo dava nem pra pĂ´r fogo, nem pra martelar. O jeito foi sair em busca de gente solidária nas lojas do shopping mais prĂłximo. Tempo de resolução: 3h. Por quĂŞ? Bom, vocĂŞ encontra muitas lojas que usam sistemas diferentes, inclusive com peças diferentes da sua, entĂŁo aqueles Ă­mĂŁs que as retiram nĂŁo fazem efeito; tambĂ©m encontra atendentes que simplesmente nĂŁo querem te ajudar, mesmo vocĂŞ mostrando a nota fiscal e seus cabelos brancos; tropeça em uma ou outra loja, em especial as de departamento, que tĂŞm regras sobre isso, nĂŁo autorizam a retirada do alarme, se nĂŁo for compra da prĂłpria loja (Ă© o que diz o atendente… a ver); encontra tambĂ©m pessoas solidárias, bacanas, que lhe oferecem o ombro pra chorar, contam episĂłdios parecidos, sugerem que vocĂŞ volte a SĂŁo Paulo sĂł para retirar o alarme, mas nĂŁo tĂŞm qualquer recurso para te ajudar efetivamente; e tambĂ©m encontra quem te chame num canto e diga, aos sussurros, como dar jeito na questĂŁo usando um martelo ou um isqueiro (“eu nem devia estar te ensinando isso, mas…”). É como entrar numa espĂ©cie de máfia.

De todo modo, quando eu já quase perdia completamente as esperanças, já cogitava voltar a São Paulo, já tinha parado para tomar um café e arejar a cabeça, foi que resolvi entrar na última loja e encontrei várias almas bondosas e empáticas. Já entrei dizendo assim: “moça, vim te pedir ajuda!”. Então fiquei pensando se o problema também tem a ver com a abordagem, né? A moça viu a nota fiscal, pegou o tênis, levou ao gerente da loja, que chamou imediatamente outro moço, que veio com uma caixa de ferramentas maior que a minha, onde guardava um alicate melhor que o meu, cortou a peça toda como se fosse papel e, plim!, tirou o alarme, deixando meu tênis novo livre para caminhar. Eu fiquei ali alegre e boquiaberta. O gerente, meio se divertindo, me disse: “Estamos acostumados. Os nossos alarmes às vezes empenam e ficam presos também, então já sabemos como fazer isto”.

Agradeci, por pouco não o fiz de joelhos. Já sou uma jovem senhora, não ficaria bem. Povo bacana! Até tentei comprar algo na loja, mas o outro tênis de que gostei não tinha numeração que me coubesse. Me senti a Cinderela. Fui embora distribuindo simpatia. Só comprarei tênis lá, quem sabe, de agora em diante. Faz uma diferença danada quando há boa vontade. Bem, então repasso o que aprendi. Caso sua roupa, seu brinquedo, suas calcinhas, seu sapato venham com o alarme preso. Você já sabe que pode optar por uma solução Schrek, tipo martelar, pôr fogo e tal, mas se preferir pedir ajuda num shopping, é assim:

• Mire em uma loja que use esses sistemas de alarme e, assim, evite desperdiçar sua história triste com quem só vai te oferecer frases de autoajuda.

• Na porta do estabelecimento, escaneie os atendentes e escolha uma pessoa com ares de solidária, ao menos os ares.

• Já chegue humildemente pedindo ajuda. Use essa palavra, ela é chave e pode comover alguns.

• Apresente a nota fiscal antes que a peçam. A cara de desconfiança que as pessoas fazem incomoda mais do que o alarme grudado na roupa.

• Mantenha, o tempo todo, uma cara de quase choro e cansaço. Isso também comove.

• Assista a toda a operação de retirada do alarme com interesse, levantando a cabeça, esticando o pescoço, eventualmente fazendo perguntas meio ignorantes.

• Depois da peça retirada, bata umas palminhas e agradeça muito, até exageradamente, em especial se não for comprar nada nessa loja. Favor e ajuda são isso. O resto se chama consumo.

• Volte para sua casa com a sensação de ter aprendido a observar quando for comprar suas coisas em lojas. Só não tem mesmo jeito se for pela internet.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

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